Christa Pike sobrevive à tentativa de execução por injeção letal
Christa Pike sobreviveu à tentativa de execução por injeção letal no Tennessee, em 30 de setembro, e segue internada em estado crítico.
Resumo em 30 segundos
Christa Pike sobreviveu à tentativa de execução por injeção letal no Tennessee, em 30 de setembro, e permanece internada em estado crítico. Ela recebeu duas doses de pentobarbital, segundo a cronologia relatada por testemunhas e advogados. O governador Bill Lee cancelou a execução prevista para dezembro e determinou uma investigação independente sobre o procedimento.
Christa Pike sobreviveu à tentativa de execução por injeção letal realizada pelo Estado do Tennessee na quarta-feira, 30 de setembro. A mulher, que está no corredor da morte pelo assassinato de uma colega em 1995, foi levada ao hospital em estado crítico após receber duas doses de pentobarbital. Seus advogados afirmaram que ainda não sabem se ela poderá se recuperar.
A execução estava prevista para as 10h, mas foi suspensa temporariamente por um tribunal federal de apelações cerca de uma hora antes do horário marcado. O Tennessee recorreu à Suprema Corte dos Estados Unidos, que derrubou a decisão após oito horas e autorizou a retomada do procedimento. A administração do barbitúrico começou cerca de 90 minutos depois.
Quando a cortina da câmara foi aberta para as testemunhas, Pike estava presa a uma maca, com um acesso intravenoso no braço. Ela disse que deixava o mundo com amor e afirmou: “Estou pronta para ser livre” e “Este é um dia feliz”. Em seguida, cantou com seu conselheiro espiritual e, alguns minutos depois, relatou dor ou ardência no braço e perguntou se a sensação era normal.
A cortina foi fechada e reaberta perto do momento em que seria aplicada uma segunda dose. Pike pareceu perder a consciência, mas continuou respirando e, por vezes, produziu sons semelhantes a roncos durante a hora seguinte. Cerca de 40 minutos depois da primeira abertura, os agentes penitenciários fecharam a cortina definitivamente.
O advogado de Pike, Randy Spivey, pediu um telefone para tentar acionar um tribunal e interromper o procedimento. Não há informação pública sobre o que ocorreu com ela entre o fechamento da cortina, às 20h06, e o aviso de que uma ambulância estava a caminho, por volta das 20h50. As testemunhas foram então orientadas a deixar o local.
As autoridades penitenciárias não esclareceram quando a tentativa de execução foi interrompida e começou o atendimento de emergência. Em comunicado, disseram que os protocolos de injeção letal foram seguidos. “Até o momento, não sabemos quais são as consequências da tortura química que ela sofreu”, afirmou Spivey.
O governador do Tennessee, Bill Lee, cancelou horas depois a execução prevista para 3 de dezembro, a última programada pelo Estado em 2026. Ele determinou uma investigação abrangente e independente sobre o que ocorreu. “Isso precisa ser feito de forma completa, independentemente de quanto tempo levar, seguindo qualquer processo necessário para garantir que cheguemos até o fim e que todas as perguntas sejam respondidas”, declarou.
O Estado já havia passado por uma revisão independente sobre seus procedimentos de execução. Quatro anos atrás, uma investigação concluiu que as regras estaduais não foram cumpridas e que os medicamentos usados na injeção letal não tinham sido testados adequadamente. A apuração ocorreu após uma execução ser interrompida em abril de 2022, devido ao manuseio inadequado dos fármacos.
Em maio, o Tennessee também suspendeu a execução de Tony Carruthers. Profissionais de saúde conseguiram inserir um acesso intravenoso no braço direito, mas não instalaram um segundo. Após tentativas no outro braço, na mão esquerda e no pé esquerdo, também não conseguiram estabelecer um acesso venoso central. Lee determinou que as autoridades aguardassem pelo menos um ano antes de tentar executá-lo novamente.
Os advogados de Pike haviam alertado que uma condição médica poderia tornar a injeção letal especialmente dolorosa. Segundo a defesa, ela tem trombocitose, caracterizada por níveis elevados de plaquetas, o que poderia afetar a coagulação nos pontos de aplicação ou causar sangramentos que atingissem os pulmões. Eles também relataram dificuldades para retirar sangue e instalar um acesso intravenoso. Spivey disse ter contado pelo menos sete pontos de inserção de agulhas no braço esquerdo de Pike e afirmou que uma delas entortou durante uma tentativa.
O advogado Stephen Ferrell disse que o maior temor de Pike não era morrer, mas enfrentar “uma morte prolongada, dolorosa e traumática”. Ele afirmou que foi isso que ocorreu, embora ela tenha sobrevivido. A defesa pediu que Lee comute a sentença de morte. “Christa sofreu uma punição maior do que qualquer outra pessoa na história da pena de morte americana. O governador deve comutar a sentença de Christa agora”, disse Spivey.
Pike não contestou ter matado Colleen Slemmer, de 19 anos, em 1995. As duas participavam do programa Job Corps, em Knoxville. Promotores disseram que Pike considerava Slemmer uma rival amorosa e a atraiu para um local isolado, onde Pike e seu namorado a atacaram com um estilete e a golpearam com um pedaço grande de asfalto. O crime recebeu ampla atenção, entre outros motivos, porque um símbolo satânico foi gravado no corpo da vítima.
Pike tinha 18 anos na época do assassinato. Seus advogados dizem que o júri não foi informado sobre os abusos sexuais que ela relatou ter sofrido na infância e aos 11 e 17 anos, nem sobre como essas experiências poderiam ter influenciado seu comportamento. Tadaryl Shipp, namorado de Pike, reconheceu ter gravado um pentagrama no corpo de Slemmer. Ele tinha 17 anos na época e foi condenado à prisão perpétua, com possibilidade de liberdade condicional.
May Martinez, mãe de Slemmer, assistiu à tentativa de execução e disse que a filha não obteve justiça. Ela relatou ter visto Pike acordada, mexendo a cabeça e os pés e tentando se sentar. “Não funcionou na primeira vez que aplicaram a injeção. Não funcionou na segunda vez, então ela está no hospital e viva”, afirmou.
Uma diretora do Death Penalty Information Center classificou o caso como singular e sem paralelo. Segundo ela, Pike é a única pessoa que permaneceu viva após receber drogas durante uma execução por injeção letal.
Quem é quem
- Christa Pike
- Mulher condenada à morte no Tennessee pelo assassinato de Colleen Slemmer, cometido em 1995. Pike sobreviveu a uma tentativa de execução por injeção letal em 30 de setembro e foi hospitalizada em estado crítico, segundo as informações disponíveis sobre o caso.
- Bill Lee
- Político do Partido Republicano que ocupa o cargo de governador do Tennessee. Após a tentativa frustrada de executar Christa Pike, cancelou a execução estadual prevista para dezembro de 2026 e determinou uma investigação independente sobre o procedimento.
- Death Penalty Information Center
- Organização norte-americana que reúne e divulga informações sobre a pena de morte nos Estados Unidos. Uma diretora da entidade descreveu como singular o caso de Christa Pike, que permaneceu viva após receber drogas durante uma execução por injeção letal.