Professores brasileiros recebem menos que outros profissionais formados
Em 2025, docentes com ensino superior ganharam em média R$ 5,6 mil por mês, contra R$ 6,6 mil entre profissionais com a mesma escolaridade.
Resumo em 30 segundos
Professores brasileiros com ensino superior receberam, em média, R$ 5,6 mil mensais em 2025, abaixo dos R$ 6,6 mil pagos a outros profissionais com a mesma escolaridade. O anuário também aponta aumento dos contratos temporários e desafios ligados às jornadas parciais, à estabilidade e às perspectivas de carreira.
Professores brasileiros com ensino superior receberam, em média, R$ 5,6 mil por mês em 2025, valor inferior aos R$ 6,6 mil pagos a outros profissionais com a mesma escolaridade. A diferença salarial, o aumento dos contratos temporários e as jornadas parciais estão entre os fatores que dificultam a atratividade e a permanência na carreira docente, segundo o Anuário Brasileiro da Educação Básica do Todos Pela Educação.
O piso nacional do magistério chegou a R$ 5,1 mil em 2025, em valores corrigidos pela inflação, ante R$ 3,4 mil em 2015. O piso, criado em 2008, estabelece uma referência mínima de remuneração para professores da educação básica pública. Apesar da elevação, docentes da rede pública com graduação recebiam, em 2025, o equivalente a 85% do rendimento médio de outros profissionais com ensino superior.
A equiparação das remunerações é uma das metas do novo Plano Nacional de Educação (PNE) para o período de 2026 a 2036. O plano também prevê reduzir a participação de contratos temporários nas redes públicas para 30% até o fim de 2030. O PNE anterior estabelecia como objetivo limitar esse tipo de vínculo a 10%.
Os dados do anuário mostram que a proporção de professores temporários cresceu entre 2015 e 2025. Nas redes municipais, passou de 25,9% para 36,9%; nas estaduais, avançou de 35,6% para 48,6%. Contratos temporários têm prazo determinado e não oferecem a mesma estabilidade de um cargo efetivo, ocupado em geral por meio de concurso público.
Gabriela Moriconi, pesquisadora do Departamento de Pesquisas Educacionais da Fundação Carlos Chagas, afirma que a redução no número de crianças em idade escolar é citada por algumas redes como razão para não ampliar o quadro efetivo. A mudança demográfica pode diminuir a necessidade de professores no futuro, mas, segundo ela, não está claro em que medida esse argumento tem sido usado para justificar a contratação de temporários, que custam menos às redes.
A remuneração não é o único aspecto que pesa na escolha da profissão. Jornadas de 20 horas semanais e pagamentos por hora-aula podem dificultar a obtenção de renda suficiente e limitar o tempo reservado ao planejamento. Bárbara Born, gerente de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação, afirma que jornadas fragmentadas também afetam a saúde física e mental dos docentes e o aprendizado dos alunos.
Sem tempo de trabalho remunerado para planejar com colegas, os professores podem ter menos condições de elaborar projetos pedagógicos para as escolas, disse Born. Ela também aponta a falta de perspectivas de crescimento, a instabilidade, a percepção de baixa remuneração e episódios de violência em sala de aula como fatores que podem afastar jovens da docência.
As experiências de professores mostram razões distintas para entrar e permanecer na carreira. Jucélio Guedes, de 52 anos, trabalha há 28 anos como professor e coordenador pedagógico em uma escola pública de tempo integral em Macaparana, no interior de Pernambuco. Nos fins de semana, também dá aulas de biologia em um curso preparatório para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
Guedes diz que o que o mantém em sala é acompanhar estudantes que enfrentam dificuldades e chegam à universidade. Ele conta que incentiva alunos a considerar uma licenciatura, mas afirma que muitos já conhecem os problemas da profissão, entre eles o trabalho levado para casa e a falta de reconhecimento social e dentro da escola. O professor também observa mudanças na dinâmica das aulas com a presença de celulares e da inteligência artificial.
Vinicius Castro, de 27 anos, começou a dar aulas de história há pouco mais de um mês em uma escola privada de João Pessoa. Inspirado por um antigo professor, escolheu a carreira, mas avalia que a remuneração e a falta de oportunidades de progressão podem desestimular profissionais. Para ele, valorizar a educação é parte da melhoria das condições de trabalho.
Uma iniciativa federal tenta ampliar o ingresso e a conclusão em cursos de licenciatura. Lançado em janeiro de 2025, o Pé-de-Meia Licenciaturas oferece bolsa mensal de R$ 700 e mais R$ 350 em uma modalidade de poupança a estudantes com média de pelo menos 650 pontos no Enem. O valor poupado pode ser resgatado após a conclusão do curso, desde que o beneficiário ingresse como professor na rede pública.
Born e Moriconi afirmam que ainda é cedo para medir os resultados do programa. A avaliação dependerá, entre outros fatores, de quantos estudantes concluem a formação e seguem na docência. Moriconi considera especialmente importante acompanhar os primeiros anos de trabalho, quando recém-formados enfrentam os desafios cotidianos da sala de aula e podem buscar outras ocupações se as condições não permitirem que se sustentem.
Para entender
- Piso nacional do magistério
- Valor mínimo de referência para a remuneração dos profissionais do magistério público da educação básica. Foi instituído por lei federal em 2008 e sua atualização anual é definida com base em critérios legais.
- Plano Nacional de Educação
- Lei que estabelece diretrizes, metas e estratégias para a política educacional brasileira por um período determinado. O plano orienta ações da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios.
- Pé-de-Meia Licenciaturas
- Programa federal de incentivo financeiro a estudantes de cursos de licenciatura. A iniciativa busca apoiar a formação de futuros professores e prevê condições para o recebimento e o resgate dos valores.