Santos pode liberar venda de até 80% do futebol em reforma
O Conselho Deliberativo vota a proposta em 8 de novembro; os quatro candidatos à presidência pedem que os associados rejeitem a mudança antes da eleição.
Resumo em 30 segundos
O Conselho Deliberativo do Santos deve votar em 8 de novembro uma reforma que permitiria vender até 80% do futebol do clube a investidores. A proposta não aprova a venda nem define os termos de uma SAF. Os quatro candidatos à presidência criticam a votação antes da eleição de dezembro e cobram transparência sobre o texto.
O Conselho Deliberativo do Santos deve votar em 8 de novembro uma reforma do estatuto que permitiria vender até 80% do futebol do clube a investidores. A proposta, ligada à possibilidade de transformar o Santos em Sociedade Anônima do Futebol (SAF), tornou-se tema da eleição presidencial marcada para dezembro e provocou críticas dos quatro candidatos, que pediram aos associados que rejeitem a mudança.
O estatuto atual limita a participação de investidores a 49%, impedindo que assumam o controle majoritário do futebol. A reforma alteraria esse limite, mas não fecharia por si só a venda nem definiria os termos de uma eventual SAF. A votação ocorre em meio às negociações com a SDC Sports LLC, empresa dos Estados Unidos interessada em comprar o futebol santista.
Representantes da SDC Sports se reuniram pela primeira vez com conselheiros no fim de agosto. O clube e a companhia já haviam assinado um termo não vinculante, que formaliza as tratativas e concede exclusividade à empresa. Os representantes ainda não informaram publicamente o valor da proposta. Uma cifra de R$ 2 bilhões circula como estimativa de investimento: R$ 1 bilhão para pagar dívidas e outro R$ 1 bilhão para aplicar no futebol.
A SDC Sports foi fundada por Michael Lipman e Diego Garcia, que conduziram a apresentação ao Conselho Deliberativo. Eles estavam acompanhados de Jesse Fioranelli, apontado para assumir o projeto como diretor de futebol, e do analista financeiro Can Keles. A eleição de dezembro escolherá o presidente que comandará o clube de 2027 a 2029.
Na sexta-feira, 23, os quatro candidatos divulgaram uma nota conjunta contra a votação da reforma antes da eleição. Eles afirmaram que as emendas aprovadas ainda não teriam sido incorporadas a uma versão consolidada do texto. Também alegaram que não foi respeitado o prazo de 15 dias para análise do documento após a votação das emendas.
No comunicado, pediram à Mesa do Conselho Deliberativo que esclareça a situação do texto, apresente a versão integral e cumpra os procedimentos e prazos previstos nas normas do clube antes de convocar a Assembleia Geral. Os candidatos disseram que a posição busca garantir transparência, segurança jurídica e participação dos associados numa decisão que pode alterar o futuro do Santos.
As posições dos candidatos sobre o modelo de SAF, porém, não são idênticas. José Renato Quaresma, ex-diretor das categorias de base, defende que sejam avaliados os investidores e os valores. Para ele, uma proposta deve explicitar como os recursos serão destinados a dívidas, elenco profissional, Vila Belmiro, base e centro de treinamento, além de evitar que o clube perca a ligação com os torcedores.
O advogado Ivan Luduvice criticou a exclusividade concedida à SDC Sports e questionou o histórico e a estrutura da empresa. Ele também levantou a hipótese de que credores do Santos poderiam estar por trás da companhia, mas não apresentou provas dessa suspeita. Luduvice defende primeiro identificar os credores e reorganizar as dívidas, antes de buscar parceiros, e afirma que o Santos deve ser o negócio principal do investidor.
Wladimir Mattos, que também concorreu na eleição anterior, disse que é necessário esclarecer quais dívidas seriam assumidas, onde o dinheiro seria aplicado e quais garantias sustentariam o projeto esportivo no longo prazo. Ele avalia que a SAF não deve servir apenas para quitar débitos, mas para valorizar o clube e preservar sua identidade. A legislação da SAF prevê mecanismos para destinar parte das receitas ao pagamento de dívidas.
Maurício Maruca, empresário e vice na eleição passada, defende que o Santos constitua uma SAF antes de receber propostas e possa, inicialmente, manter todas as ações. Depois, segundo ele, o clube poderia decidir, com participação do Conselho e dos associados, se vende parte da empresa, atrai investidores ou permanece como único dono. Em comum, os candidatos cobram mais clareza sobre o modelo e as condições antes de uma decisão que abra caminho para a venda do controle do futebol.
Para entender
- Sociedade Anônima do Futebol
- A SAF é um modelo jurídico criado no Brasil para permitir que clubes de futebol constituam uma sociedade empresária dedicada à atividade. A legislação prevê regras próprias de governança e mecanismos para o pagamento de dívidas.