Queimadas no Amazonas levam aviões da FAB a combater incêndios
Fumaça mantém Manaus entre as cidades com pior qualidade do ar; 36 municípios estão em emergência e a mobilização federal inclui 11 aeronaves.
Resumo em 30 segundos
Dois aviões KC-390 da FAB começaram a atuar no combate aos incêndios no Amazonas nesta segunda-feira, enquanto a fumaça voltou a encobrir Manaus. O estado registra 1.380 focos nos primeiros dez dias de outubro e mais de 122 mil hectares queimados. A operação federal prevê 11 aeronaves e 290 brigadistas.
A fumaça das queimadas voltou a encobrir Manaus e manteve a capital amazonense entre as cidades com pior qualidade do ar do país. Nesta segunda-feira, 12, dois aviões KC-390 Millennium da Força Aérea Brasileira (FAB) começaram a atuar no combate aos incêndios florestais no Amazonas, onde ao menos 36 municípios estão em situação de emergência.
A mobilização federal ocorre após semanas de avanço do fogo e de fumaça na capital. Os primeiros relatos dos efeitos em Manaus são de 8 de setembro; no dia seguinte, o governo estadual publicou um decreto que proibiu o uso do fogo em todo o estado. A prefeitura já havia declarado estado de atenção em 24 de setembro.
Às 6h desta segunda-feira, o indicador IQAir registrou 195 pontos em Manaus, patamar classificado como insalubre, com concentração de partículas finas PM2.5 de 123 microgramas por metro cúbico. No bairro Armando Mendes, o Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental da Universidade do Estado do Amazonas mediu 218,2 microgramas por metro cúbico e classificou a qualidade do ar como péssima. PM2.5 são partículas minúsculas que podem penetrar profundamente no sistema respiratório.
A poluição levou a prefeitura a suspender eventos ao ar livre previstos para domingo e segunda-feira, entre eles atividades da Faixa Liberada, do Parque Cidade da Criança, da Orla da Glória e do Parque Gigantes da Floresta, além da Feirinha do Boi Manaus. Equipes da Força Nacional do Sistema Único de Saúde (SUS) foram enviadas à região para reforçar o atendimento médico.
A dimensão dos incêndios também foi observada por ministros durante um sobrevoo realizado no domingo, 11. João Paulo Capobianco, do Meio Ambiente e Mudança do Clima, e Waldez Góes, da Integração e do Desenvolvimento Regional, vistoriaram áreas próximas a Autazes. A decolagem da comitiva foi atrasada pela baixa visibilidade e pelo teto operacional reduzido por causa da fumaça.
Capobianco afirmou que foram identificados focos dentro de áreas de floresta preservada, em locais de difícil acesso. Para o ministro, a presença de pontos isolados sugere ação humana intencional para degradar a vegetação e preparar áreas para desmatamento. A Polícia Civil do Amazonas investiga a autoria dos incêndios; em setembro, registrou 69 boletins de ocorrência ligados a crimes ambientais.
Os focos se concentram principalmente no interior do estado e na região ao sul de Manaus. Careiro, Careiro da Várzea e Autazes estão entre os municípios mais atingidos, segundo Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia. Nos primeiros dez dias de outubro, o Amazonas contabilizou 1.380 focos, ante 372 no mesmo período do ano passado, de acordo com o Painel do Fogo, ligado ao Ministério da Defesa.
A área queimada no estado chegou a 122.794 hectares entre 1º e 9 de outubro, volume 97,3% acima da média histórica para o mês inteiro, segundo levantamento do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O fogo em vegetação ressecada pode se espalhar com mais facilidade; a estiagem prolongada, as altas temperaturas e os efeitos do El Niño reduzem a umidade e agravam as condições para incêndios e para a permanência da fumaça.
A resposta federal prevê 11 aeronaves e 290 brigadistas em campo. Os dois KC-390 usam o Sistema Modular de Combate a Incêndios Aerotransportado (MAFFS), equipamento que permite lançar água sobre focos de fogo. Cada cargueiro pode despejar até 12 mil litros por saída, e a programação prevê três voos diários de aproximadamente duas horas. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) informou que havia extinguido 236 incêndios no estado e ainda atuava em outros 22 focos ativos.
A crise também provocou divergência entre autoridades estaduais e federais sobre o apoio ao combate. O comandante do Corpo de Bombeiros do Amazonas, coronel Orleilso Muniz, afirmou que o Ministério da Justiça e Segurança Pública recusou, por falta de aeronaves disponíveis, um pedido estadual de quatro aviões feito em 18 de setembro. Já o Ministério do Meio Ambiente declarou que ofereceu apoio operacional em 23 de setembro, com helicópteros, aviões Air Tractor e brigadistas federais, e disse que o governo estadual dispensou uma equipe.
Waldez Góes afirmou que a atuação direta da União nos municípios dependia do decreto estadual de emergência e do reconhecimento federal, publicados no sábado, 10. O ministro criticou a declaração do comandante dos bombeiros e disse que, após o reconhecimento, o governo federal passou a ter respaldo para mobilizar recursos. Uma equipe de São Paulo, com 25 bombeiros e cinco profissionais da Defesa Civil, também foi enviada para ajudar no combate às chamas. As operações federais devem continuar ao longo desta semana, sem previsão imediata de melhora das condições climáticas.
Para entender
- MAFFS
- O Sistema Modular de Combate a Incêndios Aerotransportado é um equipamento instalado em aeronaves para lançar água sobre focos de incêndio. Seu uso permite adaptar aviões de transporte para apoiar operações de combate ao fogo.
- PM2.5
- É a classificação de partículas finas suspensas no ar com diâmetro de até 2,5 micrômetros. Por serem muito pequenas, podem penetrar profundamente no sistema respiratório e estão associadas a riscos à saúde.