Lula vira disputa em Minas e vence Flávio por 109 mil votos
Minas foi o único Estado com troca de liderança entre os turnos; campanha petista atribui a vitória à mobilização e à redução da abstenção.
Resumo em 30 segundos
Lula terminou o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro em Minas Gerais, mas venceu o segundo por 109.313 votos. O petista ampliou sua votação em 1,16 milhão de votos, contra 464,2 mil do adversário. A campanha atribuiu a virada à mobilização nas ruas e nas redes; no PL, aliados discutiram responsabilidades pela derrota.
Lula virou o resultado em Minas Gerais no segundo turno da eleição presidencial e venceu Flávio Bolsonaro por 109.313 votos, apesar de ter terminado a primeira etapa atrás no Estado. A campanha petista atribui a mudança à mobilização nas ruas e nas redes sociais; no PL, aliados discutem responsabilidades pela derrota e apontam críticas ao governador eleito Cleitinho Azevedo e ao deputado federal Nikolas Ferreira.
No primeiro turno, Flávio recebeu 5,77 milhões de votos em Minas, equivalentes a 48,24%, enquanto Lula teve 5,18 milhões, ou 43,33%. No segundo, o petista alcançou 6,35 milhões (50,43%), ante 6,24 milhões (49,57%) do adversário. Lula acrescentou 1,16 milhão de votos entre as duas etapas, enquanto Flávio ampliou sua votação em 464,2 mil.
Minas foi o único Estado em que a liderança passou de um candidato a outro entre os turnos. A virada ocorreu em 76 municípios, e Lula terminou à frente em 528 cidades, contra 452 no primeiro turno. Flávio, por sua vez, passou de maioria em 401 municípios para 325. O avanço de Lula ocorreu em todas as regiões mineiras, com destaque para o Vale do Jequitinhonha, o norte do Estado e a Zona da Mata.
A deputada federal eleita Ana Elisa, do PT, que participou da campanha no segundo turno, afirmou que a coordenação distribuiu tarefas por regiões. Parlamentares eleitos e não eleitos atuaram nos locais onde haviam obtido mais votos na primeira etapa, com o objetivo de ampliar o apoio ao candidato. “Nós fizemos um trabalho muito intenso em Minas. Em cada região do Estado, cada pessoa ficou responsável por uma coisa. Nós ficamos muito bem organizados”, disse.
A campanha também organizou mais atividades presenciais e buscou reduzir a abstenção, além de mobilizar jovens e idosos. Movimentos estudantis participaram de manifestações, e integrantes da campanha fizeram visitas a universidades. “Nós retomamos o que era nosso, que eram as ruas, que eram as pessoas, o povo lutando. E agora nós temos também as redes sociais como antes não tínhamos”, afirmou Ana Elisa.
A estratégia digital ficou sob responsabilidade do deputado federal André Janones, da Rede, com colaboração de Ana Elisa. A articulação regional incluiu o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, que atuou junto a prefeitos, além do deputado federal Reginaldo Lopes, da presidente estadual do PT, deputada Leninha, e da senadora eleita Marília Campos.
A queda da abstenção pode ter contribuído para o resultado, segundo o cientista político e professor do Ibmec Adriano Cerqueira. Em Minas, o número de eleitores que não votaram caiu de 3,73 milhões (22,81%) no primeiro turno para 3,32 milhões (20,33%) no segundo. Cerqueira avalia que a redução favoreceu principalmente Lula e que parte dos votos de candidaturas de terceira via pode ter migrado para o petista.
O professor também apontou uma possível desmobilização da campanha de Flávio no Estado, que não teve disputa de segundo turno para o governo. Ele comparou o cenário à eleição de 2022, quando Lula venceu Minas por margem estreita: 50,20% dos votos válidos, ante 49,80% de Jair Bolsonaro, diferença de 49.650 votos. Neste pleito, a vantagem de Lula sobre Flávio foi de 109.313 votos.
No campo bolsonarista, interlocutores do PL atribuíram parte do resultado à atuação de Cleitinho e de seu vice eleito, Luís Eduardo Falcão, ambos do Republicanos. Os dois declararam apoio a Flávio, mas participaram da motociata do candidato em Belo Horizonte, na véspera da votação, e de um evento em Divinópolis. Também acompanharam a apuração com o senador. Críticos dentro do partido consideraram que eles se concentraram na própria vitória, após Cleitinho receber 6,2 milhões de votos no primeiro turno.
Cleitinho também havia dito publicamente que conversaria com o presidente eleito, qualquer que fosse o resultado. Ele ainda não cumprimentou Lula pela vitória e não quis comentar o assunto. Pessoas próximas ao governador eleito disseram que ele ficou “chateado” com o resultado e com as críticas de bolsonaristas.
Uma ala do PL também responsabilizou Nikolas Ferreira, que percorreu o país em ações de campanha do chamado Bloco do 22. Segundo interlocutores, o deputado priorizou atividades em outros Estados por considerar que a vantagem de Flávio em Minas no primeiro turno seria mantida ou ampliada. Na primeira etapa, Flávio havia liderado em nove dos dez maiores colégios eleitorais mineiros; no segundo turno, Lula também passou à frente em Ribeirão das Neves, além de Juiz de Fora.
A eleição presidencial foi decidida nacionalmente com vitória de Lula, mas o PL reconheceu o resultado e cobrou esclarecimentos sobre questionamentos relacionados ao pleito. O presidente nacional da sigla, Valdemar Costa Neto, afirmou que o partido acompanharia os fatos e defendeu que as dúvidas fossem discutidas. Flávio, por sua vez, anunciou que pretende recorrer à Justiça Eleitoral para pedir a cassação da chapa eleita e criticou medidas de gastos sociais adotadas durante a campanha.