Protestos estudantis na França pressionam governo por verba para escolas
Mais de 6,8 mil pessoas foram detidas, incluindo 5 mil menores; o governo também tenta conter a dívida pública, que chegou a 119% do PIB.
Resumo em 30 segundos
Protestos e greves estudantis iniciados em setembro na França pedem mais recursos para a educação e ampliam a pressão sobre o governo de Emmanuel Macron. Mais de 6,8 mil pessoas foram detidas, e cerca de 150 escolas estavam fechadas. A crise ocorre enquanto o país busca conter uma dívida pública de 119% do PIB e enfrenta impasse político sobre cortes de gastos.
Protestos estudantis e greves iniciados em setembro na França, motivados por reivindicações de mais recursos para a educação, ampliaram a pressão sobre o governo do presidente Emmanuel Macron e expuseram a dificuldade de conter o endividamento público. As manifestações, que começaram em apoio a professores grevistas de uma escola parisiense, se espalharam pelo país e incluem confrontos com a polícia, detenções e escolas fechadas.
Os atos são liderados por estudantes do ensino médio, em sua maioria com idades entre 15 e 18 anos, que apontam problemas como falta de professores, excesso de carga horária e salas de aula em más condições. Em uma terça-feira, mais de 250 mil pessoas, entre estudantes, docentes e pais, participaram das manifestações, de acordo com dados divulgados pelo governo.
O Ministério da Justiça informou que mais de 6,8 mil pessoas foram detidas desde o início dos protestos, incluindo mais de 5 mil menores de idade. Ao todo, 2.376 pessoas respondem a processos judiciais; 15 adultos e seis adolescentes estão em prisão preventiva. Cerca de 150 escolas permaneciam fechadas em uma sexta-feira, e organizações estudantis e sindicatos convocaram novos atos para a terça-feira seguinte.
A maioria das manifestações é pacífica, mas também houve episódios de vandalismo e confrontos. Um balanço do governo divulgado na terça-feira contabilizou 215 estudantes, 715 policiais e 85 integrantes do corpo docente feridos. Após um adolescente de 15 anos perder a mão em Lens, no norte do país, o governo suspendeu, na quarta-feira, o uso de granadas de efeito moral nos protestos.
Outros casos estão sob investigação. Em Saint-Ouen-l’Aumône, a noroeste de Paris, um estudante de 14 anos perdeu vários dentes e fraturou a mandíbula após a explosão de uma bomba de gás lacrimogêneo a curta distância; um policial foi indiciado. Em Belfort, no nordeste, promotores investigam uma denúncia de tentativa de homicídio feita por um jovem de 17 anos, que afirmou que um policial o empurrou com força contra o chão perto de um rio.
O governo considera “proporcional” a atuação policial. A oposição e organizações de direitos humanos, por outro lado, denunciam repressão contra os estudantes. A Inspeção-Geral da Polícia Nacional (IGPN), órgão responsável por fiscalizar a atuação das forças de segurança, abriu 18 investigações sobre possíveis abusos.
A crise ocorre em meio à pior situação fiscal francesa em décadas. No fim de setembro, o Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos (INSEE) informou que a dívida pública chegou a 119% do Produto Interno Bruto (PIB), o maior nível desde 1946, quando superou 300%. Antes da pandemia de Covid-19, a dívida correspondia a menos de 100% do PIB.
Durante a emergência sanitária, o governo de Macron tomou empréstimos para sustentar a economia afetada pelas restrições, numa política conhecida como “custe o que custar”. Agora, o Executivo tenta reduzir gastos e equilibrar as contas, mas enfrenta resistência nas ruas e no Parlamento. A pressão por mais recursos para escolas se soma a outras demandas sociais e ao aumento dos gastos com defesa, cobrado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dos países da Otan diante da ameaça da Rússia.
A disputa fiscal também envolve a reforma previdenciária aprovada em 2023, que elevou a idade mínima de aposentadoria de 62 para 64 anos. A medida provocou grandes manifestações depois que a então primeira-ministra Élisabeth Borne recorreu ao artigo 49.3 da Constituição para aprová-la sem votação parlamentar. Em outubro de 2025, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu anunciou a suspensão da reforma até a eleição presidencial de 2027, após pressão da esquerda.
A fragmentação política dificulta a aprovação de medidas de ajuste. Em um ano, entre setembro de 2024 e setembro de 2025, três pessoas ocuparam o cargo de primeiro-ministro. Michel Barnier e François Bayrou foram derrubados por votos de desconfiança articulados pela esquerda e pelo Reagrupamento Nacional (RN), que se opõem aos cortes defendidos por Macron. Lecornu deixou o cargo menos de um mês depois de assumir, mas foi reconduzido pelo presidente dias depois e permanece no posto.
Nesta semana, Macron convocou uma reunião de emergência com Lecornu e outros integrantes do governo. O Executivo também recebeu representantes estudantis e anunciou a contratação de 3 mil professores substitutos nos dias seguintes, enquanto as organizações mantêm a convocação de novas manifestações.
A eleição presidencial está prevista para abril de 2027. Jean-Luc Mélenchon, líder da França Insubmissa (LFI), e Marine Le Pen, do RN, aparecem entre os primeiros colocados nas pesquisas. O economista Andrew Kenningham, da consultoria Capital Economics, afirmou que propostas de redução de impostos do RN podem aumentar a pressão sobre as contas. “Os investidores estarão preocupados com um maior populismo fiscal após as eleições”, escreveu. “Existe um grande risco de que os spreads subam ainda mais, seja antes ou depois das eleições do próximo ano.”
Para entender
- INSEE
- O Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos é o órgão público francês responsável por produzir e divulgar estatísticas oficiais sobre a população, a economia e as contas do país.
- IGPN
- A Inspeção-Geral da Polícia Nacional é o órgão francês que fiscaliza a atuação da Polícia Nacional e pode investigar suspeitas de abuso ou irregularidade envolvendo seus agentes.
- Artigo 49.3
- Dispositivo da Constituição francesa que permite ao governo aprovar um projeto de lei sem votação na Assembleia Nacional, sujeito a uma moção de censura que pode derrubar o governo.