Solidão aparece ligada a piores indicadores de saúde mental no Brasil
Pesquisa nacional aponta que o índice de saúde mental foi de 383 pontos entre quem relatou solidão frequente e de 782 entre quem não sentiu solidão.
Resumo em 30 segundos
O Panorama da Saúde Mental 2026 identificou associação entre solidão e piores indicadores de saúde mental no Brasil. O levantamento ouviu 4.601 pessoas e também relacionou melhores resultados à convivência com amigos, à atividade física e ao voluntariado. Os dados não permitem determinar se a solidão causa sofrimento psíquico ou se ocorre como consequência dele.
A solidão foi o fator mais associado a indicadores ruins de saúde mental no Brasil, segundo a edição de 2026 do Panorama da Saúde Mental. No levantamento, 36,5% dos entrevistados disseram ter se sentido sozinhos, e a convivência com amigos apareceu ligada a melhores resultados. A pesquisa ouviu 4.601 pessoas de todo o país entre abril e junho.
O estudo foi realizado pelo Instituto Cactus, organização filantrópica voltada à saúde mental, em parceria com a AtlasIntel. A amostra foi planejada para representar a população por região, renda e gênero. O principal indicador, chamado Índice Contínuo de Avaliação da Saúde Mental (ICASM), varia de zero a mil pontos; pontuações maiores correspondem a melhores indicadores. A média nacional ficou em 671 pontos.
Entre as pessoas que relataram solidão três vezes ou mais durante o período pesquisado, o ICASM médio foi de 383 pontos. Entre aquelas que não tiveram esse sentimento, chegou a 782. Como a solidão foi incluída na pesquisa pela primeira vez neste ano, o resultado não permite comparar esse recorte com edições anteriores.
Os dados mostram uma associação, mas não estabelecem se a solidão provoca sofrimento psíquico ou se dificuldades de saúde mental levam ao isolamento. Mariana Rae, especialista em saúde mental do Instituto Cactus e mestre em saúde pública pela Universidade Harvard, afirma que a relação pode funcionar nos dois sentidos: pior saúde mental pode aumentar a solidão, que, por sua vez, também pode afetar o bem-estar.
A solidão foi mais frequente entre solteiros, dos quais 51,7% relataram o sentimento, do que entre casados, com 26,6%. Também apareceu entre 52,5% das pessoas com diagnóstico de transtorno mental e entre 46,8% dos usuários de redes sociais por pelo menos três horas ao dia. Entre quem relatou brigas frequentes com familiares, a proporção foi de 84,2%.
A convivência social esteve associada a resultados melhores. Quem encontrou amigos nas duas semanas anteriores à pesquisa teve ICASM de 737 pontos, ante 539 entre os que não tiveram esses encontros. Trabalho voluntário, prática de atividade física e frequência a igrejas ou templos também apareceram relacionados a índices mais altos.
A solidão não é o mesmo que morar sozinho ou estar sem companhia em determinado momento. Uma pessoa pode viver só e manter relações próximas; outra pode estar cercada de gente e sentir que não tem vínculos em que possa confiar. Por isso, os resultados apontam para a importância da qualidade das relações, e não apenas da quantidade de contatos.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu a solidão como uma ameaça à saúde pública global. A entidade associa a solidão e o isolamento social a maior risco de doenças cardíacas, diabetes, declínio cognitivo e morte prematura, além de apontar que podem dobrar a probabilidade de depressão. O reconhecimento ajuda a explicar por que o tema tem sido tratado também como questão de saúde coletiva, e não apenas individual.
Sandro Batista Rodrigues, diretor de pesquisa da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, defende que profissionais de saúde abordem a solidão nas consultas. Uma estratégia é a chamada prescrição social: em vez de se limitar a medicamentos, o profissional conversa com a pessoa e indica atividades e espaços comunitários capazes de fortalecer vínculos, como grupos de caminhada, iniciativas culturais, hortas comunitárias ou voluntariado.
Rae afirma que essas possibilidades dependem também de condições coletivas, como espaços comunitários, parques seguros, transporte acessível e opções gratuitas de lazer. Em Florianópolis, médicos de família têm recomendado a retomada dos estudos a pacientes como parte do cuidado. A proposta, segundo Rodrigues, é construir com cada pessoa uma atividade que tenha significado para ela, em vez de apenas ocupar o tempo.
O levantamento também registrou o uso de inteligência artificial (IA) em situações relacionadas à saúde mental. Embora 86,4% dos participantes já tivessem usado alguma ferramenta de IA, 15% recorreram a ela durante uma crise, 9,1% fizeram terapia por chatbot e 8,8% buscaram a tecnologia para se sentir menos sozinhos. Entre os que relataram solidão três vezes ou mais, 32,1% disseram ter procurado companhia na IA; entre os que não sentiram solidão, foram 1,8%.
Rae alerta que ferramentas genéricas não substituem o cuidado humano e podem dar uma sensação de conexão sem oferecer uma relação com outra pessoa. Ela defende que a IA funcione como uma ponte para atendimento profissional. O levantamento também identificou dificuldades de acesso: custo menor, disponibilidade a qualquer hora e menor receio de julgamento foram apontados como motivos para recorrer à tecnologia em vez de procurar um terapeuta.
A pesquisa registrou ainda outros fatores associados à saúde mental. Preocupação financeira foi mencionada por 78,1% dos entrevistados, e 17,2% disseram ter deixado de comer por falta de recursos ao menos uma vez. O ICASM foi de 825 pontos entre quem não se preocupou com dinheiro e caiu para 558 entre aqueles que relataram preocupação frequente. Assédio e preconceito também apareceram relacionados a índices menores.