Militares criticam fuga de Flávio Bolsonaro e apoiam Tarcísio
Oficiais das Forças Armadas veem o governador de São Paulo como alternativa presidencial após a derrota de Flávio na eleição de 2026.
Resumo em 30 segundos
A saída de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos sem reconhecer a derrota eleitoral provocou críticas entre militares. Oficiais ouvidos veem Tarcísio de Freitas, reeleito governador de São Paulo e possível candidato à Presidência em 2030, como alternativa. A maioria poderia apoiá-lo caso ele rompa com a família Bolsonaro.
A derrota de Flávio Bolsonaro na eleição de 2026 e sua ida aos Estados Unidos sem reconhecer o resultado provocaram críticas entre militares e ampliaram o apoio a Tarcísio de Freitas, governador reeleito de São Paulo. Integrantes das Forças Armadas veem o governador, que já era apontado como favorito para uma candidatura presidencial, como alternativa para o próximo ciclo político.
A reação entre militares foi mais forte do que a registrada quando Jair Bolsonaro deixou o Brasil após perder a eleição de 2022, segundo relatos de oficiais do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. As fontes, entre elas ex-comandantes de Forças e militares que atuaram em diferentes governos, falaram sob anonimato e criticaram a saída de Flávio sem reconhecimento da derrota nem explicações aos eleitores.
Um oficial-general que trabalhou no Congresso e em governos comparou a atitude ao abandono de uma tropa pelo comandante. Outro militar afirmou que a decepção está ligada a valores como honra, lealdade e gratidão, e não apenas a divergências políticas. Uma terceira fonte disse que o episódio enfraqueceu a imagem de heroísmo que Flávio tentou associar à alegação de perseguição política.
Um ex-comandante de Força defendeu que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva busque a pacificação do país e resumiu o clima entre os militares com a frase: “Menos Janja, mais Alckmin. Menos Bolsonaro, mais Tarcísio”. A declaração combina críticas à família Bolsonaro com a preferência pelo governador paulista e pelo vice-presidente Geraldo Alckmin.
Tarcísio, do Republicanos, foi reeleito governador e afirmou em entrevista que considera disputar a Presidência ao fim do novo mandato, em 2030. Ele é capitão da reserva do Exército e deixou a carreira militar em 2008 para trabalhar no serviço público. Em 2018, entrou na política para assumir o cargo de ministro no governo de Jair Bolsonaro.
Para os militares ouvidos, o governador reúne valores conservadores associados à chamada “família militar” e experiência administrativa. O grupo inclui integrantes ativos e inativos das Forças Armadas, parentes e pensionistas. Também pesa, segundo os oficiais, sua trajetória no Exército: Tarcísio estudou na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman) e no Instituto Militar de Engenharia (IME), além de atuar em uma companhia de engenharia na missão de paz da Organização das Nações Unidas no Haiti, a Minustah.
A comparação com Bolsonaro é outro elemento da avaliação. Um coronel recém-transferido para a reserva disse que Tarcísio deixou o Exército após aprovação em concurso, enquanto Bolsonaro saiu da instituição em circunstâncias que, na avaliação do oficial, foram desfavoráveis. O governador, porém, foi escolhido por Bolsonaro e ainda não rompeu publicamente com o ex-presidente. Militares apostam que a separação entre os dois ocorrerá no próximo ciclo eleitoral.
A tendência, segundo os entrevistados, é que os setores mais radicais da família militar permaneçam com os Bolsonaro. A maioria poderia migrar para Tarcísio caso se confirme uma cisão. Mesmo militares que consideram positivo o período dos dois primeiros mandatos de Lula para as Forças Armadas votaram em Flávio, em parte por oposição ao PT e por insatisfação com o Supremo Tribunal Federal (STF).
Entre as queixas está a avaliação, manifestada por militares, de que o STF agiu de forma enviesada no julgamento da trama golpista e alinhada ao governo Lula. Alguns oficiais contestam que os ataques de 8 de Janeiro tenham sido uma tentativa de golpe e os descrevem como uma “baderna”. Outros reconhecem que militares envolvidos em uma ruptura institucional deveriam ser punidos, mas consideram excessivas as penas aplicadas.
No processo principal sobre a trama golpista, o STF condenou 29 pessoas, das quais 21 são militares das Forças Armadas. Dois desses militares tiveram as penas substituídas por multas. Também foram condenados e presos cinco coronéis da cúpula da Polícia Militar do Distrito Federal por omissão nos ataques de 8 de Janeiro.
O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, elogiado por Tarcísio, tem atuado com os atuais comandantes para reduzir manifestações políticas nas Forças Armadas e candidaturas de militares da ativa. O trabalho busca conter o desgaste à imagem das instituições e preservar as relações entre civis e militares. A participação de militares e policiais na política, porém, voltou em 2026 ao nível recorde registrado durante o governo Bolsonaro, segundo os dados citados na apuração.
Também segue parada no Congresso uma proposta de emenda à Constituição que obrigaria militares da ativa a passar para a reserva ao registrar candidatura. A iniciativa enfrenta resistência nas Forças Armadas.