Índice SMLL sobe 16% em outubro com aposta em juros menores
A alta reflete expectativas de corte da Selic e o cenário eleitoral, mas analistas alertam que a valorização depende de juros menores e medidas fiscais.
Resumo em 30 segundos
O índice Small Cap (SMLL), que reúne ações de empresas de menor valor de mercado, avançou 16% em outubro. A expectativa de queda dos juros e as apostas sobre o resultado das eleições ajudaram a impulsionar os papéis. Analistas, porém, destacam que as projeções dependem de fatores ainda incertos e envolvem riscos.
As ações de empresas de menor valor de mercado voltaram ao radar dos investidores em outubro, impulsionadas pela expectativa de queda dos juros e por apostas sobre o resultado das eleições presidenciais. O índice Small Cap (SMLL), da B3, avançou 16% no mês e 14% no ano, embora ainda não tenha recuperado o patamar de 2019. O Ibovespa, por sua vez, subiu 9% em outubro e mais de 26% em 2026.
O SMLL reúne ações de companhias de menor valor de mercado. Em geral, esses papéis têm menor liquidez — ou seja, podem ser negociados com menos facilidade — e muitas empresas que compõem o grupo dependem mais da economia brasileira. Por isso, costumam ser mais sensíveis às mudanças nos juros e na atividade econômica.
Quando a taxa Selic sobe, o custo de financiamento aumenta e empresas endividadas podem gastar mais para honrar seus compromissos. Uma redução dos juros tende a aliviar essa despesa e também pode estimular crédito, consumo e investimentos. Esses efeitos ajudam a explicar por que varejistas, incorporadoras e outras companhias ligadas ao mercado doméstico aparecem entre as possíveis beneficiadas por um ciclo de cortes.
Parte do movimento recente está relacionada às expectativas formadas após o primeiro turno, realizado em 4 de outubro. Investidores passaram a considerar a possibilidade de vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno, marcado para 25 de outubro, e de adoção de medidas para conter o crescimento da dívida pública. Esse cenário é uma hipótese de mercado, não uma política já definida: o resultado da eleição e as decisões de um eventual governo ainda são incertos.
No primeiro pregão depois da votação, em 5 de outubro, a curva de juros futuros de prazo mais longo caiu cerca de 0,9 ponto percentual. Esses contratos refletem as expectativas do mercado para os juros adiante. A aposta em maior disciplina fiscal a partir de 2027 contribuiu para o recuo, e investidores avaliam que ele poderia continuar caso Flávio vença e priorize o ajuste das contas públicas.
A possibilidade de juros menores também favoreceu uma revisão das projeções para ações. A Eleven elevou sua estimativa para o Ibovespa em 2027 a 235 mil pontos e avaliou que papéis ligados aos ciclos da economia podem concentrar parte da valorização esperada. A casa afirmou que a queda dos juros poderia atrair novamente investidores locais para a renda variável, enquanto a melhora das perspectivas para a economia brasileira já vinha favorecendo a entrada de recursos estrangeiros.
A leitura, porém, não é consensual. A Ágora Investimentos apontou que as small caps são negociadas com desconto de 72% em relação às empresas maiores, mas ponderou que essa diferença dificilmente diminuirá de forma expressiva sem uma queda dos juros. A corretora também alertou que comprar ações apenas porque estão baratas não elimina o risco de que permaneçam nesse patamar por mais tempo. Sua estratégia combina empresas que podem ganhar com juros menores e companhias de qualidade capazes de resistir a cenários menos favoráveis.
O cenário político acrescenta incerteza às projeções. As pesquisas mais recentes indicavam uma disputa acirrada no segundo turno; além disso, as medidas econômicas de um eventual governo de Flávio não estavam claras. Também havia dúvidas sobre a prioridade que seria dada à agenda fiscal diante de outros temas mencionados na campanha, como a anistia dos condenados pela tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro e o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Um estudo do BTG Pactual estimou como os resultados de 100 empresas brasileiras de sua cobertura poderiam reagir a cortes de 100 pontos-base nos juros. Um ponto-base equivale a 0,01 ponto percentual. A análise considerou o efeito sobre resultados financeiros e impostos, sem incluir o impulso adicional que uma economia mais aquecida poderia oferecer. O banco destacou o varejo, beneficiado tanto pelo alívio nos juros quanto por melhores condições de crédito e maior atividade.
No setor imobiliário, incorporadoras voltadas às faixas de renda média e alta foram apontadas como sensíveis à queda dos juros. Distribuidoras de energia, empresas de saneamento, companhias de infraestrutura e locadoras de veículos também aparecem entre as possíveis beneficiadas. Segundo o estudo, 22 dos 30 papéis destacados estão na carteira atual do SMLL.
Entre as maiores variações potenciais de lucro em 2027, o levantamento citou a Viveo, com 77% para cada corte de 100 pontos-base na Selic; a Ecorodovias, com 45%; a Auren, com 28%; e a Minerva, com 23%. São estimativas condicionais, não previsões de retorno das ações. A Eleven também selecionou Ecorodovias, Ser Educação, Intelbras, Assaí, Alupar, Movida, Locaweb, Cyrela, Jalles Machado e Marcopolo, com empresas de diferentes setores, níveis de endividamento e perfis de risco.