Eleição entre Lula e Flávio pode mudar rumo do desmatamento na Amazônia
O segundo turno será no próximo domingo, 25 de outubro; propostas dos candidatos divergem sobre fiscalização ambiental e exploração econômica da floresta.
Resumo em 30 segundos
A disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro pode alterar as políticas para a Amazônia. Flávio defende ampliar atividades econômicas e simplificar o licenciamento ambiental; especialistas alertam para riscos de aumento do desmatamento, inclusive o autorizado por lei. Lula apoia a fiscalização e a meta de interromper a derrubada até 2030.
A eleição presidencial no Brasil pode definir o rumo da política de proteção da Amazônia, diante das propostas distintas dos candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Em artigo publicado neste domingo (18), o jornal americano The New York Times avaliou que o resultado da disputa, cujo segundo turno está marcado para o próximo domingo, terá impacto sobre a preservação da floresta e os esforços para conter o desmatamento.
Flávio, senador e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, defende ampliar atividades econômicas na região, incluindo mineração, agropecuária, obras de infraestrutura e exploração de petróleo. Ele também propõe simplificar regras e procedimentos de licenciamento ambiental. Especialistas citados no artigo temem que a flexibilização permita mais derrubadas legalizadas, mesmo que o candidato prometa combater o desmatamento ilegal.
Na campanha, o senador elogiou a política ambiental adotada durante o governo do pai. “A maior forma de tratar a questão ambiental é o que fizemos durante o governo Bolsonaro”, afirmou. A candidatura dele tem apoio de representantes do agronegócio e de setores econômicos e políticos interessados na expansão da produção na Amazônia.
Durante os quatro anos de Jair Bolsonaro na Presidência, a área desmatada na região somou quase 4,6 milhões de hectares, segundo os dados mencionados no artigo. A devastação nesse período superou a média da década anterior. Já no governo Lula, o desmatamento caiu ao menor nível registrado, de acordo com dados da agência espacial brasileira.
Flávio diz que pretende acabar com o desmatamento ilegal até 2029, mas apresentou poucos detalhes sobre como alcançaria essa meta. A legislação brasileira permite que proprietários de terras na Amazônia desmatem até 20% da vegetação nativa de suas propriedades. Como senador, ele foi coautor de um projeto de lei que buscava eliminar esses limites, mas a proposta não avançou.
O compromisso de zerar a derrubada ilegal não elimina, por si só, a pressão sobre a floresta. A distinção é importante porque parte do desmatamento pode ocorrer com autorização legal, dentro das regras vigentes. Para o cientista brasileiro Carlos Nobre, pesquisador da Amazônia e das mudanças climáticas, a conservação exige interromper todas as formas de desmatamento. “O que realmente temos que buscar é o desmatamento zero”, afirmou.
Nobre alerta que a perda de vegetação pode reduzir as chuvas em grande parte da América do Sul, afetando a agricultura brasileira e os preços internacionais dos alimentos. Estudos apontam ainda o risco de a floresta perder gradualmente características de floresta tropical e se transformar em savana até 2050. Esse processo, chamado savanização, pode se tornar difícil de reverter depois de iniciado, segundo Nico Wunderling, professor da Universidade Goethe de Frankfurt e pesquisador de mudanças climáticas.
A pressão econômica inclui a demanda global por commodities agrícolas. O Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina e soja, atividades associadas à derrubada de vegetação; grandes áreas de floresta foram convertidas em pastagens. Nobre também afirmou que a destruição pode comprometer a produção de alimentos e advertiu: “Vamos perder tudo isso”.
A Amazônia enfrenta ainda atividades ilegais como tráfico de drogas, mineração e extração clandestinas de madeira e grilagem de terras. A região faz fronteira com Colômbia, Peru e Bolívia, países apontados como origem da maior parte da cocaína produzida no mundo. A rede de rios amazônicos também é usada como rota para transportar a droga a mercados do outro lado do Atlântico.
Robert Muggah, do Instituto Igarapé, afirma que o crime na região envolve redes que vão além do narcotráfico. “Existe um ecossistema muito maior de garimpeiros ilegais, madeireiros, contrabandistas, transportadores e intermediários corruptos”, disse. Esses mercados ilícitos se cruzam e contribuem para o avanço do desmatamento, segundo o pesquisador. O enfraquecimento da fiscalização no governo Jair Bolsonaro abriu espaço para a expansão dessas atividades, de acordo com especialistas citados no artigo.
Flávio propõe ampliar o monitoramento por satélites e adotar uma resposta militarizada contra organizações criminosas, que pretende classificar como grupos terroristas. Ao mesmo tempo, suas propostas de reduzir gastos públicos e simplificar órgãos de fiscalização levantam dúvidas sobre a capacidade de controlar atividades ilegais. Para Ariadne Natal, pesquisadora sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o enfrentamento exige também empregos sustentáveis e cooperação internacional, em vez de depender somente da força militar.
Lula defende o Acordo de Paris, fortaleceu órgãos de fiscalização ambiental e assumiu o compromisso de interromper o desmatamento até 2030. A diferença entre as propostas dos candidatos põe em debate não apenas a derrubada ilegal, mas também a extensão da exploração autorizada e a estrutura de fiscalização. A disputa envolve consequências potenciais para comunidades indígenas, biodiversidade, clima e economia; apoiadores de Flávio já advertiram grupos indígenas da Amazônia de que pretendem invadir suas terras caso ele vença, segundo o artigo.