Israelenses votam para definir futuro político de Netanyahu
Mais de 7 milhões de eleitores escolhem os 120 deputados do Knesset; pesquisas indicam impasse e tornam decisivos os partidos árabes nas negociações.
Resumo em 30 segundos
Os eleitores israelenses votam para renovar as 120 cadeiras do Parlamento, em uma disputa entre o Likud, de Binyamin Netanyahu, e o Yashar, de Gadi Eisenkot. As projeções não apontam maioria para nenhum bloco. A composição do próximo governo dependerá de negociações, com os partidos árabes potencialmente decisivos.
Mais de 7 milhões de eleitores israelenses votam nesta terça-feira, 27, para escolher os 120 integrantes do Parlamento, em uma eleição marcada pela disputa entre o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu e o ex-chefe das Forças Armadas Gadi Eisenkot. É a primeira votação legislativa desde os ataques do Hamas, em 7 de outubro de 2023, e o resultado pode definir se Netanyahu permanece no poder ou se a oposição consegue formar uma coalizão.
Os israelenses não elegem diretamente o primeiro-ministro. Cada eleitor vota em uma lista partidária, e as cadeiras do Knesset são distribuídas de acordo com a votação. Para governar, é preciso reunir o apoio de pelo menos 61 dos 120 parlamentares. Depois da apuração, o presidente Isaac Herzog consulta os partidos e indica um parlamentar para tentar formar um governo; o indicado não precisa ser o líder da legenda mais votada.
Pesquisas citadas antes da votação projetam 23 cadeiras para o Yashar, partido de Eisenkot, e 21 para o Likud, de Netanyahu. As legendas de oposição lideradas por políticos judeus somariam 56 cadeiras, enquanto os partidos ligados à atual coalizão governista teriam 50. Os partidos árabes poderiam conquistar cerca de dez cadeiras, segundo uma média de levantamentos, mas outra pesquisa citada na campanha projetou 14, diferença que pode ser decisiva nas negociações.
Nenhum dos blocos aparece com a maioria necessária para governar sozinho. Por isso, o resultado das urnas deve abrir negociações entre partidos com posições diferentes, e a eleição pode terminar sem uma coalizão definida. Enquanto um novo gabinete não obtiver a confiança do Parlamento, Netanyahu continua no cargo, possivelmente de forma interina.
A eleição é tratada por analistas como uma avaliação da resposta do governo aos ataques de outubro de 2023, além de uma disputa sobre temas internos. O Hamas matou mais de 1.200 pessoas em Israel e fez 251 reféns, segundo os dados citados na campanha. Netanyahu lançou uma operação militar na Faixa de Gaza; a ONU estima que ela tenha causado 74 mil mortes e deslocado cerca de 90% da população do território.
O conflito se estendeu ao Líbano, ao Iêmen e ao Irã. A atuação israelense recebeu críticas internacionais, sobretudo na Europa Ocidental, diante de acusações de genocídio e limpeza étnica em Gaza. Israel rejeita essas acusações e afirma que são motivadas politicamente.
Netanyahu, o primeiro-ministro que mais tempo acumulou no cargo na história do país, governou em períodos que somam 19 anos, distribuídos por três mandatos. Sua atual coalizão inclui partidos religiosos e de direita, entre eles os grupos representados pelos ministros Itamar Ben-Gvir, da Segurança Nacional, e Bezalel Smotrich, das Finanças. A oposição responsabiliza o governo por falhas que permitiram o ataque do Hamas; Netanyahu atribui a responsabilidade a dirigentes militares e de inteligência e destaca os resultados das operações contra o Hamas, o Hezbollah e o Irã.
Eisenkot comandou o Exército entre 2015 e 2019 e criou o Yashar em 2025. Sua campanha combina críticas à condução do governo e propostas de investigação sobre as falhas de segurança de 7 de outubro. Ele também defende mudanças no serviço militar obrigatório, tema que ganhou peso após anos de conflitos e mobilização de reservistas.
A isenção de jovens ultraortodoxos do serviço militar divide a sociedade e ameaça a estabilidade da coalizão de Netanyahu. Partidos religiosos apoiam a manutenção do benefício, enquanto Eisenkot defende que o serviço militar ou civil se aplique a todos. O debate se intensificou com a necessidade de mobilizar efetivos para os conflitos recentes.
A oposição reúne, além do Yashar, partidos como o Beyachad, do ex-primeiro-ministro Naftali Bennett, Israel Beitenu, de Avigdor Lieberman, e os Democratas, de esquerda. Embora façam oposição a Netanyahu, seus líderes divergem sobre uma aliança com os partidos árabes. Esses partidos representam cidadãos palestinos com cidadania israelense e podem fornecer votos para uma maioria, mas parte da oposição resiste a depender do apoio deles.
A possibilidade de um impasse é considerada alta. Analistas apontam que integrantes da coalizão atual poderiam apoiar Eisenkot depois da votação, mas divergências entre os partidos também podem impedir a formação de um governo opositor. Se as negociações fracassarem, uma nova eleição é uma possibilidade.
O resultado pode ainda influenciar a política de Israel em relação aos palestinos e a imagem do país no exterior. Eisenkot e Bennett defendem a recuperação da reputação internacional israelense e, segundo analistas, poderiam adotar medidas limitadas, como tentar conter a violência de colonos na Cisjordânia. Um retorno às negociações de paz, porém, não aparece como prioridade central da campanha.
A disputa também ocorre em meio à tensão com o Irã. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou apoio público a Netanyahu, enquanto os dois países enfrentam um impasse relacionado ao conflito. Uma eventual retomada dos bombardeios pode se cruzar com as negociações para formar o governo israelense e influenciar os próximos passos do premiê.