Flávio Bolsonaro deixa o Brasil após derrota e vai aos Estados Unidos
Após a eleição presidencial, o senador diz que a intimação da Polícia Federal influenciou sua saída; a defesa pede mudança no relator do inquérito.
Resumo em 30 segundos
Depois de perder a eleição para Lula, Flávio Bolsonaro foi para os Estados Unidos com a mulher e as filhas. Antes da viagem, aliados e advogados o aconselharam a não contestar o resultado e a entregar o passaporte italiano. A defesa também pediu que Alexandre de Moraes deixe de relatar o inquérito contra o senador.
Após perder a eleição presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixou o Brasil e foi para os Estados Unidos, onde afirmou que pretende continuar atuando politicamente. A saída ocorreu depois de uma reunião com advogados e aliados, na qual o senador foi aconselhado a não contestar o resultado das urnas nem repetir a estratégia de seu pai, Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar após ser condenado a 27 anos por tentativa de golpe de Estado.
O encontro ocorreu na segunda-feira (26), um dia depois da derrota de Flávio. Segundo participantes, o senador estava inconformado e se sentia injustiçado; na véspera, havia dito que não reconhecia o resultado. Depois de quase cinco horas de conversa, ele teria concordado em evitar alegações de fraude, que não apresentou provas para sustentar.
Os aliados argumentaram que insistir em acusações contra o sistema eleitoral poderia aproximá-lo do caminho que levou Jair Bolsonaro à prisão. Também defenderam que a contestação fosse feita por meio de uma ação eleitoral contra Lula, sob a alegação de uso da máquina pública. A avaliação do grupo era de que havia elementos para essa iniciativa.
A reunião ocorreu no escritório do advogado Otto Medeiros e contou, entre outros, com os advogados Tracy Reinaldet e Maria Claudia Bucchianeri, o coordenador da campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), o advogado Vicente Santini, a economista Daniella Marques e o senador eleito Guilherme Derrite (PP-SP). O grupo também combinou que Flávio participaria, na semana seguinte, de um encontro no Congresso com senadores de direita para discutir a oposição a Lula. Entre os primeiros temas estaria a disputa pela presidência do Senado.
Naquela manhã, Flávio havia visitado o pai. Ao deixar a casa de Jair Bolsonaro, recebeu uma intimação da Polícia Federal (PF), segundo relatou. A medida está ligada a um inquérito que investiga suspeita de lavagem de dinheiro e a possível relação do senador com o advogado Willer Tomaz. Nesse caso, a PF pediu o cancelamento dos passaportes brasileiros de Flávio e a entrega do documento italiano; o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou as medidas.
Durante a reunião, os advogados recomendaram que o senador entregasse o passaporte italiano. Flávio gravou um vídeo dizendo que cumpriria a determinação e que não havia cogitado deixar o país. Ele repetiu a gravação três ou quatro vezes antes de divulgá-la nas redes sociais, pouco antes das 17h. Um advogado teria combinado de buscar o documento na manhã seguinte e levá-lo à PF.
Na terça-feira (27), porém, mensagens e ligações feitas pelo advogado ao senador ficaram sem resposta. Pouco antes das 8h, um amigo de Flávio enviou mensagem à mulher dele, Fernanda Bolsonaro. Naquele momento, um portal argentino já noticiava que o senador havia atravessado a fronteira com a Argentina. Fernanda respondeu que o marido estava deitado ao lado dela e que entraria em contato ao acordar.
Flávio chegou a Miami na quarta-feira (28), acompanhado da mulher e das duas filhas. Na sexta-feira (30), em transmissão nas redes sociais, disse que a intimação da PF influenciou sua decisão de sair do país. Ele afirmou que o pai presenciou a intimação e lhe disse: “já sabe aonde é que eles querem chegar com isso, né?”. Flávio declarou que, nos Estados Unidos, continuará tendo “voz ativa”, ao contrário do pai, que, segundo ele, está censurado.
Na mesma sexta-feira, a defesa do senador pediu ao presidente do STF, Edson Fachin, que Moraes seja declarado impedido de relatar o inquérito e que o caso seja redistribuído, de preferência ao ministro André Mendonça. Os advogados também solicitaram a revogação das medidas cautelares, que incluem a entrega e o cancelamento de passaportes e a proibição de contato entre Flávio e Willer.
A defesa sustenta que Moraes não deveria conduzir a investigação porque viajou em aeronave que a PF aponta como elo entre Flávio e Willer. Os advogados argumentam ainda que o inquérito deveria ficar com Mendonça, relator da investigação sobre fraudes no INSS, da qual a apuração sobre o senador teria derivado. Os pedidos ainda dependem de análise.
A ida aos Estados Unidos foi criticada por integrantes mais moderados da direita e por aliados da campanha, que defendiam outro rumo para a oposição. A carta divulgada por Flávio após sua chegada, na qual se apresentou como “verdadeiro presidente eleito”, ampliou o afastamento de parte desse grupo. O senador depois substituiu a expressão por “líder do Brasil”, mas manteve o teor de contestação.