Centrão negocia espaço no quarto mandato de Lula e busca cargos
A distribuição de ministérios ainda não começou formalmente; Lula prioriza definir o comando da Fazenda, enquanto partidos calculam apoio no Congresso.
Resumo em 30 segundos
Partidos do Centrão e legendas que ficaram neutras na eleição buscam espaço no quarto mandato de Lula e defendem maior participação na articulação política. A negociação ainda não começou formalmente. O tamanho das bancadas e a definição do próximo ministro da Fazenda devem influenciar a distribuição de cargos e a formação da base no Congresso.
Partidos do Centrão e legendas que ficaram neutras na eleição negociam espaço no quarto mandato do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva. A articulação inclui a tentativa de reduzir a presença do PT nos postos responsáveis pela relação do governo com o Congresso e a indicação de aliados para ministérios e funções no Legislativo. As conversas sobre a distribuição de cargos, porém, ainda não começaram formalmente.
Hoje, o PT controla o Ministério das Relações Institucionais, a Casa Civil e as lideranças do governo na Câmara, no Senado e no Congresso. União Brasil, PP, Republicanos, MDB e PSD também integraram a Esplanada no terceiro mandato, mas ainda não definiram oficialmente se farão parte da base, da oposição ou se atuarão como independentes.
O líder do Republicanos na Câmara, Augusto Coutinho (PE), defendeu uma composição mais ampla. “O governo tem que ser amplo. O presidente vai precisar de apoio e não pode fechar só com o PT no comando político. Isso foi um erro nesse governo Lula 3”, afirmou. Ele ponderou que as conversas ainda não começaram.
O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, disse que o governo procurou o partido. “O governo já nos procurou desta vez, sim. Lula precisa ter uma postura para unir o país e aumentar o apoio, algo que não conseguiu no terceiro mandato”, declarou em entrevista. No PT, o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, defende que a oferta de cargos seja condicionada à garantia de votos no Congresso, algo que, segundo integrantes do partido, nem sempre ocorreu na gestão anterior.
A negociação será influenciada pela composição das duas Casas. O PL, partido de Flávio Bolsonaro, terá 121 deputados federais no ano que vem, 24 a mais do que agora, e 29 senadores, mais de um terço do Senado. O PT tem 70 deputados e precisará buscar alianças com União Brasil, PP, Republicanos, PSD e MDB para formar maioria nas votações. A oposição também cresceu mais no Senado, onde governistas esperam maior pressão contra o Executivo e o Supremo Tribunal Federal (STF).
Lula trabalha pela reeleição dos presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Aliados avaliam que a dependência do governo em relação aos dois pode aumentar para aprovar propostas. Embora Republicanos, PP e União Brasil tenham apoiado Flávio no segundo turno, integrantes dessas siglas afirmam que o governo precisará delas. Os partidos ficaram neutros na primeira etapa da eleição e liberaram filiados alinhados a Lula para não seguir a orientação no segundo turno, entre eles Aguinaldo Ribeiro (PP-PB) e Silvio Costa Filho (Republicanos-PE).
Uma possibilidade debatida no Centrão é indicar Silvio Costa Filho para o Ministério das Relações Institucionais, que coordena a negociação do governo com o Congresso. Ele é próximo de Hugo Motta, já comandou o Ministério de Portos e Aeroportos e atualmente é líder da maioria na Câmara. O próprio Silvio disse a aliados que não há definição sobre o posto.
O PP tenta obter espaço no Executivo. O deputado André Fufuca, indicado pelo partido para o Ministério do Esporte no terceiro mandato, foi eleito senador; não há previsão se retornará ao governo ou assumirá o mandato. Deputados do PP também articulam a indicação de Aguinaldo Ribeiro. No União Brasil, Moses Rodrigues (CE) e Pedro Lucas Fernandes (MA) buscam aval da legenda para assumir ministérios.
A escolha de cargos na articulação política pode trazer atritos com o Congresso, e parte do Centrão prefere pastas ligadas à execução de obras, como Cidades e Desenvolvimento Regional. No Senado, aliados de Lula também querem evitar que senadores assumam ministérios e deixem as vagas para suplentes considerados sem expressão política. Renan Filho (MDB-AL), ex-ministro dos Transportes, é citado como possível líder do governo na Casa e pode permanecer no mandato. Ele também afirmou a aliados que não há decisão sobre a função.
Antes de avançar sobre os demais postos, Lula concentra a atenção no Ministério da Fazenda e na definição de quem sucederá o atual ministro, Dario Durigan, mantido como interlocutor da política econômica. O governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), é um dos nomes avaliados para a pasta. A expectativa de integrantes do governo é que as demais escolhas comecem a avançar depois dessa definição.
Para entender
- Centrão
- Expressão usada no Brasil para se referir a partidos e grupos parlamentares que costumam negociar apoio a governos em troca de participação em decisões e espaços na administração pública. Não designa uma aliança fixa: sua composição e atuação podem variar conforme o tema e o momento político.