Protestos na França pressionam Macron em meio à crise do custo de vida
Com aprovação de 15%, o presidente enfrenta atos de estudantes e de outros setores; novas manifestações estão previstas para sábado, 24 de outubro.
Resumo em 30 segundos
Mais de 400 mil pessoas foram às ruas da França em protestos contra o custo de vida e as condições das escolas. A mobilização pressiona Emmanuel Macron, cuja aprovação está em 15%, e ocorre em meio à instabilidade política e às disputas partidárias que antecedem a eleição presidencial de 2027.
Mais de 400 mil pessoas participaram de protestos na França no sábado, 17 de outubro, contra o aumento do custo de vida e as condições das escolas. As manifestações, que começaram semanas antes e mobilizaram estudantes do ensino médio, pressionam o governo do presidente Emmanuel Macron, cuja aprovação foi medida em 15% em uma pesquisa do instituto Ipsos. O premiê Sébastien Lecornu assumiu a condução da resposta à crise.
Os estudantes reivindicam melhorias em escolas que, segundo a pesquisadora Célia Belin, têm falta de professores, financiamento insuficiente e estruturas em más condições. A mobilização também reuniu outros setores insatisfeitos com o governo e com a alta dos preços. Macron pediu o fim dos protestos em um pronunciamento de oito minutos, mas os manifestantes ainda planejavam voltar às ruas no sábado, 24 de outubro.
O custo de vida é um dos fatores que pesam na insatisfação dos eleitores. Desde 2017, o salário mediano francês teve reajuste de 22,8%, abaixo da inflação acumulada de 23,4% no mesmo período, de acordo com o Insee, instituto nacional de estatísticas. O dado se refere à França como um todo e não detalha diferenças entre cidades nem o orçamento necessário para uma pessoa ou uma família.
A pressão sobre os preços também aparece nos combustíveis. A alta do petróleo provocou falta de combustível em postos de diferentes regiões e elevou o preço da gasolina. No início de outubro, entrou em vigor um auxílio de 100 euros para trabalhadores de baixa renda que dependem do carro para se deslocar. O benefício cobre o período de abril a dezembro deste ano.
A crise atual reacende uma questão que já havia mobilizado manifestantes em 2018, quando os coletes amarelos protestaram contra o custo dos combustíveis. A percepção de que os rendimentos não acompanham a inflação se soma à concentração de renda: quase 39% da renda total francesa está nas mãos dos 20% mais ricos, segundo os dados citados do Insee.
A avaliação de Macron também reflete decisões econômicas e políticas de seus mandatos. No primeiro, ele extinguiu o imposto sobre grandes fortunas e o substituiu por uma tributação menor, restrita ao patrimônio imobiliário. A mudança alimentou a imagem de que o presidente favorece os mais ricos, apontada por eleitores ouvidos em grupos focais por Deborah Mattinson, pesquisadora britânica. Ela também identificou queixas de que o governo não compreende as preocupações cotidianas, além de inquietações com criminalidade e comportamentos antissociais.
A crise política se agravou depois das eleições europeias de 2024, quando o Reagrupamento Nacional (RN), partido de direita radical de Marine Le Pen, ampliou sua presença. A legenda conquistou 30 das 81 vagas francesas no Parlamento Europeu, sob a liderança de Jordan Bardella; outros cinco assentos foram ocupados por representantes de movimentos de extrema direita.
Após o resultado, Macron dissolveu a Assembleia Nacional, a câmara baixa do Parlamento francês, e convocou eleições antecipadas. Uma frente formada para impedir a maioria da direita radical resultou em um Parlamento dividido, o que dificulta a aprovação de medidas. Apesar do apoio recebido da esquerda na disputa, Macron não escolheu representantes progressistas para compor seu gabinete. Desde 2022, o segundo mandato teve cinco primeiros-ministros; Lecornu ocupa o cargo desde setembro de 2025.
A instabilidade política ocorre em meio a pressões sobre as contas públicas. A pandemia e a guerra na Ucrânia, somadas à necessidade de a Europa reforçar sua defesa diante da incerteza sobre o compromisso dos Estados Unidos com a segurança do continente, elevaram os custos para os governos. A proposta de ampliar os gastos militares de 2% para 5% do produto interno bruto até 2035 também pesa no debate fiscal. Na França, o governo ainda anunciou a substituição de plataformas de videoconferência de empresas americanas por soluções nacionais, com o objetivo de ampliar o controle sobre dados governamentais.
A insatisfação abre espaço para disputas entre os partidos antes das eleições presidenciais previstas para abril e maio do ano que vem. O RN tem usado os protestos para defender mudanças profundas e associar a violência nas manifestações à extrema esquerda. Já o líder do partido de esquerda La France Insoumise, Jean-Luc Mélenchon, participou de atos e criticou o governo e a repressão policial. Macron e aliados afirmam que a esquerda tenta se apropriar do movimento estudantil.
Uma reportagem do site Mediapart acusou Bardella de antissemitismo após a divulgação de mensagens trocadas por ele com outras pessoas. O dirigente negou as acusações. A cientista política Nonna Mayer avalia que o episódio pode ter efeito limitado entre os eleitores mais fiéis do RN, mas que o tema pode voltar ao debate eleitoral. Para o governo, a cobrança imediata é por medidas capazes de responder às reivindicações dos estudantes, enquanto a definição de políticas de longo prazo deve depender do resultado das eleições.
Para entender
- Insee
- O Institut national de la statistique et des études économiques é o instituto público francês responsável por produzir e divulgar estatísticas oficiais sobre temas como população, preços, salários e economia.
- Reagrupamento Nacional
- O Rassemblement National, conhecido pela sigla RN, é um partido político francês de direita radical. Marine Le Pen é uma de suas principais lideranças, e Jordan Bardella preside a legenda.