Vídeo de urna dos EUA não comprova falha na urna eletrônica brasileira
A máquina exibida era de uma empresa que nunca forneceu equipamentos ao TSE; o teste mostrou uma falha em uma eleição simulada nos Estados Unidos.
Resumo em 30 segundos
Um vídeo antigo voltou a circular com a alegação de que urnas brasileiras podem ter votos alterados. A máquina mostrada, porém, era um modelo usado nos Estados Unidos, da Election Systems & Software, empresa que nunca forneceu equipamentos ao TSE. O sistema brasileiro tem arquitetura própria e prevê testes e procedimentos de auditoria.
Um vídeo de uma reportagem exibida pela RedeTV em 2019 voltou a circular nas redes sociais com a alegação de que urnas eletrônicas usadas no Brasil podem ter votos alterados. A máquina mostrada, porém, era um equipamento utilizado nos Estados Unidos e não faz parte do sistema de votação brasileiro; a empresa citada na reportagem nunca forneceu urnas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
As imagens mostram uma demonstração de falhas em um modelo americano da Election Systems & Software (ES&S). Segundo o TSE, a companhia não atua no Brasil. Uma legenda acrescentada ao vídeo afirma que “Bolsonaro tinha razão, as urnas podem ser fraudadas”, mas a demonstração não ocorreu em uma urna brasileira e não comprova vulnerabilidade nos equipamentos usados nas eleições do país.
A reportagem original acompanhou um experimento do professor de ciência da computação e engenharia da Universidade de Michigan, J. Alex Halderman. Em 13 de setembro de 2018, durante a conferência EmTech, ele mostrou que uma máquina de votação americana podia exibir um resultado diferente dos votos registrados em uma eleição simulada.
Três voluntários votaram no mesmo candidato, mas o resultado impresso apontou vitória por dois votos a um para o adversário. Halderman explicou que havia infectado um cartão de memória com um programa malicioso, usado para configurar os candidatos na máquina. Segundo ele, o modelo era usado em 18 estados americanos.
A arquitetura das urnas brasileiras é diferente. De acordo com o TSE, o equipamento é desenvolvido conforme requisitos definidos pelo tribunal, descritos em um edital com mais de 500 páginas. Servidores do órgão participam do projeto eletrônico e da qualificação das máquinas, enquanto a fabricação e os testes são supervisionados por servidores e técnicos ligados à Justiça Eleitoral.
Em três décadas de uso das urnas no Brasil, quatro empresas venceram licitações para fabricar ou montar os equipamentos: Positivo Tecnologia, Diebold/Diebold Procomp, Unisys Brasil e Procomp Indústria Eletrônica. Os modelos mais recentes foram fabricados pela Positivo. A ES&S não está entre as fornecedoras.
Os programas utilizados em cada eleição são desenvolvidos pelas equipes do TSE e inseridos nas urnas. O tribunal também prevê mecanismos para testar e conferir o funcionamento dos equipamentos. Entre eles estão o Teste Público de Segurança, feito no ano anterior à eleição para que especialistas procurem falhas, e o Teste de Integridade, realizado no dia da votação.
No Teste de Integridade, votos de uma votação simulada são registrados em cédulas e depois digitados na urna, sob acompanhamento de auditoria externa. A conferência compara os votos registrados com o resultado apurado pela máquina. O procedimento busca verificar se o sistema contabiliza corretamente os votos lançados no equipamento.
Em cada seção eleitoral, a urna emite antes da votação a zerésima, documento que registra que não há votos contabilizados no aparelho naquele momento. Após o encerramento, é impresso o Boletim de Urna (BU), com a apuração registrada. O boletim pode ser consultado por qualquer pessoa, permitindo comparar os resultados divulgados com os dados impressos em cada seção.
A reportagem americana também tratou de um pedido da ES&S para que máquinas de votação nos Estados Unidos passassem a emitir comprovantes em papel. A empresa argumentou que os registros poderiam ajudar a evitar erros e adulterações. Essa discussão sobre equipamentos e regras eleitorais americanos não descreve o funcionamento das urnas brasileiras, que têm projeto e procedimentos próprios de auditoria.