Gelo dos Alpes suíços revela peça que pode completar esqui antigo
Encontrada no desfiladeiro de Col de Barberine, a madeira tem cerca de 90 centímetros; análise ainda deve confirmar a idade e se fazia par com outra peça.
Resumo em 30 segundos
O recuo do gelo no Col de Barberine, nos Alpes suíços, revelou uma peça de madeira de cerca de 90 centímetros. Um objeto semelhante, encontrado no mesmo local três anos antes, foi datado do século 5º a.C. A nova peça ainda será analisada para determinar sua idade e possível ligação com a primeira. O degelo também expõe outros vestígios arqueológicos e acelera a deterioração de materiais orgânicos.
O derretimento acelerado do gelo nos Alpes suíços revelou novos objetos arqueológicos, entre eles uma peça de madeira que pode completar um esqui de cerca de 2.500 anos. O achado foi feito pelo arqueólogo Romain Andenmatten no desfiladeiro de Col de Barberine, onde o recuo do gelo expôs materiais antes preservados sob a superfície.
A peça tem cerca de 90 centímetros e foi encontrada entre rochas, na borda do gelo. Andenmatten havia localizado, três anos antes, uma prancha semelhante no mesmo ponto. A primeira foi datada por carbono do século 5º a.C.; seu formato, com uma extremidade afilada, indica que poderia ser um esqui ou uma raquete de neve. A nova descoberta ainda precisa ser analisada para determinar sua idade e confirmar se pertence ao mesmo par.
A datação por carbono mede a quantidade de carbono radioativo remanescente em materiais orgânicos e permite estimar quando um organismo morreu ou foi retirado de circulação. No caso de objetos de madeira, o resultado ajuda a estabelecer sua antiguidade, embora não determine, por si só, a função exata do artefato.
A região enfrenta um recuo acentuado do gelo. Depois de um inverno com pouca neve e um verão de ondas de calor, as geleiras suíças perderam quase 20% do volume nos últimos cinco anos, segundo cientistas. No ritmo atual do aquecimento global, 97% das geleiras existentes nos Alpes podem desaparecer até o fim do século. O gelo também funciona como reserva de água, importante para dezenas de milhões de europeus durante períodos de seca.
O desaparecimento do gelo abre uma janela para a arqueologia, mas também cria urgência. Madeira, couro, tecidos e restos humanos podem sobreviver por milênios em ambientes congelados; quando ficam expostos, porém, se deterioram rapidamente ou podem ser levados por caçadores de tesouros. Diferentemente de pedra, metal e cerâmica, esses materiais orgânicos ajudam a reconstruir aspectos cotidianos da vida antiga, como roupas, ferramentas e formas de transporte.
Entre os itens já encontrados nos Alpes suíços estão um fragmento de tigela de madeira de olmo do quinto milênio a.C. e uma aljava de casca de bétula, datada de cerca de 2800 a.C., com duas pontas de flecha de sílex. Também foi recuperada uma escultura de madeira de lariço, com 60 centímetros, que representa uma figura humana em uma extremidade e termina em uma ponta afiada. Ela é dos dois últimos séculos a.C., mas sua finalidade permanece desconhecida.
Os achados desafiam a ideia de que as passagens alpinas eram espaços vazios ou inacessíveis. A arqueóloga Regula Gubler, de Berna, afirmou que as montanhas eram usadas por caçadores, pastores e comerciantes. Alguns trajetos entre vales parecem ter sido escolhidos por serem mais curtos, mesmo quando exigiam atravessar encostas íngremes ou alcançar altitudes elevadas.
No cantão de Valais, arqueólogos usam o aplicativo IceWatcher para receber relatos de possíveis descobertas. Caminhantes, pastores e coletores de cristais podem enviar informações sobre objetos encontrados nas montanhas. Foi por meio da ferramenta que Andenmatten soube, em 2024, de fragmentos de madeira em uma área de gelo no Restipass. As peças foram datadas da Idade do Bronze e podem ter aproximadamente 3.000 anos; algumas talvez fossem estacas para marcar caminhos e alertar viajantes sobre fendas, enquanto outras poderiam integrar um trenó ou ser restos de lenha.
A atuação de pessoas sem autorização também preocupa as autoridades. Em 2024, a polícia e os serviços arqueológicos de Valais apreenderam uma coleção de 11 mil artefatos, incluindo moedas, ferramentas e objetos decorativos da Idade do Bronze. Um homem foi interrogado por recolher peças com um detector de metais sem autorização.
No trabalho de campo deste ano em Col de Barberine, Andenmatten e o colega David Gucker encontraram uma quantidade de gelo muito menor do que a observada em uma visita anterior. Depois de vasculhar pedras e cascalho, Andenmatten percebeu dois fragmentos de madeira com bordas lisas. Ao aproximá-los, viu que se encaixavam e formavam uma peça moldada por mãos humanas. O objeto foi acondicionado em um saco para análise.