Banco do Brasil enfrenta alta da inadimplência no agronegócio
Pagamentos em dia somam 75% da carteira analisada, abaixo dos 90% esperados; a piora pode elevar custos de crédito e pressionar capital e resultados.
Resumo em 30 segundos
A inadimplência no crédito rural pressiona o Banco do Brasil, que viu o lucro líquido ajustado cair 34% no primeiro semestre de 2026. Relatórios apontam pagamentos em dia abaixo do esperado e menor adesão a um programa de renegociação de dívidas. O banco busca preservar capital e avalia alternativas, enquanto prioriza a carteira do agronegócio.
O Banco do Brasil enfrenta aumento da inadimplência na carteira de crédito do agronegócio, enquanto investidores acompanham o efeito das perdas sobre o capital e os resultados da instituição. A prioridade do banco é lidar com a deterioração dos pagamentos no setor rural, que pressiona os produtores e também pesa sobre a posição financeira do maior financiador do agro no país.
O Banco do Brasil é controlado pelo governo federal e o segundo maior banco da América Latina em volume de ativos. A instituição não divulgou, no material disponível, uma taxa de inadimplência específica para o agronegócio. O problema ocorre em um momento de margens pressionadas para os produtores rurais e de crescimento das perdas com empréstimos.
A inadimplência é o atraso ou o não pagamento de uma dívida nas condições previstas. Quando mais clientes deixam de pagar, o banco precisa reservar recursos para cobrir possíveis perdas, o que pode reduzir o lucro e afetar o capital disponível para sustentar operações e conceder novos empréstimos.
O lucro líquido ajustado do Banco do Brasil somou R$ 7,34 bilhões no primeiro semestre de 2026, queda de 34% em relação ao mesmo período do ano anterior. As estimativas de analistas para o lucro do terceiro trimestre recuaram cerca de 24% nas semanas anteriores, para R$ 3,3 bilhões.
Os pagamentos em dia correspondiam a 75% da carteira considerada em relatório do BTG Pactual, abaixo dos 90% que o banco esperava para o segundo semestre. O indicador reforça a possibilidade de aumento do custo do crédito, isto é, das despesas que a instituição reconhece para compensar o risco de não receber empréstimos.
Um programa do governo para renegociar dívidas de produtores rurais teve adesão menor do que a esperada, segundo relatório do BTG Pactual divulgado em outubro. A participação abaixo da previsão alimentou avaliações de que o Banco do Brasil poderá precisar buscar recursos para reforçar o capital.
A instituição declarou que pretende manter o capital de Nível 1 acima de 11%. Esse indicador, também chamado de Common Equity Tier 1 (CET1), mede principalmente os recursos próprios de maior qualidade disponíveis para absorver perdas. Executivos do banco disseram esperar que o índice permaneça próximo desse patamar.
Analistas, porém, apontam que a composição do capital também merece atenção. Créditos tributários representavam 53% do patrimônio líquido dos acionistas no segundo trimestre, ante 37% quatro anos antes, segundo relatório do Goldman Sachs. Esses créditos decorrem, em grande parte, de provisões para perdas com empréstimos e não ficam imediatamente disponíveis como dinheiro para cobrir despesas.
Desde o ano passado, os bancos brasileiros têm dez anos para se desfazer de ativos fiscais acumulados antes de 2024. Se não gerarem lucro suficiente para aproveitá-los nesse período, terão de deduzir o valor diretamente do patrimônio líquido. Gustavo Schroden, analista do Citigroup, afirmou que a qualidade do capital do Banco do Brasil vem diminuindo e que a instituição poderá enfrentar dificuldades mais adiante.
Para preservar recursos, o banco renegociou pagamentos de um instrumento híbrido de capital de R$ 4,2 bilhões devido ao governo. A maior parte foi adiada para 2029, em uma medida anunciada em junho que, segundo a instituição, preservaria cerca de sete pontos-base de capital em 2026 e 2027. O banco também reduziu dividendos no ano passado.
Outra possibilidade discutida por investidores é a venda de ativos ou a revisão de contratos entre o banco e a BB Seguridade, holding de seguros controlada pela instituição. Os acordos de compartilhamento de receitas vencem entre 2031 e 2033, e uma renegociação antecipada poderia melhorar as condições para o banco. Não há negociações em andamento, e a prioridade imediata continua sendo a carteira do agronegócio.
A eventual mudança na presidência do Banco do Brasil também pode influenciar decisões sobre a estratégia. Tarciana Medeiros, atual presidente-executiva, deverá ser substituída, segundo a informação publicada sobre o assunto. A escolha do principal dirigente costuma caber ao presidente da República, e analistas observam que a indicação de um funcionário de carreira é valorizada por parte dos investidores.
O governo detém pouco mais de 50% das ações do banco, o que limita a margem para uma emissão que reduza sua participação sem colocar em risco o controle. Restrições adotadas ao longo da última década também diminuíram as possibilidades de aporte direto de recursos públicos. O Banco do Brasil não comentou a situação, e a BB Seguridade não respondeu a um pedido de manifestação.
Para entender
- Capital de Nível 1 (CET1)
- Indicador regulatório que mede o capital próprio de maior qualidade de um banco, capaz de absorver perdas. É acompanhado por investidores e autoridades porque ajuda a avaliar a capacidade da instituição de suportar riscos e manter suas operações.
- Créditos tributários
- Valores que uma empresa pode usar para reduzir impostos a pagar ou recuperar tributos, conforme as regras aplicáveis. Embora possam compor o patrimônio contábil, não equivalem necessariamente a dinheiro disponível de imediato para cobrir despesas ou perdas.