Clubes brasileiros somam R$ 20 bilhões em dívidas e atrasos
Treze equipes da Série A relataram pagamentos vencidos até junho de 2026; os dados de dívidas totais, referentes ao fim de 2025, não indicam quanto está atrasado.
Resumo em 30 segundos
Treze dos 20 clubes da Série A registraram dívidas em atraso até junho de 2026, incluindo pendências salariais, tributárias e de transferências. Os passivos totais da divisão somavam R$ 17,34 bilhões no fim de 2025. Atlético-MG e Corinthians tinham os maiores montantes, mas os valores totais não correspondem necessariamente a débitos vencidos.
Treze dos 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro relataram dívidas em atraso até junho de 2026, segundo dados da Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (Anserf), criada pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para fiscalizar as regras de fair play financeiro. Nove equipes informaram pendências com salários de jogadores ou funcionários; o levantamento também registra atrasos de impostos e valores de transferências entre clubes.
Atlético-MG, Botafogo, Corinthians, Fluminense, Grêmio, Internacional, Santos, São Paulo e Vitória estavam entre os clubes com pagamentos atrasados a atletas ou funcionários ao fim do primeiro semestre. A Anserf recebe, por enquanto, a informação sobre a existência de atraso, mas não exige que as equipes informem o valor pendente.
O tipo de dívida varia entre os clubes. O Athletico-PR não declarou atraso salarial, mas informou valores de transferências devidos a outras equipes. Vasco, Coritiba e Remo relataram pendências de impostos com o poder público. Na Série B, o Goiás também informou atraso de tributos.
Os dados sobre atrasos são distintos do balanço do total de dívidas, divulgado pela agência com base em informações até dezembro de 2025. Na Série A, os passivos somavam cerca de R$ 17,34 bilhões. O Atlético-MG liderava a lista, com R$ 2,21 bilhões, seguido pelo Corinthians, com R$ 2,08 bilhões.
No caso do Atlético-MG, R$ 1,26 bilhão era de curto prazo, categoria que inclui obrigações vencidas e não pagas e valores com vencimento, em geral, em até 12 meses. Outros R$ 949 milhões correspondiam a dívidas de longo prazo, a vencer depois desse período. No Corinthians, eram R$ 699 milhões de curto prazo e R$ 1,38 bilhão de longo prazo.
Os valores totais não equivalem necessariamente a quantias vencidas: incluem compromissos com diferentes prazos de pagamento. A Anserf não informou o montante específico dos atrasos comunicados até junho de 2026. Assim, os números de dívida total referem-se ao fechamento de 2025, enquanto o registro de inadimplência considera ocorrências do primeiro semestre deste ano.
Na Série B, 11 clubes declararam atrasos salariais: América-MG, Atlético-GO, Avaí, Ceará, Criciúma, Cuiabá, Fortaleza, Náutico, Ponte Preta, Sport e Vila Nova. A maioria também tinha pendências em transferências, com exceção de Atlético-GO e Criciúma. O total de dívidas dos clubes da divisão era de R$ 2,65 bilhões no fim de 2025; Sport, com R$ 324 milhões, e Náutico, com R$ 291 milhões, tinham os maiores montantes.
A agência também informou que dez equipes da Série A estão em recuperação judicial ou em plano de pagamento de credores. Na Série B, são seis. A recuperação judicial é um processo pelo qual uma empresa busca reorganizar o pagamento de suas dívidas e manter as atividades, sob acompanhamento judicial; um plano de credores, por sua vez, organiza as condições e prazos para quitar débitos.
Para Moises Assayag, sócio-diretor da Channel Associados e especialista em finanças do futebol, os atrasos e o crescimento das dívidas refletem uma crise financeira e de liquidez. Ele afirmou que déficits recorrentes, falta de disciplina financeira e planejamento insuficiente contribuem para o endividamento e defendeu mudanças na gestão e na governança dos clubes.
Pedro Weber, especialista em negócios no esporte, disse que decisões voltadas a resultados esportivos imediatos podem ultrapassar a capacidade financeira das equipes. Para ele, o planejamento esportivo precisa acompanhar a realidade econômica, com controle de custos e previsibilidade de receitas.
O sistema de fair play financeiro da CBF foi anunciado em novembro de 2025 e prevê fiscalização de dívidas em atraso três vezes ao ano: em 31 de março, 31 de julho e 30 de novembro. As regras valem imediatamente para compromissos assumidos desde 1º de janeiro de 2026; dívidas anteriores entram no regulamento a partir de 30 de novembro, fim do período de transição.
O regulamento também exige que dados sobre transferências e registros de atletas sejam lançados em tempo real em um sistema da CBF. Na parte operacional, os clubes devem buscar superávit — receitas superiores às despesas —, com avaliação baseada na soma dos resultados dos três exercícios mais recentes. Um déficit em um ano pode levar o clube a monitoramento. O advogado Eduardo Carlezzo afirmou que a aplicação uniforme das regras após o período de transição será decisiva para a credibilidade do modelo.