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Sábado, 17 de outubro de 2026

Estudo identifica alterações auditivas em crianças com microcefalia por zika

Pesquisa com 20 crianças encontrou respostas cerebrais atípicas aos sons da fala e dificuldades de linguagem; possível benefício da estimulação precoce ainda será investigado.

Por Redação Plantão Paulista 3 min de leitura
Imagem gerada por IA: Criança participa de uma avaliação auditiva em uma clínica, acompanhada por um adulto. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Criança participa de uma avaliação auditiva em uma clínica, acompanhada por um adulto.
Resumo em 30 segundos

Estudo realizado no Nordeste comparou dez crianças com síndrome congênita do zika a dez sem a condição. As crianças afetadas apresentaram respostas cerebrais atípicas aos sons da fala e dificuldades auditivas e de linguagem. A pesquisa foi observacional e não testou tratamentos. Os achados podem orientar futuras investigações sobre intervenção precoce.

Um estudo com crianças com microcefalia causada pelo vírus zika identificou alterações na resposta cerebral aos sons da fala e dificuldades em habilidades auditivas e de linguagem. A pesquisa, realizada no Nordeste e publicada em junho deste ano, comparou dez crianças com a síndrome congênita do zika a outras dez sem a condição.

A investigação foi conduzida por pesquisadores com participação da professora Ana Cláudia Figueiredo Frizzo, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Marília. As dez crianças afetadas — cinco meninas e cinco meninos, com idade média de 25 meses — foram comparadas a um grupo de controle também formado por cinco meninas e cinco meninos, cuja idade média era de 29 meses.

Para medir como o sistema nervoso respondia à fala, os pesquisadores apresentaram às crianças sons correspondentes às sílabas “ba” e “da”, emitidos a 70 decibéis. A atividade cerebral foi registrada por meio de Potenciais Evocados Auditivos (PEA), testes que captam respostas elétricas do sistema nervoso a estímulos sonoros. A equipe também avaliou habilidades relacionadas à compreensão e à expressão da linguagem com uma escala de desenvolvimento infantil.

Os resultados apontaram imaturidade e um padrão atípico nas respostas auditivas das crianças com microcefalia associada ao zika. Segundo Frizzo, isso pode dificultar a percepção de características dos sons importantes para distinguir a fala. A pesquisadora afirmou que as consequências para o desenvolvimento auditivo e linguístico são graves.

A linguagem depende da audição, mas não apenas dela: o cérebro também precisa interpretar e diferenciar os sons da fala. Por isso, alterações nas respostas auditivas podem estar relacionadas às dificuldades linguísticas observadas no grupo. Os testes usados no estudo indicaram que o padrão atípico de resposta cortical — a atividade cerebral registrada diante dos sons — acompanhava os prejuízos de linguagem.

A pesquisa é observacional: avaliou as crianças, mas não testou um tratamento. Frizzo disse que os achados podem orientar estudos sobre intervenção precoce. Como os primeiros anos de vida são importantes para o desenvolvimento, uma estimulação auditiva e linguística entre zero e 24 meses poderia reduzir efeitos negativos, mas essa possibilidade ainda precisa ser investigada.

O vírus zika é transmitido principalmente pelo mosquito Aedes aegypti, que também transmite dengue. A infecção da gestante pode afetar o desenvolvimento do feto e causar a síndrome congênita do zika (SCZ), conjunto de alterações que inclui, entre outras, a microcefalia. Essa condição é caracterizada por uma medida da cabeça menor do que a esperada para a idade e o sexo da criança.

Em 2015, o Brasil registrou um aumento fora do padrão de casos de microcefalia em recém-nascidos. Em abril daquele ano, exames confirmaram a circulação do zika no país; pesquisas realizadas em 2015 e 2016 associaram a infecção durante a gestação à síndrome. Além da microcefalia, foram identificadas alterações motoras, visuais e auditivas. Cerca de 1.600 crianças nasceram com a síndrome congênita do zika em 2015 e 2016, segundo dados do Ministério da Saúde.

Os efeitos da infecção seguem em investigação. Frizzo participa de um estudo iniciado em 2024 que acompanhará, durante cinco anos, aproximadamente 500 crianças cujas mães tiveram diagnóstico de zika na gravidez, mas que não desenvolveram a síndrome congênita. No segundo ano do trabalho, a equipe observou, nesse grupo, crianças com atrasos na linguagem e na capacidade de distinguir sons. O estudo busca avaliar possíveis efeitos da exposição pré-natal mesmo quando não há diagnóstico da síndrome.

Frizzo afirma que faltam protocolos específicos de atendimento para crianças com microcefalia decorrente do zika e defende políticas públicas que apoiem esse grupo e suas famílias. A lei 15.156, de 1º de julho de 2025, prevê dois benefícios federais para pessoas com deficiência permanente decorrente da síndrome: indenização por danos morais de R$ 50 mil, paga uma única vez, e pensão especial vitalícia mensal equivalente ao maior salário de benefício do Regime Geral de Previdência Social, com abono anual.

Para entender

Síndrome congênita do zika
Conjunto de alterações no desenvolvimento do feto associadas à infecção pelo vírus zika durante a gestação. A microcefalia pode fazer parte da síndrome, que também pode envolver alterações motoras, visuais e auditivas.
Potenciais Evocados Auditivos
Exames que registram respostas elétricas do sistema nervoso a estímulos sonoros. Eles ajudam a avaliar como o cérebro processa sons, incluindo elementos importantes para distinguir a fala.

Fontes: Folha de S.Paulo

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