Epagri obtém tilápias 39% mais pesadas após seleção genética
Resultado veio após cinco gerações da linhagem Gift, selecionada para as condições de cultivo de Santa Catarina; programa já trabalha na sexta linhagem.
Resumo em 30 segundos
A seleção genética conduzida pela Epagri elevou em 39% o peso das tilápias após cinco gerações. O programa parte da linhagem Gift e combina identificação dos peixes, análise de DNA e avaliação em viveiros. Desde 2014, a empresa distribuiu mais de 318 mil matrizes a produtores de 11 estados.
A tilápia criada a partir de um programa de melhoramento genético da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) atingiu peso 39% maior após cinco gerações de seleção. O trabalho, realizado no estado com base na linhagem Gift, busca adaptar os peixes às condições de cultivo catarinenses e fornecer matrizes a produtores de alevinos, os peixes jovens destinados à engorda.
A linhagem Gift foi introduzida em Santa Catarina em 2009. A Epagri acompanha cada animal, identifica características de interesse e direciona os cruzamentos para produzir peixes com melhor desempenho. O pesquisador Bruno Corrêa da Silva, do Campo Experimental de Piscicultura de Itajaí, afirma que a equipe trabalha agora na sexta linhagem. “A cada nova geração de tilápia, conseguimos acrescentar um pouco mais de rendimento. Foi assim que chegamos a um peso 39% maior. No momento, estamos trabalhando na sexta linhagem”, disse.
O processo combina identificação individual, análise de DNA e avaliação em viveiros. Os peixes recebem nanochips, pequenos dispositivos usados para reconhecer cada animal; pesquisadores também coletam uma amostra da nadadeira e a enviam a um laboratório de biologia molecular. A análise ajuda a identificar a diversidade genética dos animais e das famílias de reprodutores, além de características como tolerância ao frio e resistência a algumas doenças.
Com essas informações, a equipe define quais peixes serão cruzados. Os descendentes são avaliados também em propriedades que funcionam como Unidades de Referência Técnica, onde pesquisadores e produtores acompanham o desenvolvimento em condições comerciais. As matrizes selecionadas geram alevinos, que depois são criados até alcançar o tamanho de venda.
A seleção procura enfrentar limitações próprias de Santa Catarina. O clima subtropical faz as tilápias comerem menos no inverno e reduz o ritmo de crescimento; o relevo acidentado, por sua vez, restringe a construção de viveiros escavados, que exigem áreas planas. A temperatura também aparece nos resultados da linhagem Epagri SC04: a média de crescimento superou quatro gramas por dia nos meses mais quentes, de novembro a maio, e podia cair para dois gramas diários nos períodos mais frios, entre maio e outubro.
A SC04 foi apresentada em 2024 como uma linhagem voltada a cultivos intensivos em viveiros escavados e adaptada ao clima do estado. Na ocasião, a previsão era de ganho de crescimento de 33,9% ao longo de quatro gerações. O balanço divulgado em outubro deste ano atualizou o avanço: o peso ficou 39% maior após cinco gerações.
Para Miguel Faust, dono da Piscicultura Faust, em São Ludgero, no sul catarinense, os efeitos da seleção aparecem em várias etapas da criação. “Hoje temos peixes com crescimento mais rápido, melhor conversão alimentar, maior rendimento de filé e uma adaptação muito melhor às condições climáticas de Santa Catarina, especialmente às temperaturas mais baixas”, afirmou. Conversão alimentar é a relação entre a quantidade de ração consumida e o ganho de peso do peixe: quanto menor a quantidade de alimento necessária para crescer, mais eficiente tende a ser a produção.
Fundada em 1995, a empresa de Faust vende cerca de dois milhões de alevinos por ano. Ele também relaciona o melhoramento à uniformidade dos lotes. A Epagri, por sua vez, informou que distribuiu mais de 318 mil matrizes a 56 produtores de 11 estados desde 2014. Em Santa Catarina, 90% dos produtores de alevinos usam matrizes da empresa; cada matriz pode produzir cerca de mil alevinos por safra.
A produção estadual de tilápia chegou a 50 mil toneladas em 2025, alta de 65% em uma década, segundo a Epagri. Santa Catarina é o quarto maior produtor brasileiro da espécie, atrás de Paraná, São Paulo e Minas Gerais. O avanço da genética se soma a orientações da empresa sobre construção de viveiros, qualidade da água, alimentação, povoamento, retirada dos peixes, biossegurança e gestão sanitária.
A Epagri também mantém uma tabela para orientar a quantidade diária de ração de acordo com o peso e o tamanho dos peixes e a temperatura da água. A empresa afirma que essas recomendações podem melhorar a conversão alimentar, reduzir custos e diminuir impactos ambientais. O extensionista rural Darci Pitton Filho, corresponsável pela piscicultura no programa de Aquicultura e Pesca da Epagri, diz que a atividade exige preparação: “O modelo comercial de produção de tilápia não permite amadorismo. Estamos falando de uma atividade de alta densidade econômica que, como tal, possibilita alta rentabilidade, mas com riscos elevados”.
A pesquisa também se conecta à expansão da produção de alevinos. A Aquacultura Nilótica, de Timbó, informou à Epagri que pretende triplicar sua produção em cinco anos, para 30 milhões de unidades anuais. A empresa vê o melhoramento genético como um processo contínuo, destinado a elevar o desempenho dos peixes disponíveis aos produtores.
Para entender
- Alevinos
- São peixes jovens usados para iniciar a criação. Na produção de tilápia, os produtores de alevinos fornecem esses animais a piscicultores, que os criam até atingirem o tamanho de venda.
- Linhagem Gift
- Gift é uma linhagem de tilápia usada em programas de melhoramento genético. A seleção de indivíduos com características desejáveis e o cruzamento direcionado buscam transmiti-las às gerações seguintes.