Biomaterial injetável estimula reparação cerebral após AVC em camundongos
Em testes com camundongos, biomaterial injetado na área cerebral lesionada por AVC estimulou vasos e fibras nervosas e melhorou movimentos.
Resumo em 30 segundos
Pesquisadores da Universidade Duke testaram em camundongos um biomaterial injetável que estimulou a formação de vasos sanguíneos e fibras nervosas após lesões cerebrais causadas por AVC. Os animais tiveram melhor desempenho em um teste de movimento. A técnica é pré-clínica e exige mais estudos antes de qualquer avaliação em pessoas; a reabilitação continuaria essencial.
Pesquisadores da Universidade Duke, nos Estados Unidos, desenvolveram um biomaterial injetável que, em testes com camundongos, estimulou sinais de reparação em áreas do cérebro afetadas por um acidente vascular cerebral (AVC). Os animais tratados apresentaram mais vasos sanguíneos e fibras nervosas na região lesionada, além de melhora em um teste de movimento. A abordagem ainda está em fase pré-clínica e não foi testada em pessoas.
O AVC pode interromper o fornecimento de oxigênio e glicose a uma parte do cérebro. Quando os neurônios morrem, a restauração do fluxo sanguíneo não recupera automaticamente o tecido perdido. A pesquisa busca alterar o ambiente que se forma ao redor da lesão, para favorecer processos de reparação pelo próprio organismo.
A equipe utilizou uma estrutura chamada MAPS, composta por micropartículas de hidrogel organizadas em um suporte poroso. O material foi combinado com vesículas extracelulares produzidas por astrócitos, células cerebrais que liberam sinais capazes de influenciar outras células. Presas às micropartículas, as vesículas permaneceram concentradas na região lesionada.
Os pesquisadores também identificaram uma combinação de moléculas, IL-4 e C1q, que atraiu células do sistema imunológico, incluindo macrófagos e neutrófilos. Uma população de neutrófilos permaneceu na área por mais tempo do que o esperado e pareceu participar da resposta reparadora. Quando esses neutrófilos foram reduzidos, também diminuíram a formação de vasos e a remodelação do biomaterial.
No teste de caminhada sobre uma grade, os camundongos que receberam o material erraram menos ao posicionar as patas dianteiras. Depois de oito semanas, o desempenho deles não apresentou diferença estatística em relação ao grupo saudável. As vesículas extracelulares aplicadas sem a estrutura MAPS não produziram uma reparação vascular comparável, o que sugere que o suporte também tem papel no processo.
A injeção foi feita diretamente na cavidade formada pela perda de tecido cerebral. Por isso, ainda será necessário avaliar a segurança e a eficácia da técnica, o momento adequado para aplicá-la e seu comportamento em modelos maiores antes de considerar testes em humanos.
A recuperação após um AVC também depende da capacidade do cérebro de reorganizar circuitos que sobreviveram à lesão, processo conhecido como plasticidade cerebral. O neurologista Philipe Cunha, professor de pós-graduação da Afya Educação Médica de Curitiba, afirma que a maior parte da recuperação espontânea ocorre nas primeiras semanas e até cerca de três meses, período de maior plasticidade. Depois disso, a melhora pode continuar, mas tende a ser mais lenta e depende de treinamento específico.
Cunha afirma que idade, comorbidades e reserva cognitiva influenciam a resposta à reabilitação. Fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional continuam importantes, inclusive em fases tardias. Segundo ele, uma eventual terapia regenerativa não substituiria esse trabalho: a reabilitação seria necessária para orientar o crescimento de axônios e a formação de circuitos funcionais.
Quem é quem
- Universidade Duke
- Universidade privada de pesquisa localizada na Carolina do Norte, nos Estados Unidos. A instituição reúne atividades de ensino e pesquisa em diversas áreas, incluindo ciências da saúde e biomedicina.
- AVC
- O acidente vascular cerebral ocorre quando o fluxo de sangue para uma parte do cérebro é interrompido ou quando há sangramento cerebral. Pode causar danos neurológicos e exige atendimento médico urgente.