Moradores do Oriente Médio temem retomada da guerra após eleição
A votação de meio de mandato nos EUA ocorre nesta terça-feira, enquanto Washington e Teerã seguem sem acordo e mantêm contatos diplomáticos.
Resumo em 30 segundos
Moradores de países do Golfo adotam precauções e alguns antecipam viagens diante do risco de retomada da guerra entre Estados Unidos e Irã após as eleições de meio de mandato. Trump diz que não ordenará uma ofensiva antes da votação, mas não esclareceu os próximos passos. As negociações entre os dois governos continuam sem acordo anunciado.
Moradores de países do Oriente Médio se preparam para a possibilidade de uma retomada da guerra entre Estados Unidos e Irã depois das eleições de meio de mandato americanas, marcadas para terça-feira. O conflito começou em 28 de fevereiro e está em pausa, mas Washington e Teerã seguem sem acordo, enquanto o presidente Donald Trump alterna ameaças de novos ataques e sinais de abertura a negociações.
Trump afirmou que não pretende ordenar uma ofensiva antes da votação, mas não explicou o que fará depois. A indefinição, somada a relatos de movimentação de tropas americanas e à saída de familiares de diplomatas dos Estados Unidos, tem aumentado a apreensão na região. Em países árabes do Golfo, moradores antecipam viagens e escolas e empresas adotam precauções diante do risco de ataques e de interrupções nos voos.
Uma americana de 36 anos que vive na Arábia Saudita disse que planeja deixar o país antes da eleição. “O clima definitivamente mudou. As pessoas estão, de modo geral, mais cautelosas, e parece que estamos esperando para ver o que vai acontecer”, afirmou. Em Abu Dhabi, outra moradora relatou que tenta evitar pensar na possibilidade de novos bombardeios e disse não querer passar por outro inverno sob ataques.
A preocupação também se reflete nas atividades locais. Na Arábia Saudita, grandes eventos foram cancelados, alguns escritórios passaram a funcionar remotamente e escolas adotaram o ensino a distância, segundo moradores. Eles temem que a retomada do conflito aumente a pressão sobre o país, que já enfrenta ataques dos rebeldes houthis, aliados do Irã.
Em Abu Dhabi, duas empresas petrolíferas americanas cancelaram o envio de executivos a uma conferência do setor por preocupações de segurança, mas o evento está previsto para ocorrer na próxima semana. No Bahrein, moradores ainda relatam efeitos emocionais dos ataques iranianos deste ano. Um jovem de 21 anos disse que o som de explosões dificulta o sono e traz de volta lembranças dos bombardeios.
A guerra começou com ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. Teerã respondeu com mísseis balísticos e drones contra cidades árabes, causando mortes e feridos e afetando escolas, viagens e atividades comerciais. O Bahrein esteve entre os países mais atingidos, enquanto os Emirados Árabes Unidos enfrentaram ataques que, em sua maioria, foram interceptados, segundo informações divulgadas no encontro de segurança Diálogo de Manama.
A incerteza sobre os próximos passos foi reforçada pela conversa telefônica de sábado entre Trump e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. O presidente americano descreveu o contato como “muito bom”, mas não detalhou o que foi discutido. Netanyahu permanece no cargo mesmo após seu bloco perder a maioria parlamentar; as negociações para formar um novo governo devem começar na próxima semana.
Teerã também tem elevado o tom. O líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, ordenou uma resposta “sem limitações geográficas” a qualquer nova ameaça. Ele ainda não apareceu em público desde que assumiu o posto, após a morte de seu pai nos ataques iniciais. Autoridades militares iranianas dizem que o país acumulou novos armamentos; um alto funcionário de segurança afirmou que, numa nova guerra, os alvos poderiam incluir instalações petrolíferas e infraestrutura ligada à inteligência artificial.
Os dois governos mantêm contatos diretos e indiretos, com intermediários, mas não há acordo anunciado. Autoridades iranianas participaram de conversas no Catar e deixaram o país após dias de negociações, segundo funcionários iranianos. A troca de mensagens continuaria por meio de um mediador. Teerã aguarda uma resposta dos Estados Unidos a uma proposta para reabrir o Estreito de Ormuz ao tráfego marítimo em até dois dias, se Washington aceitar determinadas condições.
O vice-presidente americano, JD Vance, enviou uma carta ao chefe de segurança iraniano, Mohsen Rezaei, que está sendo analisada por Teerã. Trump disse que o documento tratava de um pedido iraniano de suprimentos médicos. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que as conversas não foram interrompidas e que não sabe se há prazo para avançar. Segundo ele, qualquer decisão sobre uma nova operação militar caberá a Trump.
Washington quer que um eventual acordo trate do programa nuclear iraniano e preserve a segurança dos Estados Unidos. Teerã afirma estar disposto ao diálogo, mas rejeita negociar sob pressão e prefere discutir a questão nuclear posteriormente. O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, disse que as condições de seu país foram apresentadas aos mediadores e que não haverá avanço sem que sejam aceitas.
O embaixador americano na Turquia e enviado para a Síria e o Iraque, Tom Barrack, disse acreditar que medidas “drásticas” podem ocorrer em até duas semanas e que os dois lados estão perto de uma pausa. O avanço, afirmou, depende de confiança e de quem dará o primeiro passo. Enquanto isso, moradores acompanham rumores sobre uma possível escalada, e a eleição de terça-feira se tornou um marco de incerteza para a região.
Para entender
- Eleições de meio de mandato
- Nos Estados Unidos, são eleições realizadas no meio do mandato presidencial. Os eleitores escolhem representantes para o Congresso e podem votar em cargos estaduais e locais. O resultado pode alterar a composição do Legislativo e influenciar a agenda do presidente.