André Janones apresenta estratégia de campanha de Lula na Argentina
Em visita a Buenos Aires, o deputado se reuniu com Sergio Massa e Cristina Kirchner e falou sobre mobilização digital; aliados de Javier Milei criticaram a iniciativa.
Resumo em 30 segundos
André Janones foi a Buenos Aires para apresentar a políticos argentinos estratégias digitais usadas na campanha de Lula. O deputado se reuniu com Sergio Massa e Cristina Kirchner e falou sobre mobilização nas redes sociais em entrevista à emissora C5N. Javier Milei e aliados repercutiram críticas à visita, citando interferência estrangeira.
O deputado federal André Janones (Rede-MG) visitou Buenos Aires nesta segunda-feira (3) para apresentar a políticos argentinos estratégias digitais usadas na campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A iniciativa provocou críticas de aliados do presidente Javier Milei, que compartilhou publicações sobre suposta interferência estrangeira e a presença de brasileiros na política do país.
Janones afirmou que foi à Argentina para “tentar levar um pouco das técnicas” usadas na campanha que levou Lula à vitória sobre Flávio Bolsonaro (PL), no fim de outubro. Entre as estratégias está o canal de WhatsApp Exército do Lula, pelo qual o deputado enviava tarefas a apoiadores, sobretudo para atuação nas redes sociais.
Uma das orientações divulgadas por Janones era evitar interagir com publicações bolsonaristas, inclusive não as abrir. A ideia, segundo a explicação apresentada pelo deputado, era sinalizar às plataformas que aquele conteúdo não despertava interesse. Ele repetiu a recomendação em uma entrevista ao vivo à emissora argentina C5N, na noite de segunda-feira.
Antes de participar do programa, Janones se reuniu com Sergio Massa e Cristina Kirchner. Massa, ex-ministro da Economia, foi derrotado por Milei no segundo turno da eleição presidencial de 2023 e busca se tornar o principal nome da oposição no pleito do ano que vem. Cristina, que presidiu a Argentina de 2007 a 2015, cumpre prisão domiciliar e tenta recuperar seus direitos políticos.
A chegada do deputado foi comentada por pessoas próximas a Milei e pelo próprio presidente em publicações no X. Uma mensagem republicada por ele dizia que o peronismo precisava de brasileiros para ensinar a fazer campanha, apesar de criticar a interferência na soberania argentina. Outra chamou os visitantes de “100% lobotomizados”; a frase era do economista Felipe Núñez, diretor do Banco de Investimento e Comércio Exterior da Argentina.
Também republicado por Milei, um perfil chamado Escola Austríaca de Economia acusou os estrategistas brasileiros de serem “mercenários” e afirmou que eles participariam de uma campanha eleitoral “suja”. O influenciador Daniel Parisini, conhecido como Gordo Dan, escreveu que a esquerda argentina recebia dirigentes brasileiros depois de anos denunciando interferência estrangeira.
O chanceler argentino Pablo Quirno afirmou que a visita era “mais cantada que Despacito”, em referência à música de Luis Fonsi. Já Santiago Caputo, estrategista político e aliado próximo de Milei, publicou críticas à qualidade das mensagens políticas e desejou que os visitantes tentassem convencer os argentinos de que os peronistas não eram criminosos. Caputo não citou Janones diretamente.
As reações também retomaram a acusação, repetida por Milei sem apresentação de provas, de que Lula teria financiado a campanha de Massa em 2023. A suspeita se apoia na participação de publicitários ligados ao PT na equipe do candidato peronista, embora estrategistas de outras partes do mundo também tenham atuado na campanha. Em uma publicação compartilhada pelo presidente, o economista Pablo Wende ironizou a possibilidade de Lula financiar o peronismo no próximo ano.
A visita ocorre em meio a tensões entre os governos brasileiro e argentino, após ataques de Milei a autoridades do Brasil. O governo brasileiro informou ter convocado a encarregada de negócios da Argentina em Brasília, María Emilia Cortés, para prestar esclarecimentos na quinta-feira (29). A Casa Rosada negou que a convocação tenha ocorrido.
Outro foco de atrito é a fuga de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos, com saída de Porto Iguaçu. Veículos argentinos apontaram Caputo como um dos envolvidos no monitoramento da operação, iniciada na terça-feira (27), e relataram que ele foi parado em uma blitz no dia seguinte, em uma rodovia entre a cidade e a região de Buenos Aires. O possível envolvimento de Milei provocou cobranças de opositores e denúncias contra integrantes do governo.
Questionado em entrevista coletiva nesta terça-feira sobre o que Milei sabia da operação, o porta-voz da Casa Rosada, Adrián Ravier, respondeu: “Não sei”. Ele afirmou que o governo não tinha mais a dizer e que considerava o assunto encerrado. Ravier também declarou que não houve pedido de captura internacional nem irregularidade na entrada de Flávio Bolsonaro na Argentina ou na viagem aos Estados Unidos, com escala no Equador.
Para entender
- Peronismo
- Movimento político argentino associado a Juan Domingo Perón, presidente do país em diferentes períodos a partir de 1946. Reúne correntes variadas e tem no Partido Justicialista uma de suas principais expressões.