Carlos Pereira atribui virada de Lula a temor de volta do bolsonarismo
O cientista político afirma que a incerteza sobre um governo de Flávio Bolsonaro mobilizou eleitores no segundo turno, com possível migração de votos e menor abstenção.
Resumo em 30 segundos
Carlos Pereira avalia que a preocupação com a volta do bolsonarismo ao poder ajudou Lula a reverter o resultado do primeiro turno. O pesquisador aponta possível migração de votos, mobilização de eleitores que poderiam não votar e uma campanha petista eficaz. Também analisa os desafios do próximo governo no Congresso e para a oposição.
O cientista político Carlos Pereira, professor da FGV EBAPE, atribuiu a virada de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL), no segundo turno da eleição presidencial, à mobilização de eleitores preocupados com a possibilidade de retorno do bolsonarismo ao poder. Para Pereira, parte do eleitorado pode ter mudado de candidato, especialmente no Sudeste e em Minas Gerais, além de eleitores que antes não pretendiam votar terem ido às urnas.
A avaliação foi feita depois de uma disputa que, segundo o pesquisador, teve dois resultados inesperados: a vitória de Flávio no primeiro turno e a reversão do resultado por Lula no segundo. Pereira disse que ainda é preciso examinar os dados com mais profundidade para confirmar o movimento de votos, mas afirmou que a campanha petista na etapa final foi eficaz e que as mobilizações tiveram impacto.
Na análise do cientista político, o eleitor mediano — aquele que não se identifica plenamente com nenhum dos dois polos — pesou os riscos associados a cada candidatura. Embora houvesse cansaço e frustração com a continuidade dos governos Lula, a incerteza sobre o que Flávio faria no poder levou parte dos votantes a preferir a manutenção do governo atual.
Pereira relacionou essa preocupação à dificuldade de Flávio de definir a relação com o legado do pai, Jair Bolsonaro. Segundo ele, o candidato oscilou entre acenos à própria base, como a promessa de tirar o ex-presidente da cadeia, e compromissos com responsabilidade macroeconômica. Na reta final, afirmou, Flávio atuou na defensiva, enquanto Lula adotou uma estratégia de maior mobilização.
O primeiro turno, na interpretação de Pereira, expressou a rejeição de eleitores cansados da sequência de governos do PT. No segundo, a possibilidade concreta de vitória de Flávio mobilizou quem temia a volta da família Bolsonaro ao poder. A disputa, afirmou, tornou-se mais intensa nas ruas e nas redes sociais nas últimas três semanas, quando os dois lados passaram a buscar eleitores que não eram favoráveis a nenhum deles.
O pesquisador disse que o desempenho de Flávio também evidencia a força da associação com o pai e a dificuldade dos partidos de centro-direita para construir candidaturas competitivas. Na avaliação dele, há demanda por líderes populistas tanto à esquerda quanto à direita. Lula representa esse perfil na esquerda, enquanto Jair Bolsonaro é a principal referência populista da direita.
Pereira afirmou que a eleição também abre um desafio para a oposição: organizar uma alternativa que não dependa do bolsonarismo. Depois de duas derrotas consecutivas de integrantes da família Bolsonaro, partidos com possíveis candidatos, segundo ele, precisam começar cedo a construir nomes próprios. Para Lula, o desafio é preparar um sucessor com antecedência, já que não é possível apontar agora quem poderá receber o apoio do grupo político.
O quarto mandato de Lula também deverá enfrentar dificuldades no Congresso. Pereira espera que o Legislativo fique mais à direita e avalia que o desgaste acumulado do PT e as relações difíceis com partidos aliados podem tornar mais custosa a formação de uma coalizão. Ainda assim, disse, o Executivo brasileiro mantém instrumentos para negociar apoio parlamentar, embora o presidente precise estabelecer concessões claras a partidos do Centrão.
O cientista político também apontou a percepção de politização do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Supremo Tribunal Federal (STF) como um problema para o Judiciário. Segundo ele, a visão de que há dois blocos definidos nas cortes pode comprometer a legitimidade das instituições. Pereira afirmou que o Supremo terá de buscar recuperar a confiança da sociedade e lidar com ministros diretamente envolvidos no caso Master.
Na avaliação dele, propostas de reforma do Judiciário feitas durante a campanha tiveram sobretudo caráter retórico. Pereira considera improvável que um Congresso fragmentado e um governo de coalizão imponham mudanças que reduzam o poder das cortes. Ajustes, se ocorrerem, tendem a partir do próprio Supremo, afirmou.
Sobre a relação entre o próximo governo e o Legislativo, Pereira disse que a possibilidade de uma nova coalizão permanece, mas com custo político maior. Ele também avaliou que a derrota de Flávio torna menos provável que a vitória do filho pudesse abreviar ou libertar Jair Bolsonaro da prisão, uma esperança que, segundo o pesquisador, poderia existir entre apoiadores do ex-presidente.