André Janones é reeleito com votação 70% menor que em 2022
Com 78.780 votos, o deputado teve uma audiência digital de alcance nacional, mas analistas dizem que seguidores mobilizados por Lula não se converteram automaticamente em votos próprios.
Resumo em 30 segundos
André Janones foi reeleito deputado federal por Minas Gerais com 78.780 votos, ante 238,9 mil em 2022. Embora tenha alcançado milhões de seguidores e mobilizado apoiadores de Lula nas redes, especialistas apontam que parte da audiência acompanhava sua atuação na disputa presidencial, sem identificá-lo como representante político próprio.
O deputado federal André Janones (Rede-MG) foi reeleito em 2026 com 78.780 votos, menos de um terço do que recebeu na eleição anterior, apesar de ter ganhado projeção nacional ao mobilizar apoiadores de Luiz Inácio Lula da Silva nas redes sociais. A votação equivale a uma queda de quase 70% em relação aos 238,9 mil votos obtidos em 2022. A diferença entre a influência digital do parlamentar e seu resultado nas urnas é atribuída, entre outros fatores, à concentração de seus esforços na disputa presidencial e ao perfil de sua audiência.
Janones participou da campanha de Lula, reeleito presidente, e coordenou o chamado “Exército de Lula” no WhatsApp. O grupo ultrapassou 10 milhões de inscritos e teve papel na mobilização de apoiadores petistas. O deputado afirmou, em uma rede social, que renovou o mandato sem fazer atos de campanha próprios, pedir votos, distribuir panfletos, realizar carreatas ou visitar eleitores. Disse que gravou apenas alguns vídeos em seu favor.
A dimensão de sua presença on-line cresceu durante o segundo turno. Na quarta-feira (28), Janones somava mais de 9 milhões de seguidores no Instagram, segundo os dados citados sobre o período. Antes do segundo turno, ele já aparecia entre os cem políticos mais influentes da plataforma, na 14ª posição, com média de 73,8 mil interações por publicação. Interações são ações como curtidas e comentários, mas não indicam, por si só, quantas pessoas apoiarão um candidato na urna.
Um levantamento da plataforma de análise de dados Zeeng apontou que Janones tinha cerca de 2,7 milhões de seguidores no Instagram até então e foi eleito com uma das votações mais baixas entre os candidatos a deputado federal incluídos no ranking. O estudo também mostrou que a audiência de seus posts tinha alcance nacional: entre as dez cidades com mais seguidores que interagiam com as publicações, apenas Belo Horizonte e Uberlândia ficavam em Minas Gerais.
O cientista político Leandro Gabiati, da Dominium Consultoria, avalia que parte desse público acompanhava Janones por sua atuação na eleição presidencial, sem necessariamente identificá-lo como representante político. Na análise dele, a capacidade de produzir conteúdo e mobilizar eleitores em favor de Lula não se traduziu automaticamente em votos nominais para o deputado. Para converter seguidores em apoio eleitoral próprio, é preciso construir uma identificação direta entre a audiência e o candidato.
A distribuição geográfica dos seguidores também pode ajudar a entender a diferença entre popularidade digital e votação em Minas Gerais. Uma audiência espalhada pelo país pode ampliar o alcance das mensagens, mas a disputa por uma vaga na Câmara depende de votos dos eleitores do estado pelo qual o candidato concorre. O desempenho nas redes, portanto, não mede necessariamente a força de um político entre os eleitores de seu distrito eleitoral.
A comparação com outros políticos de grande presença on-line evidencia que o número de seguidores não determina o resultado. O mineiro Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP), por exemplo, ultrapassaram 3 milhões de votos cada. O cientista político Leandro Gabiati afirma que ambos conseguiram associar sua presença digital a causas e valores que seus seguidores reconhecem como próprios, facilitando a conversão de engajamento em votos.
A repercussão da estratégia de Janones ultrapassou o Brasil. Na França, o partido A França Insubmissa criou o canal Soldados Insubmissos, inspirado na mobilização de apoiadores de Lula; o grupo tinha pouco mais de 15 mil integrantes até terça-feira (27). Na Argentina, movimentos de esquerda organizaram o Exército do Peronismo, que reunia mais de 32 mil inscritos naquela semana. A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, convidou o deputado para uma visita de trabalho voltada a discutir ações de fortalecimento da esquerda.
Na Espanha, o primeiro-ministro Pedro Sánchez demonstrou interesse em contar com a ajuda do brasileiro na eleição marcada para o final de novembro. Janones deveria viajar no domingo (1º) para se encontrar com o líder espanhol. O cientista político Marcos Paulo dos Reis Quadros avalia que iniciativas semelhantes podem funcionar em outros países, mas dependem da presença de organizações e grupos sociais capazes de levar a mobilização para além dos canais digitais.
O desempenho eleitoral de Janones também foi associado a episódios recentes que podem ter afetado sua imagem. No ano passado, ele firmou um acordo de não persecução penal e pagou R$ 157,8 mil por ter usado o cartão de crédito de um auxiliar para despesas pessoais entre 2019 e 2020. Em dezembro de 2024, sua ex-mulher obteve uma medida protetiva contra o deputado.