Alunos da rede estadual apontam faltas de professores como prioridade
Pesquisa Datafolha ouviu 5.296 estudantes em todo o país; 64% dizem que há disciplinas sem professor por determinados períodos.
Resumo em 30 segundos
Estudantes de escolas estaduais apontam melhorias no ensino, redução das faltas de professores e melhor estrutura como prioridades. Na pesquisa Datafolha, 64% dizem que há disciplinas sem docente por determinados períodos, e 34% relatam faltas frequentes. O levantamento também aborda a avaliação das escolas, a vontade de abandonar os estudos e as escolhas para o futuro.
Estudantes de escolas estaduais apontam a redução das faltas de professores e a melhoria do ensino e da estrutura como prioridades para a educação, segundo pesquisa Datafolha encomendada pelo movimento Todos pela Educação. O levantamento ouviu 5.296 alunos do 6º ao 9º ano do ensino fundamental e do ensino médio, em todas as regiões do país, entre 28 de maio e 13 de julho.
Melhorias no ensino e na aprendizagem, incluindo capacitação docente, mudanças nas formas de ensinar, contratação de mais profissionais e diminuição das ausências, reuniram 22% das respostas sobre o que deveria ser prioridade. A estrutura das escolas, com itens como ar-condicionado e equipamentos, apareceu em seguida, citada por 20%.
As faltas e a ausência de docentes também aparecem nos relatos sobre o cotidiano escolar. Segundo a pesquisa, 64% dos estudantes dizem que há disciplinas que ficam sem professor durante determinados períodos; 34% afirmam que os docentes faltam com frequência. Entre os alunos que avaliam a própria escola como ruim ou péssima, 83% se queixam da falta de professores.
A percepção sobre a disponibilidade de docentes varia conforme a avaliação geral da escola. A escassez de professores é apontada por 53% dos estudantes que classificam a unidade como ruim ou péssima, ante 24% daqueles que a consideram boa ou ótima. No conjunto, 69% avaliam a escola onde estudam como boa ou ótima.
Para Gabriel Corrêa, diretor de políticas públicas do Todos pela Educação, a experiência em sala de aula tem peso na forma como os jovens avaliam a escola. “Chama muito atenção que, quando os jovens são perguntados sobre o que deveria ser uma prioridade ou que faz uma escola ser boa, a pesquisa aponta para as questões de aprendizado”, afirmou.
Socorro Batista, presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), disse que assegurar a presença de um professor em cada turma é uma condição básica e que o tema é prioridade para o órgão. Ela atribuiu a carência de docentes a fatores estruturais, como a perda de atratividade da carreira, a queda na procura por cursos de licenciatura, aposentadorias e a falta de profissionais habilitados para determinadas disciplinas e regiões.
A indisciplina dos colegas em sala foi o problema cotidiano mais mencionado, por 40% dos entrevistados. Bullying e discriminação, assim como dificuldades para acessar a internet e equipamentos tecnológicos, foram citados por 33% dos estudantes.
A pesquisa também aponta que 36% dos alunos chegaram a pensar em abandonar os estudos ao menos uma vez nos seis meses anteriores ao levantamento. O percentual sobe para 57% entre os que avaliam mal a escola. Entre os motivos para considerar a saída, 38% mencionaram vontade ou necessidade de trabalhar, seja para alcançar independência financeira, seja para ajudar em casa.
Entre estudantes do ensino médio, 59% disseram que o Pé-de-Meia, programa de bolsas e poupança criado pelo governo federal, ajuda muito a permanecer na escola. Outros 35% afirmaram que contribui pouco, enquanto 3% disseram que não ajuda em nada.
A avaliação positiva é mais comum entre alunos do ensino integral: 74% consideram boa ou ótima a escola onde estudam, contra 68% dos matriculados no ensino regular. Mais da metade dos estudantes do integral, 53%, disse gostar dessa modalidade. Ainda assim, o interesse varia: 24% afirmaram que gostariam com certeza de estudar em tempo integral e 23% disseram que não aceitariam de jeito nenhum.
A formação técnica é uma opção desejada por 49% dos entrevistados, e apenas 4% disseram que não gostariam de fazê-la. Entre alunos dos anos finais do fundamental, 38% querem cursar o ensino técnico junto com o médio. Já entre os estudantes do ensino médio, 61% pretendem fazer faculdade; 41% esperam combinar os estudos com trabalho e 12% planejam apenas trabalhar.
A pesquisa ainda examinou os itinerários formativos, áreas de aprofundamento do currículo do ensino médio. Entre os alunos que disseram ter conseguido escolher plenamente uma trajetória de acordo com seus interesses, 90% avaliaram como boa ou ótima a qualidade do itinerário. A proporção foi de 43% entre aqueles que tiveram pouca ou nenhuma possibilidade de escolha.
As escolas estaduais concentram 82% das matrículas do ensino médio no país e 47% dos estudantes da rede pública nos anos finais do ensino fundamental, segundo o Censo Escolar de 2025. A pesquisa tem margem de erro de um ponto percentual para a amostra total e de dois pontos em cada etapa de ensino, com nível de confiança de 95%. Além do Todos pela Educação, o levantamento foi patrocinado por fundações e institutos ligados à área de educação.