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Segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Estudo aponta que fatores explicam até 70% da diferença de renda

Ao incluir aprendizagem escolar, experiência profissional e saúde na conta, pesquisadores estimam que o capital humano responde por 66% da disparidade entre países.

Por Redação Plantão Paulista 4 min de leitura
Imagem gerada por IA: Trabalhadores participam de uma atividade prática de formação profissional em uma oficina de ensino. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Trabalhadores participam de uma atividade prática de formação profissional em uma oficina de ensino.
Resumo em 30 segundos

Uma análise de economistas estima que fatores de produção explicam de 55% a 70% da diferença de renda entre países ricos e pobres. O capital humano — incluindo escolaridade, aprendizagem, experiência profissional e saúde — responde por 66% da disparidade em uma das estimativas. O resultado reduz o peso atribuído à produtividade nos cálculos tradicionais.

Um estudo dos economistas David Lagakos, da Universidade de Boston, e Todd Schoellman, do Federal Reserve de Minneapolis, estima que fatores de produção — sobretudo as habilidades e os conhecimentos dos trabalhadores — explicam entre 55% e 70% da diferença de renda entre países ricos e pobres. O resultado, baseado em novos dados e medidas mais amplas de capital humano, reduz o peso atribuído à produtividade em cálculos tradicionais e destaca a importância da educação, da saúde e do aprendizado durante a carreira.

A chamada contabilidade do desenvolvimento compara os recursos usados para produzir, como trabalhadores, horas de trabalho, máquinas e qualificação, com o Produto Interno Bruto (PIB) por trabalhador. A parcela da diferença de renda que esses recursos não explicam costuma ser atribuída à produtividade, entendida como a eficiência com que trabalho, capital e conhecimento são combinados.

Há cerca de 20 anos, o economista Francesco Caselli calculou que esses insumos explicavam, no máximo, aproximadamente um terço da disparidade de renda entre países. O restante era associado à produtividade. Lagakos e Schoellman reavaliaram a questão com dados acumulados desde então e concluíram que, pelo método tradicional, a proporção continua próxima de 30%. A mudança ocorre quando se incorporam medidas mais completas da qualidade da mão de obra.

A quantidade de horas trabalhadas, por si só, não explica a vantagem dos países ricos: trabalhadores de países pobres trabalham mais horas, em média. O capital físico — como máquinas, edifícios e infraestrutura — também não parece responder diretamente pela diferença. Embora países ricos disponham de mais capital, a relação entre capital e PIB é semelhante nos dois grupos.

Os pesquisadores observam que essa relação é compatível com a possibilidade de o capital acompanhar a renda, em vez de ser seu principal motor. Países ricos podem investir mais porque contam com trabalhadores qualificados e são mais produtivos. A conclusão, portanto, questiona a ideia de que estimular o investimento, isoladamente, seja o caminho mais promissor para elevar a renda.

A estimativa muda quando o capital humano deixa de ser medido apenas pelos anos de escolaridade. Por esse critério mais restrito, ele responde por 23% da diferença de renda. Ao incluir a aprendizagem efetiva dos alunos, medida por resultados em testes padronizados, a participação sobe para 36%. Em muitos países em desenvolvimento, as notas ficam muito abaixo das registradas em países ricos.

O cálculo também considera o que os trabalhadores aprendem depois de entrar no mercado de trabalho. Nos países ricos, os salários quase dobram ao longo da vida profissional; nos países em desenvolvimento, crescem cerca de 50%. Quando as diferenças de saúde também entram na conta, o capital humano passa a explicar 66% da disparidade de renda entre países.

Os autores usaram ainda a experiência de imigrantes como uma forma de testar as estimativas. Ao se mudar de um país pobre para os Estados Unidos, o trabalhador leva consigo suas habilidades, mas passa a atuar em outro ambiente, com empresas, infraestrutura e leis diferentes. Esses imigrantes triplicam seus salários nos Estados Unidos, enquanto o PIB por trabalhador do país é 32 vezes maior que o de seus países de origem.

A análise dos pesquisadores atribui à mudança de país cerca de um terço da diferença de renda e ao capital humano os outros dois terços, proporções próximas das obtidas com os dados de escolaridade, aprendizagem no trabalho e saúde. A comparação não resulta de uma divisão simples entre o aumento salarial dos imigrantes e a diferença de PIB por trabalhador, mas de uma análise mais ampla das condições de produção.

Com as incertezas das medições e outras questões metodológicas, Lagakos e Schoellman estimam que o conjunto dos fatores de produção explica de 55% a 70% da disparidade de renda entre países, em vez dos cerca de 30% indicados pela abordagem tradicional. Ainda não está esclarecido por que trabalhadores de alguns países acumulam mais habilidades que os de outros; os autores apontam que fatores familiares e culturais podem ter influência.

Para o Brasil, o estudo acrescenta educação e formação profissional ao debate sobre produtividade, que também envolve tributação, ambiente de negócios e infraestrutura. O país ampliou o acesso à escola, mas mantém desempenho fraco em avaliações internacionais como o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). O aprendizado no próprio ambiente de trabalho é outra dimensão considerada importante pelos pesquisadores.

Para entender

Capital humano
Conjunto de conhecimentos, habilidades e condições de saúde que influenciam a capacidade de trabalho das pessoas. Na análise, sua mensuração vai além dos anos de escolaridade e considera também o que os alunos aprendem, a experiência adquirida na carreira e as diferenças de saúde.

Fontes: Estadão

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