Wall Street bloqueia perfis do FinTwit por compartilhar pesquisas
Pelo menos 12 contas no X e no LinkedIn receberam notificações de direitos autorais do Bank of America ou do Morgan Stanley; algumas foram suspensas.
Resumo em 30 segundos
Bank of America e Morgan Stanley enviaram notificações de direitos autorais a pelo menos 12 perfis do FinTwit que publicaram pesquisas produzidas por bancos. Algumas contas foram bloqueadas temporariamente ou suspensas. As instituições buscam proteger análises que, com o avanço da inteligência artificial, podem ser copiadas e sintetizadas por sistemas automatizados.
Wall Street intensificou as medidas contra perfis do chamado FinTwit, comunidade de usuários que comenta mercados e investimentos nas redes sociais, após contas no X e no LinkedIn compartilharem pesquisas produzidas por bancos. Pelo menos 12 perfis receberam notificações de direitos autorais do Bank of America ou do Morgan Stanley, e alguns tiveram contas bloqueadas temporariamente ou suspensas.
FinTwit é uma abreviação de “Financial Twitter”, nome associado ao período em que o X se chamava Twitter. A comunidade reúne desde investidores e analistas até profissionais de finanças que publicam gráficos, comentários e dados de mercado. O X continua sendo um dos espaços em que esse conteúdo circula, mas as reclamações também atingiram publicações no LinkedIn.
Neil Sethi, que administra uma pequena empresa de investimentos em Upper Arlington, Ohio, perdeu o acesso à conta @neilksethi após o Bank of America reclamar do uso de pesquisas da instituição. Ele tinha desenvolvido o perfil ao longo de uma década e reunido quase 30 mil seguidores. Depois da suspensão, criou outra conta, acompanhada por cerca de 9.300 usuários, mas não conseguiu recuperar a antiga.
Sethi afirmou que se dispôs a não publicar novamente as pesquisas, mas continuou sem acesso ao perfil. “Ter isso arrancado de você, sem qualquer oportunidade de entender o que está acontecendo ou de resolver a situação, é frustrante”, disse. Ele explicou que a presença nas redes ampliava sua visibilidade e ajudava a construir relações com pessoas que, de outra forma, talvez não conhecesse.
As notificações citam a Lei de Direitos Autorais do Milênio Digital, conhecida pela sigla DMCA, legislação dos Estados Unidos que prevê mecanismos para denunciar conteúdo protegido publicado sem autorização. Ryan Detrick, estrategista-chefe de mercado do Carson Group Holdings, recebeu uma notificação do Morgan Stanley em 2 de setembro. O aviso levou ao bloqueio temporário de sua conta no X, que tinha mais de 225 mil seguidores.
Mike Zaccardi, redator de finanças com mais de 80 mil seguidores, disse que começou a receber reclamações em nome do Bank of America há cerca de um ano e que o volume aumentou nos últimos meses. Ele e Sethi também receberam notificações relacionadas a publicações no LinkedIn. Ambos continuaram a compartilhar pesquisas de bancos, inclusive do Bank of America, apesar dos avisos e do risco de novas suspensões.
A disputa se intensifica num momento em que a inteligência artificial torna mais fácil localizar e processar material publicado na internet. Sistemas de coleta automatizada, ou web scraping, rastreiam páginas e incorporam dados a ferramentas de IA. Bancos temem que chatbots e agentes digitais sintetizem suas análises sem atribuição e ofereçam respostas que substituam, em parte, os relatórios pelos quais as instituições cobram clientes.
A questão jurídica depende do que foi reproduzido. Fatos isolados, como dados de mercado, não são protegidos por direitos autorais nos Estados Unidos, mas a seleção, a organização e a apresentação do conteúdo podem receber proteção. “Se você simplesmente copiar o conteúdo, então, sim, há um argumento plausível para uma violação de direitos autorais”, afirmou Rebecca Tushnet, professora de direito constitucional na Harvard Law School.
Ben Mok, vice-presidente de proteção de marca e conteúdo da Corsearch — empresa contratada pelo Bank of America para formalizar reclamações —, disse que a facilidade de encontrar documentos por meio de redes sociais e ferramentas de IA ampliou a circulação de pesquisas sem autorização. Para Michael Eastwood, diretor de pesquisa de ações para as Américas da Jefferies, a IA generativa tornou mais eficiente a busca por esse tipo de informação.
Os bancos, em geral, não detalharam as ações adotadas. Bank of America e Morgan Stanley não comentaram as medidas. O Goldman Sachs afirmou que não permite que terceiros publiquem seus relatórios em redes sociais, mas não esclareceu se tomou providências para fazer cumprir a regra. J.P. Morgan, Citigroup e Toronto-Dominion Bank não informaram se adotaram ações semelhantes; Royal Bank of Canada e X não responderam a pedidos de comentário.
A proteção das pesquisas também reflete mudanças no negócio de análise financeira. Regras que separaram os custos de pesquisa dos de negociação reduziram os orçamentos, enquanto fundos negociados em bolsa (ETFs) facilitaram investimentos passivos em índices e temas amplos. Alguns fundos de hedge passaram a manter equipes próprias de pesquisa, e os gastos de clientes com análise de ações caíram 50% desde 2018, segundo dados da Substantive Research.
A disputa não se limita ao mercado financeiro. Empresas de diferentes setores tentam impedir que sistemas automatizados copiem seus conteúdos. No fim do ano passado, o New York Times e o Chicago Tribune processaram a Perplexity AI, alegando que a startup reproduziu e distribuiu material jornalístico sem autorização. Em paralelo, Sethi e Zaccardi disseram usar ferramentas de IA para alterar gráficos de pesquisas bancárias antes de publicá-los, sem que isso elimine o risco de novas reclamações.
Para entender
- FinTwit
- Abreviação de “Financial Twitter”, expressão que surgiu quando o X se chamava Twitter. É usada para designar a comunidade de investidores, analistas e profissionais de finanças que compartilham comentários, gráficos e informações sobre mercados nas redes sociais.
- DMCA
- A Lei de Direitos Autorais do Milênio Digital é uma legislação dos Estados Unidos que estabelece mecanismos para denunciar conteúdos protegidos por direitos autorais publicados sem autorização. Plataformas podem agir após receber notificações, embora a proteção dependa do material reproduzido.