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Segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Pesquisas eleitorais expõem desafio de prever comparecimento às urnas

Lula venceu Flávio Bolsonaro por 4,4 milhões de votos, apesar de levantamentos finais apontarem vantagem do adversário; especialistas discutem ajustes nos métodos.

Por Redação Plantão Paulista 4 min de leitura
Imagem gerada por IA: Urna eletrônica em uma seção eleitoral, com eleitores ao fundo. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Urna eletrônica em uma seção eleitoral, com eleitores ao fundo.
Resumo em 30 segundos

Pesquisas da Quaest, Datafolha e Atlas/Intel indicaram Flávio Bolsonaro à frente antes do segundo turno, vencido por Lula. Especialistas atribuem a diferença, entre outros fatores, à mudança no comparecimento dos eleitores entre as etapas da eleição. O debate envolve modelos de eleitor provável, métodos de coleta e formas de acompanhar mobilizações tardias.

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por 4,4 milhões de votos na eleição presidencial, decidida no domingo (25), contrariou as pesquisas divulgadas na véspera, que apontavam Flávio Bolsonaro (PL) numericamente à frente. O resultado abriu um debate sobre como os institutos podem melhorar a estimativa de intenção de voto e, sobretudo, prever quais eleitores vão comparecer às urnas.

Os levantamentos finais da Quaest e do Datafolha indicavam Flávio com 51% dos votos válidos e Lula com 49%, ambos com margem de erro de até dois pontos percentuais. A apuração oficial terminou com 51,79% para Lula e 48,21% para Flávio. A diferença entre as estimativas e as urnas ficou, portanto, em sentidos opostos aos previstos pelos dois institutos.

A Atlas/Intel também estimou vantagem de Flávio: 50,8% a 49,2%, com margem de erro de um ponto percentual para mais ou para menos. Já a Futura calculou 50,1% para Flávio e 49,9% para Lula, com margem de erro de 2,2 pontos. Nesse caso, o resultado oficial ficou dentro da faixa de variação informada pelo instituto.

Uma das explicações levantadas por pesquisadores é que o comparecimento mudou entre os turnos. No primeiro, eleitores de direita teriam se mobilizado mais, enquanto parte do eleitorado de esquerda não foi às urnas. No segundo, a movimentação se inverteu: apoiadores de Lula compareceram em maior número, e os institutos não captaram essa mudança nos modelos usados para projetar o eleitorado que efetivamente votaria.

Felipe Nunes, CEO da Quaest, afirmou que as pesquisas feitas na véspera não conseguem antecipar fenômenos que ocorram no dia da votação. Ele disse que houve mobilizações expressivas de última hora e classificou a dimensão do movimento como sem precedente na história democrática brasileira.

Andrei Roman, CEO da Atlas/Intel, também apontou a dificuldade de identificar a alteração no padrão de comparecimento entre os turnos. Em publicação nas redes sociais, afirmou que a maioria dos institutos não previu a menor presença de eleitores de direita e a mobilização do eleitorado de Lula. Para Roman, o segundo turno não repetiu o comportamento observado na primeira etapa da eleição.

A previsão de comparecimento é um desafio porque uma pesquisa de intenção de voto entrevista pessoas, mas nem todas necessariamente vão votar. O modelo conhecido como “eleitor provável” — expressão em inglês traduzida como likely voter — tenta ajustar as estimativas considerando a chance de cada entrevistado comparecer. A Quaest adotou esse tipo de cálculo em 2022.

O método, porém, depende de estimativas sobre quem tende a se abster. Em documento metodológico publicado em agosto deste ano, a Quaest afirmou que a abstenção é maior entre pessoas com menor renda e escolaridade e entre eleitores com 60 anos ou mais. Esses grupos têm maior presença entre os eleitores de Lula e, segundo a análise sobre o resultado, foram estimulados a votar no segundo turno. Um modelo que subestime a participação deles pode alterar a projeção final.

A Futura, que não utiliza o modelo de eleitor provável, esteve entre os institutos mais próximos do resultado. A empresa aplica questionários por telefone, enquanto boa parte dos concorrentes faz entrevistas presenciais. A diretora técnica da Futura, Paula Orrico, afirmou que o método remoto, adotado desde a pandemia, permite alcançar mais municípios e localidades distantes dos grandes centros.

A amostra da Futura considera gênero, faixa etária e região de moradia. Orrico disse que o local onde a pessoa vive e a comunidade com que convive influenciam a opinião e devem ser observados na elaboração das pesquisas. A escolha de quais características usar para compor uma amostra é uma das decisões que podem afetar a capacidade de representar o eleitorado.

Para Rodrigo González, cientista político e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a base científica das pesquisas continua sólida, mas os métodos precisam acompanhar as mudanças no comportamento eleitoral. Ele sugeriu que dados digitais, como publicações e engajamento em redes sociais, sejam avaliados como complemento para acompanhar movimentos de última hora. González também defendeu maior participação da academia no debate técnico sobre as regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Elis Radmann, cientista política e diretora do Instituto Pesquisas de Opinião (IPO), considera que hoje é mais difícil medir a intenção de voto. Ela defendeu a divulgação de informações adicionais, como a parcela de votos já consolidada e a de eleitores que ainda podem mudar de candidato. Também propôs que as pesquisas apresentem separadamente a intenção geral e a tendência entre pessoas que costumam votar.

Radmann sugeriu ainda rever os critérios para empresas que realizam pesquisas eleitorais. Na avaliação dela, a atividade principal das empresas deveria ser pesquisa de opinião ou eleitoral, e a responsabilidade técnica não deveria ficar restrita a profissionais de estatística, pois os levantamentos também envolvem aspectos sociológicos.

Nunes afirmou que, na véspera, a Quaest havia identificado mudanças em atributos associados aos candidatos e um cenário de empate técnico. Entre os sinais mencionados por ele estavam a melhora na avaliação do governo, a redução da rejeição a Lula em relação à do adversário e o aumento do temor relacionado a Bolsonaro. Para o executivo, a mudança ocorrida no domingo só poderia ser identificada por uma pesquisa de boca de urna, feita durante a votação.

Fontes: Zero Hora

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