Foodtechs brasileiras somam 500 empresas e captam R$ 207 milhões
A NotMilk, da chilena NotCo, teve 9,3% do mercado de bebidas vegetais entre janeiro e agosto de 2026, enquanto startups investem em alimentos e logística.
Resumo em 30 segundos
O Brasil tinha 500 foodtechs em atividade em 2025, distribuídas por 11 setores, segundo levantamento da Liga Ventures. Até outubro, startups do segmento captaram R$ 207 milhões, abaixo dos R$ 877 milhões registrados em 2024. Empresas desenvolvem alimentos vegetais, reaproveitam resíduos, prolongam a conservação de produtos e aprimoram a distribuição.
As foodtechs — empresas que usam tecnologia para desenvolver alimentos e soluções para a cadeia alimentar — somavam 500 negócios em atividade no Brasil em 2025, distribuídos por 11 setores. O levantamento da Liga Ventures apontou maior concentração em novos alimentos e bebidas, que representavam 14,4% das empresas, seguidos por logística e entrega, com 7,6%, e reaproveitamento e gestão de resíduos, com 6,8%.
Até outubro, as startups brasileiras do setor haviam captado R$ 207 milhões em 16 operações. Em 2024, foram 24 rodadas que totalizaram R$ 877 milhões. No cenário global, os investimentos chegaram a R$ 12,3 bilhões, uma retração de 27% em relação ao ano anterior. No primeiro semestre deste ano, agronegócio e ciências da alimentação concentraram 64% dos US$ 6,5 bilhões investidos, enquanto o delivery recebeu 13%.
Entre as empresas que atuam com novos alimentos está a chilena NotCo, que combina ciência dos alimentos, tecnologia e inteligência artificial para desenvolver produtos vegetais com características semelhantes às de alimentos de origem animal. A companhia mantém as marcas NotMilk, NotCreme, NotMayo e NotShake. Segundo o diretor comercial Rafael Marques, a NotMilk teve 9,3% de participação no mercado de bebidas vegetais entre janeiro e agosto de 2026, a quinta maior fatia entre as marcas do segmento.
A participação informada diz respeito à linha NotMilk como um todo; os dados apresentados não detalham o desempenho de variedades específicas, como NotMilk Barista, Original, Chocolate ou High Protein. A empresa também não informou números separados para esses produtos. A categoria reúne diferentes alternativas vegetais ao leite, desenvolvidas para usos e perfis de consumo variados.
A Typcal, criada em 2023, transforma resíduos industriais ricos em nitrogênio e carbono em ingredientes feitos de micélio, estrutura que compõe os fungos. Em Pinhais, no Paraná, a empresa opera biorreatores de até 5 mil litros e tem capacidade anual para produzir 50 toneladas. Sua fermentação submersa converte resíduos em biomassa funcional em 21 horas. A startup já captou mais de R$ 10 milhões e vende a farinha Neutra Pro a fabricantes europeus de salgadinhos, cereais e barras; o produto também foi aprovado no México e no Chile.
A empresa espera obter aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 2027, segundo o CEO Paulo Ibri. A expectativa é apresentar, no mesmo período, produtos para bebidas e para adição de fibras, que já têm patentes. A aprovação sanitária é necessária para que ingredientes e produtos possam ser comercializados no país conforme as regras aplicáveis.
Outras iniciativas buscam reaproveitar matérias-primas e reduzir perdas. A Cellva captou R$ 20 milhões neste ano para fabricar um pó a partir da casca do café arábica, com a proposta de substituir o cacau. Já a Intelligent Foods usa autoclavagem — esterilização por vapor de água sob pressão e temperatura elevadas — para prolongar a conservação de alimentos. Após atender o setor de alimentação fora de casa, lançou marmitas que podem ficar expostas sem refrigeração e prepara um snack de frango, com produção prevista de até 200 mil unidades mensais.
A tecnologia também é aplicada à distribuição. A R aízs conecta cerca de 2 mil fornecedores a aproximadamente 80 mil clientes no Estado de São Paulo e usa algoritmos e inteligência artificial para prever a demanda. A empresa calcula ter 98,7% de assertividade nas previsões e desperdício de 2%, ante uma média setorial de 33%, segundo seu CEO, Tomás Abrahão. A Brendi, por sua vez, captou US$ 6,6 milhões para ampliar uma plataforma de delivery pelo WhatsApp, que também oferece catálogo digital e pagamentos.
Para entender
- Foodtechs
- São empresas que aplicam tecnologia ao desenvolvimento de alimentos e a diferentes etapas da cadeia alimentar, como produção, processamento, logística, distribuição e redução de desperdício.
- Micélio
- É a estrutura formada por filamentos que compõe os fungos. Pode ser produzido por fermentação e utilizado como matéria-prima em ingredientes alimentares, dependendo das características do produto e das regras sanitárias aplicáveis.
- Anvisa
- A Agência Nacional de Vigilância Sanitária é o órgão federal responsável por regular e fiscalizar produtos e serviços sujeitos à vigilância sanitária no Brasil, incluindo alimentos e ingredientes conforme as normas aplicáveis.