Economia americana perde força com emprego fraco e inflação persistente
A criação de vagas ficou perto de 40 mil por mês no último ano, enquanto o CPI subiu a 3,7% em setembro e pode limitar a resposta do Fed.
Resumo em 30 segundos
A economia dos Estados Unidos mostra sinais de desaceleração, com contratações fracas, vendas mais lentas em pequenas empresas e inflação persistente. Os juros elevados podem pressionar investimentos em infraestrutura de inteligência artificial. Ao mesmo tempo, oscilações nos mercados refletem a incerteza sobre inflação, emprego e crescimento.
A economia dos Estados Unidos dá sinais de perda de força, apesar de ainda apresentar indicadores de resistência. A combinação de contratações fracas, vendas mais lentas em pequenas empresas e inflação persistente preocupa analistas, que também veem riscos para os investimentos em inteligência artificial (IA), em meio a juros elevados e à recente instabilidade nos mercados.
O emprego é um dos pontos de atenção. Segundo Mark Zandi, economista da Moody’s Analytics, a criação mensal de vagas ficou perto de 40 mil, em média, no último ano. Desconsiderado o setor de saúde, porém, o crescimento do emprego foi praticamente nulo. Zandi afirma que contratações estagnadas e poucas horas trabalhadas tornam a economia mais vulnerável a uma piora.
A taxa de desemprego permanece baixa, mas, na avaliação do economista, esse dado precisa ser lido junto com a redução da participação no mercado de trabalho. Aposentadorias em alta e baixa imigração contribuem para essa queda, segundo ele. Assim, uma taxa de desemprego contida não significa, necessariamente, que a demanda por trabalhadores esteja forte.
Entre as pequenas empresas, a confiança também recuou. O índice da Federação Nacional de Empresas Independentes (NFIB, na sigla em inglês) passou de 98,7 pontos em agosto para 97,9 em setembro. Uma parcela crescente das companhias consultadas apontou a fraqueza das vendas como seu principal problema, sinal que a Bespoke Investment Group considera relevante porque esse indicador tende a subir em períodos de contração econômica.
A leitura das pesquisas empresariais exige cautela. Economistas da Pantheon Macroeconomics afirmam que levantamentos recentes sugerem uma atividade mais fraca no fim do terceiro trimestre, possivelmente sob pressão da recuperação dos preços globais de energia. Eles também observaram que a pesquisa da NFIB teve 411 respostas, ante cerca de 1.200 há pouco mais de uma década.
A inflação pode limitar a resposta do Federal Reserve (Fed), o banco central americano, à desaceleração. O índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) subiu 3,7% em setembro, depois de avançar 3,4% no mês anterior, acima das expectativas dos analistas. O resultado aumentou a expectativa de que o Fed possa elevar os juros novamente em outubro, embora dirigentes tenham sinalizado que provavelmente não fariam isso no fim do mês.
Juros altos encarecem empréstimos e investimentos, e esse efeito pode alcançar os projetos de IA. Zandi avalia que o custo de capital pode tornar mais cara a construção de infraestrutura para a tecnologia, enquanto uma queda no valor de mercado das empresas dificulta a captação de recursos. Se as taxas permanecerem elevadas por mais um ou dois trimestres, afirmou, a IA poderá se tornar um ponto fraco da economia.
O debate tem consequências além do setor de tecnologia: investimentos em infraestrutura de IA vinham contribuindo para o crescimento americano. Uma desaceleração desses projetos poderia reduzir esse impulso, ao mesmo tempo que a inflação persistente mantém os custos de financiamento altos. Ainda assim, a fraqueza observada nas ações não ocorreu por falta de notícias favoráveis para todas as empresas do setor.
Nas últimas 24 horas, investidores venderam ações de tecnologia em diferentes mercados. O índice Kospi, da Coreia do Sul, chegou a cair 8% e acionou temporariamente um mecanismo que interrompe as negociações. A Nasdaq recuou até 1,03% durante a manhã, mas encerrou o pregão com alta de 0,08%. Os papéis de empresas ligadas à computação em nuvem e à fabricação de chips também oscilaram.
A TSMC, fabricante de semicondutores, divulgou resultados do terceiro trimestre acima das expectativas e projetou aumento dos investimentos em expansão e infraestrutura nos próximos dois anos. As ações da Apple fecharam na quarta-feira em máxima histórica, e subiram 0,55% na quinta. A Anthropic, desenvolvedora do Claude, informou ter alcançado lucratividade ajustada; a receita de US$ 17 bilhões no terceiro trimestre, porém, aparentemente ficou abaixo de estimativas anteriores.
A tensão também apareceu nos títulos públicos dos Estados Unidos, considerados ativos de proteção em momentos de incerteza. O rendimento chegou a 5,32% antes de recuar para 5,08%, em uma oscilação expressiva. O movimento reflete a disputa entre investidores que buscam segurança e aqueles que exigem retornos maiores para compensar os riscos. Para a economia americana, a questão central é se a inflação cederá sem que o emprego e os investimentos percam ainda mais força.
Para entender
- NFIB
- A Federação Nacional de Empresas Independentes é uma entidade dos Estados Unidos que representa pequenas empresas. Seu índice de otimismo é baseado em pesquisas com empresários e acompanha avaliações sobre vendas, emprego, crédito e condições para operar.
- Federal Reserve
- O Federal Reserve, conhecido como Fed, é o banco central dos Estados Unidos. Ele define a política monetária, incluindo a taxa básica de juros, com o objetivo de promover estabilidade de preços e condições sustentáveis para o emprego.
- CPI
- O Índice de Preços ao Consumidor dos Estados Unidos, chamado CPI pela sigla em inglês, mede a variação dos preços de uma cesta de bens e serviços comprados por consumidores. É um dos principais indicadores usados para acompanhar a inflação no país.