Estudo mostra sobrevida após transplante de fígado em cirrose grave
Pesquisa com 995 pacientes em 63 hospitais registrou sobrevida de até 89,5% após um ano entre transplantados com dois órgãos comprometidos.
Resumo em 30 segundos
O estudo Chance acompanhou 995 pessoas com cirrose agudamente descompensada em 63 hospitais de quatro continentes. Entre pacientes com dois órgãos comprometidos, a sobrevida um ano após o transplante foi de 89,5%, ante 27% entre os não transplantados. Os autores destacam a importância de estabilizar os órgãos afetados antes da cirurgia.
Um estudo internacional concluiu que pacientes com cirrose hepática em estágio crítico, mesmo quando a doença já comprometeu outros órgãos, podem ter bons resultados com um transplante de fígado se esses órgãos forem estabilizados antes da cirurgia. A pesquisa Chance acompanhou 995 pessoas em 63 hospitais de quatro continentes, incluindo três centros brasileiros, e comparou a sobrevida de pacientes transplantados e não transplantados.
Entre os pacientes com dois órgãos comprometidos que receberam um fígado, 89,5% estavam vivos um ano depois da operação. No grupo com o mesmo número de órgãos afetados que não foi transplantado, a sobrevida foi de 27%. Para quem tinha três órgãos comprometidos, os índices foram de 79,3% entre os transplantados e 12% entre os que não receberam o órgão.
Os resultados foram menos favoráveis quando havia mais órgãos afetados. O estudo, publicado no Journal of Hepatology, indica que a gravidade da cirrose, por si só, não deve excluir automaticamente o paciente da avaliação para transplante. A seleção depende, porém, da possibilidade de estabilizar rapidamente as funções comprometidas e da avaliação clínica de cada caso.
A cirrose com descompensação aguda ocorre quando a falência do fígado passa a afetar outros órgãos. A deterioração pode atingir rins, pulmões, cérebro e coração, e o organismo fica mais vulnerável a uma cirurgia de grande porte. Por esse risco, pacientes nessa condição costumam ser considerados por muitos centros como candidatos difíceis ao transplante.
Alberto Queiroz Farias, coordenador do estudo no Brasil e diretor da Divisão de Doenças do Fígado da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, afirmou que avanços tecnológicos e maior conhecimento da doença ajudaram a identificar quais pacientes podem se beneficiar da operação. Segundo ele, o foco da equipe médica deve ser preparar o organismo para receber o novo órgão.
Os pesquisadores querem que os resultados ajudem a estabelecer protocolos para avaliar esses pacientes em centros de transplante. Atualmente, a inclusão de pessoas com cirrose aguda e falência de outros órgãos ocorre de forma pontual, diante da preocupação de que o paciente não resista à cirurgia ou tenha uma sobrevida curta depois dela.
O transplante substitui o fígado comprometido por um órgão doado. A cirurgia pode envolver recursos para controlar sangramentos, preservar o fígado do doador e monitorar as funções do paciente. Entre as tecnologias citadas no estudo estão equipamentos que recuperam e filtram o sangue perdido durante a operação, além de instrumentos que cortam e cauterizam vasos com precisão.
O fígado desempenha funções essenciais para o equilíbrio do organismo, como processar substâncias e eliminar compostos tóxicos. Quando deixa de funcionar adequadamente, toxinas podem se acumular no sangue; a falência também pode causar alterações na circulação dos pulmões e inflamação de células cerebrais. O comprometimento renal é uma das complicações que podem aparecer.
A cirrose é uma doença progressiva que substitui tecido saudável do fígado por áreas de cicatrização. Entre as causas estão o consumo excessivo de álcool, as hepatites B e C e o acúmulo de gordura no fígado. Como a doença pode avançar por anos sem sintomas claros, exames e acompanhamento médico são importantes para identificar lesões e tratar suas causas.
A sobrevida após um transplante varia conforme o estado de saúde do paciente e a evolução clínica. Os números do estudo Chance se referem especificamente à sobrevivência um ano depois da cirurgia entre pessoas com cirrose agudamente descompensada e diferentes quantidades de órgãos comprometidos; eles não representam uma previsão individual nem a sobrevida de todos os transplantados.