Venezuela tem reservas de petróleo contestadas por especialistas
Analistas estimam que só 60 bilhões a 120 bilhões de barris seriam recuperáveis hoje, bem abaixo dos 303,7 bilhões declarados pelo país.
Resumo em 30 segundos
A Venezuela declara ter 303,7 bilhões de barris de reservas comprovadas, mas especialistas questionam o cálculo. Seis analistas estimam que o volume recuperável nas condições atuais fique entre 60 bilhões e 120 bilhões. A controvérsia ganhou força após um acordo anunciado por Donald Trump envolvendo 17 campos e 65 bilhões de barris.
A Venezuela declara ter 303,7 bilhões de barris de reservas comprovadas de petróleo, o maior volume do mundo, mas especialistas questionam a confiabilidade do cálculo. A discussão ganhou destaque após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar em agosto um acordo que colocaria sob controle norte-americano campos venezuelanos associados a 65 bilhões de barris.
Seis analistas estimam que, nas condições atuais, o volume efetivamente recuperável no país ficaria entre 60 bilhões e 120 bilhões de barris. O intervalo é inferior ao necessário para manter a Venezuela à frente da Arábia Saudita, que aparece com 267 bilhões de barris no relatório de 2026 da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). O Irã ocupa a terceira posição, com 208 bilhões.
O acordo anunciado por Trump abrange 17 campos administrados por uma joint venture da North American Blue Energy Partners (Nabep), segundo autoridades dos dois países. O presidente afirmou que a operação ajudaria a recompor as reservas estratégicas dos Estados Unidos e a reduzir os preços da gasolina, pressionados pela guerra com o Irã. A Casa Branca não divulgou como chegou ao número de 65 bilhões de barris.
A porta-voz da Casa Branca, Taylor Rogers, defendeu a iniciativa como uma medida para estabilizar a economia venezuelana, afetada por anos de hiperinflação e falta de investimentos. Ela também afirmou que o acordo mais do que dobraria as reservas petrolíferas norte-americanas.
Especialistas dizem que parte dos campos incluídos está quase esgotada ou ainda não foi desenvolvida. Alguns ficam na Faixa do Orinoco, região de petróleo pesado e viscoso, cuja extração exige tecnologia avançada e investimentos elevados. Evanan Romero, ex-funcionário do setor energético venezuelano, afirmou que o número de 65 bilhões de barris não é plausível e que o governo norte-americano não teria verificado adequadamente os dados fornecidos pela Venezuela.
Luisa Palacios, ex-presidente do conselho da Citgo e pesquisadora da Universidade Columbia, avalia que o número pode representar petróleo existente no subsolo, e não reservas comprovadas. Essa classificação considera a possibilidade de extração com viabilidade técnica e econômica. Se a estimativa incluir todo o petróleo subterrâneo, cerca de 5% — aproximadamente 3,2 bilhões de barris — corresponderiam a reservas comprovadas, segundo Palacios. Francisco Monaldi, da Universidade Rice, calcula que entre 10 bilhões e 15 bilhões de barris poderiam receber essa classificação no curto prazo.
A controvérsia sobre os números venezuelanos remonta ao governo Hugo Chávez. Nos anos 2000, uma avaliação da consultoria Ryder Scott identificou mais de 1 trilhão de barris no subsolo do Orinoco, mas não determinou quanto poderia ser extraído com alta probabilidade. O governo converteu parte desse volume em reservas por conta própria; a consultoria não endossou o resultado e deixou o trabalho.
Em 2011, a estatal PDVSA informou que as reservas comprovadas haviam crescido 82 bilhões de barris, chegando a quase 300 bilhões, após uma revisão das taxas de recuperação. A empresa não apresentou explicações detalhadas. Monaldi estima que os números oficiais estejam inflados em quase três vezes. Para os especialistas, a recuperação plausível seria de cerca de 10% do conjunto das reservas venezuelanas e de 5% a 8% no Orinoco.
A Nabep não tem ações negociadas em bolsa e, por isso, não está sujeita às regras de divulgação de reservas da Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC), aplicáveis a companhias de capital aberto. A falta de transparência pode dificultar a avaliação de investidores interessados na indústria petrolífera venezuelana. Apesar das dúvidas, a Opep mantém o país no topo de seu ranking desde 2011.