FMI aponta impacto da inteligência artificial em 40% dos empregos
Nas economias avançadas, a parcela chega a 60%; a estimativa inclui postos que podem ser transformados ou valorizados, além dos que perderão valor ou desaparecerão.
Resumo em 30 segundos
Kristalina Georgieva afirmou que investimentos em inteligência artificial ajudam a manter o crescimento mundial perto de 3%, mas a tecnologia pode afetar cerca de 40% dos empregos, proporção que chega a 60% nas economias avançadas. Autoridades também alertaram para mudanças nas oportunidades de início de carreira, na educação e na arrecadação dos governos.
Os investimentos em infraestrutura de inteligência artificial (IA) ajudam a sustentar o crescimento da economia mundial em cerca de 3%, mas a tecnologia também pode transformar o mercado de trabalho, a educação e a arrecadação dos governos, afirmou nesta segunda-feira, em Bangcoc, a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva. Segundo ela, pesquisas do Fundo indicam que cerca de 40% dos empregos no mundo serão aprimorados, desvalorizados ou eliminados pela IA; nas economias avançadas, a proporção chega a 60%.
Georgieva descreveu a mudança como um “tsunami em câmera lenta” e afirmou que a tecnologia já influencia a atividade econômica. O impulso dos investimentos em IA contrabalança, em parte, o efeito negativo do choque na oferta de energia. Em julho, o FMI projetou expansão global de 3% em 2026 e prevê divulgar uma atualização das estimativas nesta terça-feira.
A adoção da IA não significa que todos os postos atingidos serão substituídos. O levantamento citado por Georgieva inclui empregos cujas tarefas podem ser modificadas ou valorizadas pela tecnologia, além daqueles que podem perder valor ou desaparecer. Os trabalhos rotineiros e repetitivos estão diminuindo, enquanto há mais vagas de baixa remuneração em áreas como construção civil e operação de centros de dados.
Um estudo preliminar do FMI apontou que 10% dos empregos nos Estados Unidos já exigem habilidades ligadas à IA. A mudança também afeta a entrada no mercado de trabalho. Tharman Shanmugaratnam, presidente de Singapura, alertou para a redução da demanda pelo primeiro emprego após a graduação e pediu que os governos ajudem a criar ocupações em que as pessoas possam desenvolver suas carreiras ao lado da tecnologia.
“Há um problema específico que precisamos enfrentar muito em breve... e é que o primeiro degrau da carreira profissional, o primeiro emprego após a graduação, está registrando uma queda na demanda”, disse Shanmugaratnam. Ele também afirmou que a IA pode ampliar a diferença entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, caso os governos não atuem para promover a criação de empregos.
O presidente do Banco Mundial, Ajay Banga, disse não estar convencido de que a IA eliminará as vagas de início de carreira. Segundo ele, as transformações mais intensas devem ocorrer nas economias avançadas, onde são desenvolvidos grandes modelos de IA. Nos países emergentes, o Banco Mundial busca aplicações que não dependam de grande capacidade computacional, com potencial para elevar a produtividade de agricultores, profissionais de saúde e professores.
Além dos efeitos sobre o emprego, Georgieva chamou atenção para a possível transferência de renda do trabalho para o capital. Essa mudança pode alterar a arrecadação tributária, que depende em parte dos rendimentos e das atividades econômicas. O avanço da IA também exige mudanças na educação e na qualificação profissional, para que trabalhadores possam ocupar funções transformadas pela tecnologia.
Os investimentos em IA já provocam um choque de demanda e de investimento, afirmou a diretora-gerente. Eles podem acrescentar de 0,5 a 1 ponto percentual ao crescimento das economias avançadas da Ásia e de 0,2 a 0,8 ponto às economias emergentes asiáticas. Estados Unidos, China e Índia são os principais produtores da cadeia de suprimentos da tecnologia, enquanto empresas asiáticas fornecem parte dos equipamentos usados na infraestrutura.
As declarações foram feitas no primeiro dia dos encontros anuais do FMI e do Banco Mundial, realizados em Bangcoc ao longo desta semana. O evento reúne autoridades econômicas dos países-membros e ocorre em meio a pressões distintas sobre a economia: os investimentos em IA impulsionam a demanda, enquanto a crise na oferta de energia pesa sobre o crescimento.