Redações do Enem mostram avanço na argumentação, mas mantêm falhas
Levantamento com mais de 500 mil textos aponta problemas de ortografia, pontuação e repertório; o Enem 2026 será aplicado em 8 e 15 de novembro.
Resumo em 30 segundos
A análise de redações corrigidas no primeiro semestre identificou queda na proporção de textos com problemas de argumentação, mas a dificuldade ainda apareceu em 208.165 ocorrências. Ortografia, pontuação, coesão e uso de repertório também se destacaram. Como 99,5% dos estudantes analisados eram de instituições particulares, os dados não representam necessariamente todos os candidatos.
Um levantamento com mais de 500 mil redações corrigidas no primeiro semestre deste ano identificou avanços na argumentação, mas apontou que desenvolver e conectar ideias continua entre os principais desafios dos estudantes. A análise, feita pela plataforma Redação Nota 1000, da Cogna Educação, também encontrou falhas frequentes de ortografia, pontuação, coesão e uso de repertório cultural, a menos de duas semanas das provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), marcadas para 8 e 15 de novembro.
A proporção de textos com problemas de argumentação caiu de 61,65% no mesmo período de 2025 para 41,73% neste ano. Ainda assim, foram contabilizadas 208.165 ocorrências dessa dificuldade nas correções. A falha aparece, por exemplo, quando o candidato apresenta uma afirmação, mas não explica suas causas ou consequências nem mostra como ela sustenta a tese defendida.
Na avaliação estimada pelo levantamento, problemas argumentativos podem reduzir em média 80 pontos na Competência III, que considera a seleção, a organização e a interpretação de informações para defender um ponto de vista. Já falhas de repertório e de coesão podem representar perdas médias de 40 pontos nas competências correspondentes. A nota do Enem é formada por cinco competências, avaliadas de zero a 200 pontos cada.
Carolina Siequeroli, gerente sênior da Redação Nota 1000, afirma que o treino frequente ajuda o estudante a reconhecer padrões de erro, ordenar as ideias e ganhar segurança. Para quem ainda tem dificuldade em argumentar, a orientação é estabelecer relações claras entre os pontos apresentados e evitar afirmações genéricas, em vez de tentar memorizar novas citações na reta final.
O uso de referências culturais também exige conexão com a tese. A pesquisa registrou 10.418 ocorrências de “repertório de bolso”, expressão usada para citações conhecidas que são inseridas sem relação consistente com o tema. Também apontou 48.778 casos de repertório não legitimado e 25.629 situações em que a referência não foi bem articulada ao argumento. Uma menção a filósofo, escritor ou obra pode ser pertinente, mas precisa contribuir para a discussão; citá-la, por si só, não garante pontuação máxima na Competência II, que avalia a compreensão do tema e o uso produtivo de conhecimentos.
Os dados sugerem que a aplicação do repertório melhora com a escolaridade: entre os repertórios considerados pertinentes, 33% também foram classificados como produtivos na primeira série do ensino médio, proporção que chegou a 46,5% na terceira série. A pesquisa, porém, reuniu estudantes das três séries e teve predomínio de alunos de instituições particulares, que representaram 99,5% do recorte por perfil escolar. Por isso, os resultados não necessariamente retratam o conjunto dos estudantes brasileiros.
Na escrita formal, foram registrados 967.155 apontamentos de ortografia e 945.227 relacionados ao emprego da vírgula. Também apareceram problemas de concordância, acentuação, crase e regência. Os números correspondem a ocorrências identificadas nas redações, não ao total de estudantes: um mesmo texto pode conter mais de um erro. Ortografia e pontuação permaneceram entre as dificuldades mais frequentes da Competência I, que avalia o domínio da norma-padrão.
A repetição de palavras, por sua vez, foi identificada em 41,42% dos textos, ante 45,28% em 2025. A Competência IV considera a articulação entre as partes da redação. Para demonstrar coesão, não basta acrescentar conectivos: as ideias precisam avançar de modo compreensível entre frases e parágrafos, sem repetições desnecessárias ou mudanças bruscas de raciocínio.
Embora menos comuns, alguns problemas podem levar à nota zero ou limitar a pontuação. A análise encontrou 1.487 casos de fuga total ao tema, 782 redações em branco e 295 textos com número insuficiente de linhas. Foram registrados ainda 5.521 casos de tangenciamento, quando o candidato aborda apenas parte do recorte proposto. Nessa situação, as notas das Competências II, III e V ficam limitadas a 40 pontos cada; a Competência V avalia a proposta de intervenção para o problema discutido.
A leitura atenta do tema é, portanto, uma etapa decisiva. Antes de escrever, o estudante pode identificar o assunto central e o recorte solicitado, formular uma tese e planejar dois argumentos que respondam diretamente à proposta. A intervenção, por sua vez, deve indicar quem realizará a ação, o que será feito, como e com qual efeito esperado, além de apresentar detalhamento de ao menos um desses elementos.
Com a prova próxima, Siequeroli recomenda revisar erros já observados nas redações corrigidas e praticar o planejamento com propostas de edições anteriores. A revisão pode incluir uma lista pessoal de dificuldades em ortografia, pontuação, concordância, repetição e desenvolvimento de argumentos. Segundo ela, organizar parágrafos e reduzir repetições ainda são aspectos passíveis de ajuste em pouco tempo, enquanto aprimorar o vocabulário e construir argumentação mais sofisticada depende de prática continuada.