Helipontos dos Bandeirantes e da Prefeitura recebem voos privados
Os pousos e as decolagens não têm cobrança de taxa; Estado e município exigem autorização prévia, mas não detalham critérios objetivos.
Resumo em 30 segundos
Os helipontos do Palácio dos Bandeirantes e da Prefeitura de São Paulo recebem voos privados sem cobrança de taxa. Os registros de 2020 a 2026 incluem autoridades, empresários e políticos. Estado e município afirmam que o uso depende de autorização, mas não apresentam critérios objetivos para decidir quem pode utilizar as estruturas.
Os helipontos do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo de São Paulo, e da Prefeitura da capital recebem voos privados além de deslocamentos oficiais. Estado e município autorizam os pousos e as decolagens sem cobrar taxa, mas não informaram critérios objetivos para decidir quem pode usar as estruturas, segundo respostas obtidas por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).
Nos dois casos, o uso depende de pedido prévio e de autorização. O governo estadual afirmou que a prioridade é institucional, para transporte de autoridades, missões de segurança, emergências e transporte de órgãos para transplantes. Particulares também podem receber autorização por conveniência administrativa, disse a gestão.
O governo acrescentou que muitos helicópteros usam o heliponto apenas para embarque ou desembarque antes de deslocamentos a compromissos externos, sem reuniões no Palácio. Também afirmou que a cessão a particulares se baseia em cooperação e reciprocidade, já que o Estado utiliza gratuitamente estruturas de outras instituições quando necessário.
A Prefeitura de São Paulo informou que o uso do heliponto municipal exige agendamento e autorização prévia. O solicitante precisa preencher um formulário com dados da aeronave e da tripulação, que passam por análise. A Secretaria da Segurança Pública usa o espaço para atender a demandas operacionais da própria pasta, segundo a administração municipal.
Entre 2020 e junho de 2026, o heliponto do Palácio dos Bandeirantes registrou 1.136 pousos e decolagens do governador em exercício. Os vices aparecem em 234 registros, e as primeiras-damas, em 113. O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, ex-secretário da gestão Tarcísio de Freitas, é citado 92 vezes.
A lista também inclui o prefeito Ricardo Nunes, o presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, André do Prado (PL), o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Empresários aparecem 164 vezes no total entre 2020 e 2026; 94 registros ocorreram durante o governo de Tarcísio.
O empresário Marcos Molina, fundador da Marfrig, hoje MBRF, lidera as menções entre os empresários, com 36 registros, todos a partir de 2024. Em duas ocasiões neste ano, ele consta na lista de passageiros ao lado do governador. A assessoria de Molina afirmou que os usos foram para embarque e desembarque, com autorização prévia, e não tiveram relação com agendas institucionais.
A família Labibi, antiga proprietária das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), aparece 32 vezes. Roque Felício Júnior, do Grupo Vida, tem 18 registros. Também figuram Alexandre Costa, fundador da Cacau Show, e Carlos Sanchez, da farmacêutica EMS. A Cacau Show disse que os compromissos no Palácio envolveram projetos de impacto econômico para a região. A EMS afirmou que seus executivos utilizam diferentes helipontos, conforme a localização e a conveniência, e que o local de pouso não necessariamente corresponde ao destino do passageiro.
O heliponto da prefeitura teve 348 pousos e decolagens entre 2020 e 2026, a maior parte ligada a políticos ou integrantes do governo. Mais de um terço dos registros se concentrou em 2020, quando o então prefeito Bruno Covas, que morreu em 2021, usava a estrutura para ir ao Palácio dos Bandeirantes, onde participava de entrevistas diárias sobre a pandemia. Covas aparece 135 vezes; Nunes, 49.
Na lista municipal também estão o ex-secretário estadual da Segurança Pública Guilherme Derrite (PP), com 25 registros, e Osvaldo Nico Gonçalves, que o sucedeu, com 17. Empresários somam 13 menções, a maioria em 2026. Entre eles estão os sócios de empresas de infraestrutura Riley e Tiago Cruz, que aparecem juntos nas quatro ocasiões em que usaram o heliponto.
O especialista em segurança de voo pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica Aroldo Soares afirmou que helipontos públicos podem funcionar sob lógica comercial: alguns cobram pelo uso e outros não, conforme acordos. O advogado Saulo Stefanone Alle, doutor em direito pela Universidade de São Paulo, disse que a autorização discricionária não é, por si só, irregular, mas que os motivos precisam ser verdadeiros e claramente expostos. Se regras frágeis oferecerem risco de uso criminoso, acrescentou, um regulamento mais detalhado pode ajudar.
A discussão sobre os critérios ganhou relevância após a autorização para o pouso, em março de 2022, de João Gabriel de Mello Yamawaki, investigado sob suspeita de manter um esquema de lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC). O objetivo do deslocamento era encurtar o trajeto até um jogo no Morumbi; a justificativa oficial foi que ele integrava uma delegação do Japão. A autorização foi concedida em cerca de cinco horas. O caso veio à tona quatro anos depois, após investigação da Polícia Civil. Questionado sobre eventual mudança de protocolo, o governo estadual não informou se alterou as regras.
Para entender
- Lei de Acesso à Informação
- A Lei nº 12.527/2011 regulamenta o direito de acesso a informações públicas no Brasil. Ela permite que qualquer pessoa solicite dados a órgãos e entidades públicas, respeitadas as hipóteses legais de sigilo.
- Ato discricionário
- É uma decisão administrativa em que a autoridade tem margem para avaliar a conveniência e a oportunidade, dentro dos limites da lei. Essa margem não elimina a obrigação de agir com finalidade pública e de apresentar justificativas verdadeiras.