Eleições em Israel projetam disputa sem maioria entre Netanyahu e Eisenkot
Pesquisas de boca de urna indicam 53 cadeiras para o bloco de Eisenkot, 50 para o de Netanyahu e 17 para partidos árabes; a apuração oficial segue em andamento.
Resumo em 30 segundos
As pesquisas de boca de urna em Israel apontam vantagem para o bloco de oposição liderado por Gadi Eisenkot, mas nenhum grupo teria maioria no Parlamento. O Likud, partido de Benjamin Netanyahu, aparece como o maior partido individual. A apuração oficial deve continuar até quinta-feira, e a formação de uma coalizão pode levar semanas.
Pesquisas de boca de urna divulgadas nesta terça-feira, 27, em Israel projetam uma disputa sem maioria definida entre o bloco de oposição liderado por Gadi Eisenkot e a coalizão do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. A eleição, realizada em Israel, pode alterar o comando do governo, mas a formação de uma nova coalizão deve levar semanas e as projeções ainda não representam o resultado oficial.
As estimativas divulgadas pelos principais canais de televisão indicam 53 cadeiras para o grupo de Eisenkot, 50 para o bloco de Netanyahu e 17 para partidos árabes. O Likud, legenda do primeiro-ministro, aparece como o maior partido individual, mas isso não garante que Netanyahu consiga reunir apoio suficiente para governar. Em Israel, são necessários ao menos 61 dos 120 deputados do Parlamento para formar uma maioria.
O sistema parlamentarista israelense permite que o bloco com mais cadeiras não seja necessariamente o responsável pelo próximo governo. O partido vencedor precisa negociar o apoio de outras legendas para alcançar a maioria, e as conversas podem resultar em uma coalizão liderada por outro grupo. Em 2021, Netanyahu obteve o maior número de assentos, mas não conseguiu formar um governo majoritário.
Eisenkot afirmou que, se as projeções se confirmarem, elas representarão uma “perda total de confiança em Netanyahu” e em seu governo. O oposicionista disse que agiria rapidamente para substituir o atual governo. O líder da oposição, Yair Lapid, também classificou as estimativas como uma derrota para Netanyahu, enquanto o ministro das Relações Exteriores, Gideon Saar, disse que as comemorações da oposição eram prematuras e destacou que o Likud continuava sendo o maior partido.
A apuração oficial é feita manualmente nas seções eleitorais, com representantes dos partidos acompanhando a contagem. As cédulas seguem depois para centros regionais, onde os dados são registrados eletronicamente. A divulgação dos resultados começou após o encerramento da votação, mas a conclusão do processo não era esperada antes da tarde de quinta-feira.
A participação foi elevada. Até as 20h, 74,3% dos eleitores aptos haviam votado, a maior proporção registrada naquele horário desde 1988. Mais cedo, o chefe da comissão eleitoral, Dean Livne, informou que mais de 3,29 milhões de pessoas tinham comparecido às urnas, o equivalente a 44,9% do eleitorado. Houve filas em seções de diferentes regiões, e a comissão decidiu que quem ainda estivesse na fila às 22h poderia votar.
O resultado das eleições em Israel é acompanhado como um novo teste à liderança de Netanyahu, sob pressão desde os ataques do Hamas em outubro de 2023 e as guerras que se seguiram. Eisenkot atribuiu responsabilidade política e militar ao primeiro-ministro pela falha em impedir o ataque. O oposicionista, ex-chefe das Forças Armadas, também perdeu um filho e dois sobrinhos durante a ofensiva israelense em Gaza.
Apesar das diferenças sobre a condução do governo e da segurança interna, os dois principais concorrentes defendem posições semelhantes em temas centrais de política externa. Ambos consideram o Irã uma ameaça, rejeitam a criação de um Estado palestino e não propõem uma retirada imediata de Gaza. Eisenkot afirma que o Hamas deve deixar de exercer poder no território em 18 meses, por meio de medidas que podem combinar operações militares e o plano de paz patrocinado pelos Estados Unidos.
Netanyahu, por sua vez, rejeitou em agosto uma proposta do Conselho da Paz, liderado pelo presidente Donald Trump, que previa o desarmamento do Hamas e a retirada das forças israelenses. O premiê disse que o desarmamento precisa ser efetivo. Em julho, foram anunciados planos para três assentamentos do tipo Nahal em Gaza; esse modelo funciona como posto militar avançado e pode servir de base para comunidades permanentes. A instalação representaria a volta de colonos ao enclave após 21 anos.
Sobre o Irã, Eisenkot apoia a opção militar para impedir que o país obtenha armas nucleares, mas considera inviável derrubar o governo iraniano apenas com bombardeios ou uma invasão hipotética. Ele não descarta um acordo entre Washington e Teerã, embora avalie que sanções são mais eficazes neste momento. Netanyahu defende uma postura mais ofensiva e tem pressionado por novas ações militares contra o país.
Na Cisjordânia, ambos rejeitam um Estado palestino e apoiam os assentamentos, mas Eisenkot se opõe ao projeto E1, que dividiria o território em duas partes. Ele também promete retirar das milícias judaicas funções de segurança e entregá-las às Forças Armadas, com o objetivo declarado de conter a violência de colonos. Netanyahu, em contraste, pode avançar com o E1 e com a expansão de assentamentos se formar uma coalizão com aliados favoráveis a essas medidas.
A eleição ocorre enquanto Israel enfrenta críticas internacionais pela guerra em Gaza e pela expansão dos assentamentos na Cisjordânia. Em julho de 2024, a Corte Internacional de Justiça considerou ilegal a presença de assentamentos israelenses no território e afirmou que ela deveria terminar o mais rapidamente possível. O Tribunal Penal Internacional também emitiu uma ordem de prisão contra Netanyahu. Mesmo uma troca de governo, porém, não indica necessariamente uma mudança de rumo na política em relação aos palestinos ou ao Irã.