Desenhos de Tarsila do Amaral entram em exposição em Itu
A mostra reúne cerca de 45 estudos e rascunhos, incluindo um desenho ligado à pintura “A Negra”, no museu Fama, no interior paulista.
Resumo em 30 segundos
Cerca de 45 desenhos de Tarsila do Amaral estão em exposição no museu Fama, em Itu. A seleção reúne estudos e rascunhos, em sua maioria da década de 1920, como um desenho relacionado à pintura “A Negra”. Também há nus masculinos, composições abstratas e um autorretrato da artista com cabelo curto.
Cerca de 45 desenhos de Tarsila do Amaral, em sua maioria estudos e rascunhos produzidos na década de 1920, estão em exposição no museu Fama, em Itu, no interior de São Paulo. A mostra “Tarsila: Onde Nascem as Imagens” apresenta trabalhos que ficaram pouco acessíveis por décadas e incluem um estudo relacionado à pintura “A Negra”.
As obras fazem parte de uma coleção de 204 folhas que permaneceu guardada por anos no Rio de Janeiro. Depois da morte do proprietário, a viúva vendeu o conjunto, adquirido pelo empresário Marcos Amaro, fundador do Fama. O museu já havia exibido os desenhos em 2020, mas a visitação foi reduzida durante a pandemia de coronavírus; a exposição atual reúne uma seleção menor.
Os papéis não são, em geral, pinturas concluídas. Segundo Emerson Castilho, museólogo do Fama, muitos são esboços feitos em cadernos, nos quais a artista registrava ideias antes de desenvolvê-las em telas. Algumas folhas também serviram para exercícios de Tarsila na Académie Julian, escola de arte que ela frequentou em Paris.
Entre as peças em destaque está um estudo para “A Negra”, com os contornos da figura traçados a nanquim. A composição apresenta formas tubulares e influência cubista, associada às aulas da artista com Fernand Léger, em Paris. O desenho permite observar uma etapa inicial de uma imagem que depois se tornou uma das obras centrais do modernismo brasileiro.
A seleção também mostra aspectos menos conhecidos da produção de Tarsila, como desenhos de nus masculinos e composições abstratas com referências cubistas. Há ainda um autorretrato em que ela aparece de cabelo curto, em uma representação ligada à imagem de mulher de vanguarda que buscava construir.
Embora os desenhos apareçam no catálogo raisonné da artista —publicação que reúne e documenta sua produção—, os responsáveis pelo livro consultaram fotografias da exposição realizada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, no fim da década de 1960. Eles não tiveram acesso às folhas originais, de acordo com Castilho.
Após a aquisição por Amaro, intermediada pela especialista em Tarsila Aracy Amaral, as obras passaram por higienização e restauro. A coleção é descrita como o maior conjunto de desenhos da pintora sob a guarda de uma instituição. A exposição foi organizada em colaboração com os herdeiros responsáveis pelo legado da artista.
Paola Montenegro, sobrinha-bisneta de Tarsila, está à frente da gestão do legado desde janeiro de 2023. Ela assumiu funções antes exercidas por Tarsilinha, outra sobrinha-neta da pintora. Montenegro disse que enfrentou resistência por ser jovem e afirmou que considera importante demonstrar a seriedade do trabalho. Desde que assumiu o posto, participou da realização de 11 exposições, além de projetos relacionados à artista.
A gestão do legado também envolve a autenticação de obras atribuídas a Tarsila. Montenegro participou da certificação de uma pintura e de desenhos examinados pelo perito Douglas Quintale. As certificações são contestadas por integrantes do mercado de arte e por Tarsilinha, e os trabalhos não constam no catálogo raisonné. Montenegro afirmou que a família apresenta o processo a interessados e que a análise considera aspectos físico-químicos, históricos e de procedência. Segundo ela, mais de 30 falsificações já foram identificadas.
Para entender
- A Negra
- Pintura de Tarsila do Amaral associada ao modernismo brasileiro. O estudo exposto em Itu mostra uma etapa anterior da composição, com contornos traçados a nanquim e formas tubulares ligadas à influência cubista.
- Catálogo raisonné
- Publicação de referência que reúne e documenta a produção conhecida de um artista. No caso dos desenhos em exposição, o catálogo registra as obras com base em fotografias de uma mostra anterior, sem consulta às folhas originais.