FMI alerta que fundos de hedge podem ampliar turbulência no mercado
Com exposição superior a US$ 40 trilhões, os fundos podem ser forçados a vender ativos diante de resgates concentrados, espalhando perdas pelo sistema financeiro.
Resumo em 30 segundos
O FMI alertou que a alavancagem e o crescimento dos fundos de hedge podem aumentar os riscos para o mercado financeiro. A exposição do setor, incluindo derivativos fora dos balanços, superou US$ 40 trilhões no início de 2026. O organismo recomenda mais transparência, testes de estresse e medidas para limitar a transmissão de problemas a outros agentes.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou nesta terça-feira para o risco de que uma onda de resgates em fundos de hedge provoque vendas de ativos em cadeia e afete o mercado financeiro. Esses fundos, que administram cerca de US$ 13 trilhões no mundo, ampliaram seu uso de alavancagem e passaram a ter exposição total superior a US$ 40 trilhões, segundo capítulo do Relatório de Estabilidade Financeira Global divulgado pelo organismo.
Os fundos de hedge são veículos de investimento coletivo administrados por profissionais. Eles podem recorrer a empréstimos e a derivativos — contratos cujo valor depende de ativos ou indicadores financeiros — para ampliar suas posições. O relatório calcula que, desde 2013, a diferença entre os ativos brutos e líquidos desses fundos, uma medida de endividamento, cresceu quase US$ 6 trilhões.
A exposição do setor, incluindo posições em derivativos que não aparecem nos balanços, aumentou de US$ 13 trilhões em 2013 para mais de US$ 40 trilhões no início de 2026. O patrimônio total dos fundos também mais do que triplicou em pouco mais de uma década, de acordo com o FMI.
A expansão pode beneficiar os mercados ao contribuir para a liquidez e a formação de preços. Mas a alavancagem elevada também amplia o risco de perdas e pode forçar os gestores a vender ativos caso enfrentem resgates expressivos em pouco tempo. Se vários fundos fizerem isso simultaneamente, a pressão sobre os preços pode levar a novas vendas e disseminar o impacto pelo sistema financeiro.
O relatório estima que um choque de um desvio-padrão nos retornos dos fundos — equivalente a cerca de dois pontos percentuais — poderia elevar ou reduzir em 1,4 ponto percentual os retornos dos chamados prime brokers. Essas instituições, também conhecidas como dealers no estudo, prestam serviços a fundos, incluindo financiamento e operações com ativos.
Para reduzir os riscos, o FMI recomenda ampliar a transparência e mapear com mais rigor as conexões entre fundos e demais participantes do sistema financeiro. O organismo afirma que o monitoramento é dificultado pelo uso de derivativos, pela alavancagem e pelas operações realizadas entre países.
Entre as medidas propostas estão testes de estresse, análise de cenários e uma gestão mais eficiente das garantias oferecidas em operações financeiras, chamadas de colaterais. O FMI também sugere exigências adicionais de capital e limites para exposições concentradas. Essas medidas, voltadas às atividades dos gestores e às instituições, buscam conter a transmissão de problemas dos fundos para outros agentes, inclusive grandes bancos.
Para entender
- Alavancagem
- Uso de empréstimos ou de instrumentos financeiros, como derivativos, para ampliar posições de investimento. Ela pode aumentar os ganhos quando os ativos valorizam, mas também intensificar as perdas e levar à venda de ativos para cumprir obrigações.
- Prime brokers
- Instituições financeiras que oferecem serviços a fundos de investimento, como financiamento, custódia e intermediação de operações. A exposição a esses clientes pode transmitir impactos de dificuldades nos fundos para outras partes do sistema financeiro.