Eletroacupuntura reduz dor pós-herpes-zóster em ensaio clínico
Após quatro semanas, 46,7% dos participantes tiveram redução de ao menos 30% na dor; a técnica pode ser complementar, mas não substitui os tratamentos convencionais.
Resumo em 30 segundos
Ensaio clínico com 448 pessoas encontrou redução de pelo menos 30% na dor em 46,7% dos pacientes tratados com eletroacupuntura, ante 24,3% no grupo submetido a um procedimento simulado. O benefício foi observado durante o acompanhamento de um mês. A técnica ainda precisa ser estudada em outras populações e não substitui medicamentos ou orientação profissional.
Um ensaio clínico com 448 pessoas indica que a eletroacupuntura pode reduzir a dor persistente causada pela neuralgia pós-herpética, uma complicação do herpes-zóster. Depois de quatro semanas, 46,7% dos pacientes tratados com a técnica tiveram redução de pelo menos 30% na intensidade da dor, ante 24,3% entre os que receberam um procedimento simulado. Os resultados foram publicados na revista científica JAMA Neurology.
A redução de 30% é considerada relevante em estudos sobre dor crônica e pode ser percebida pelo paciente, mas não significa que a dor tenha desaparecido. O neurologista Marcel Simis, do Einstein Hospital Israelita, também chama atenção para a melhora observada no grupo submetido ao procedimento simulado. A comparação sugere um benefício da estimulação, mas não permite concluir que ela funcione para todos.
A neuralgia pós-herpética ocorre quando a dor continua mesmo após o desaparecimento das lesões na pele provocadas pelo herpes-zóster, conhecido popularmente como cobreiro. A complicação afeta entre 10% e 18% das pessoas que desenvolvem a doença e pode durar meses ou anos. O zóster é causado pelo vírus da catapora, que permanece no organismo e pode voltar a se manifestar, sobretudo com o envelhecimento ou a redução da imunidade.
A inflamação associada ao vírus pode danificar fibras nervosas. Embora a pele costume cicatrizar em algumas semanas, a recuperação dos nervos pode levar mais tempo ou não ocorrer completamente. O sistema nervoso passa a processar os sinais de forma alterada, o que pode provocar queimação, pontadas e choques, além de perda de sensibilidade. Em alguns casos, o contato da roupa ou do lençol desencadeia dor intensa.
O tratamento busca controlar a dor e reduzir seus efeitos sobre o sono, o humor e as atividades diárias. Entre as opções estão gabapentina e pregabalina, alguns antidepressivos e produtos aplicados na pele, como lidocaína e capsaicina. A resposta varia e pode ser parcial; efeitos adversos também limitam o uso de medicamentos, especialmente entre idosos, que podem ter outras doenças e tomar vários remédios.
Na eletroacupuntura, pares de agulhas são conectados a um aparelho que emite pulsos elétricos de baixa frequência. No ensaio, cada sessão durou 30 minutos, e os participantes fizeram cinco sessões por semana, durante quatro semanas, totalizando 20. A corrente era ajustada até causar uma contração muscular discreta na região estimulada.
O mecanismo de alívio ainda não está esclarecido. Uma hipótese é que a estimulação interfira na transmissão dos sinais dolorosos e acione mecanismos naturais de controle da dor. A técnica não regenera o nervo: o possível efeito parece estar relacionado à forma como o sistema nervoso processa a dor, e não à reversão da lesão.
Os benefícios observados se mantiveram durante o mês de acompanhamento depois das sessões, e não foram registrados eventos adversos clinicamente importantes. O estudo, porém, teve seguimento curto e incluiu apenas pacientes chineses, o que aponta para a necessidade de novas pesquisas em outras populações. Os participantes que receberam eletroacupuntura também usaram menos analgésicos, e uma proporção maior reduziu ou interrompeu algum medicamento.
A técnica não substitui os tratamentos convencionais e, por enquanto, pode ser considerada uma possibilidade complementar, inclusive para quem não obtém controle suficiente da dor com remédios ou tem efeitos adversos. Ainda não há estudos suficientes comparando diretamente a eletroacupuntura com medicamentos para determinar se sua eficácia é equivalente ou superior. A escolha deve ser individualizada com orientação profissional; tratamentos caseiros ou homeopáticos não foram avaliados nesse ensaio.
A vacinação é a principal forma de prevenir o herpes-zóster e, consequentemente, reduzir o risco da complicação. No Brasil, a vacina recombinante é indicada a partir dos 50 anos e para pessoas com mais de 18 anos que tenham comprometimento da imunidade ou maior risco de desenvolver a doença. O imunizante está disponível apenas na rede particular.
Para entender
- Neuralgia pós-herpética
- É a dor que persiste depois que as lesões na pele causadas pelo herpes-zóster desaparecem. Pode durar meses ou anos e está associada a danos nas fibras nervosas provocados pela inflamação.
- Eletroacupuntura
- Técnica que combina a inserção de agulhas com pulsos elétricos de baixa frequência. A hipótese é que a estimulação interfira na transmissão dos sinais de dor; o mecanismo ainda não está totalmente esclarecido.