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Domingo, 11 de outubro de 2026

PF mapeia rota de ouro ilegal da Amazônia avaliada em R$ 10 bilhões

Apurações das operações Sisaque, Ricezione e Emboabas ligam cerca de 20 toneladas de ouro a mercados nos Estados Unidos, Europa e Oriente Médio.

Por Redação Plantão Paulista 4 min de leitura
Imagem gerada por IA: Barras e pepitas de ouro são examinadas em uma mesa de perícia. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Barras e pepitas de ouro são examinadas em uma mesa de perícia.
Resumo em 30 segundos

Investigações da Polícia Federal sobre três operações identificaram uma rota que teria movimentado mais de R$ 10 bilhões e levado cerca de 20 toneladas de ouro extraído ilegalmente na Amazônia a mercados internacionais. Aproximadamente 40 pessoas são alvo de ações judiciais, que incluem pedidos de reparação superiores a R$ 10,6 bilhões.

A Polícia Federal (PF) identificou uma rota de comercialização de ouro extraído ilegalmente na Amazônia que, segundo investigações de três operações, movimentou mais de R$ 10 bilhões e levou o metal a mercados nos Estados Unidos, na Europa e no Oriente Médio. Cerca de 40 pessoas são alvo de ações na Justiça Federal, que também analisa pedidos de reparação superiores a R$ 10,6 bilhões por danos patrimoniais, ambientais e a comunidades indígenas.

As operações Sisaque, Ricezione e Emboabas investigaram etapas conectadas: extração em áreas protegidas, falsificação de documentos para ocultar a origem do metal, transporte e venda no exterior. As apurações apontaram que aproximadamente 20 toneladas de ouro clandestino foram retiradas da Amazônia e incorporadas a circuitos comerciais formais.

Dois flagrantes em aeroportos ajudaram a PF a reconstruir o esquema. Em janeiro de 2020, o empresário Brubeyk Garcia Nascimento foi detido no Aeroporto Internacional de Manaus com os compradores norte-americanos Frank Giannuzzi e Steven Albert Bellino. O grupo tentava embarcar para Nova York com 35 quilos de ouro bruto acompanhados de notas fiscais falsas, segundo a investigação.

Em agosto de 2021, a PF apreendeu 52 quilos de ouro em barras em um jato executivo no Aeroporto Campo de Marte, em São Paulo. Os pilotos Guilherme Crepaldi Silva e Muhammad Diarra Ndiaye estavam com a carga, que seria exportada por empresas de Diego e Daniel de Mello para o mercado europeu, de acordo com os investigadores.

A extração apontada nas apurações ocorreu em territórios indígenas, como as terras Munduruku, Kayapó e Yanomami, e em unidades de conservação no Pará e em Roraima. Operadores regionais financiavam parte da atividade, que usava máquinas pesadas e mercúrio para separar o ouro. O metal obtido em áreas sem autorização era então apresentado como se tivesse origem legal.

Na investigação da Sisaque, a PF identificou dois caminhos para dar aparência regular ao ouro. Um deles passava por Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários (DTVMs), empresas que atuam na compra e venda de ativos financeiros. Segundo a apuração, Dirceu Frederico Sobrinho, ex-presidente da Associação Nacional do Ouro (Anoro), teria usado a presunção legal de boa-fé na declaração de origem para registrar ouro ilícito como produto de jazidas regulares.

Outra frente, investigada na operação Emboabas, envolvia Brubeyk Garcia Nascimento, dono do laboratório BAMC, e o austríaco Werner Rydl. A investigação afirma que eles usavam laudos falsos e notas fiscais para classificar o material como ouro reciclado ou sucata. Os documentos teriam sido respaldados por uma declaração de patrimônio fictício de R$ 26 bilhões atribuída a Rydl.

Depois de receber documentação fraudulenta, o ouro seguia por aviões executivos, aeródromos e hangares no Sudeste, antes de ser enviado para fora do país. A Sisaque identificou mais de R$ 4 bilhões em notas fiscais falsas que circularam por empresas de fachada. Com esse mecanismo, valores da mineração ilegal entravam no sistema bancário formal.

As investigações também apontaram negociações em Nova York por meio da empresa OroReal LLC, administrada por Isaac Fuhrmann Cula, com pagamentos em dólares investidos pelo Bank of America. Parte do metal teria sido enviada a uma refinaria em Arezzo, na Itália, e outra parcela, armazenada em cofres em Zurique, na Suíça. Também foram identificadas remessas para os Emirados Árabes Unidos.

Para examinar a origem das barras apreendidas, a PF fez análises de fluorescência de raios X em 43 peças. O método identifica elementos químicos e ajuda a avaliar a composição do material. Os exames encontraram níveis de pureza entre 80,56% e 95,95%; segundo a investigação, a variação é compatível com fundição artesanal em diferentes minas clandestinas, e não com refino industrial.

A procuradora da República Sofia Freitas da Silva afirmou que mudanças nas regras financeiras alteraram a rota do contrabando. Até 2023, o ouro ilícito costumava sair do Norte rumo a São Paulo com guias e notas fiscais falsas. Após o fim da presunção legal de boa-fé nas declarações de origem, a adoção obrigatória da Nota Fiscal Eletrônica e novas restrições do Banco Central, a rede passou a levar ouro bruto e sem documentação até Boa Vista, com saída clandestina pela fronteira com Venezuela e Guiana, segundo ela.

A procuradora citou apreensões em Roraima entre o fim de 2024 e o fim de 2025, com lotes de 100, 70 e 50 quilos vindos do Pará e do Amazonas, como indício da consolidação da nova rota. As ações judiciais atribuem aos acusados suspeitas de usurpação mineral, lavagem de dinheiro, receptação agravada, organização criminosa transnacional e gestão ilegal de instituição financeira. O Ministério Público Federal pede reparações por danos ambientais e patrimoniais, além de danos morais coletivos e impactos étnico-culturais.

Brubeyk negou participação em esquema de lavagem de ouro e afirmou que agia como comprador de boa-fé, adquirindo o metal a preços de mercado. Disse que o material passava por perícia técnica credenciada pela Receita Federal e que os fatos estão sendo esclarecidos na Justiça. Os demais acusados e as empresas estrangeiras não haviam se manifestado.

Para entender

Operação Sisaque
Investigação da Polícia Federal sobre a comercialização de ouro de origem ilegal e os mecanismos usados para dar aparência regular ao metal. Entre as frentes apuradas estão o uso de documentos fiscais falsos e a circulação de valores por empresas.
DTVM
Sigla de Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários. São instituições financeiras que atuam na intermediação e distribuição de ativos, como títulos e valores mobiliários, e estão sujeitas à regulação do sistema financeiro.

Fontes: O Globo

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