Operação Escola de Papel investiga desvios em obras de escolas no Rio
Operação do Ministério Público e da Polícia Civil cumpriu 19 mandados no Rio e bloqueou cerca de R$ 19 milhões em bens de investigados.
Resumo em 30 segundos
A Operação Escola de Papel investiga possíveis desvios em contratos de reformas de escolas estaduais do Rio firmados entre 2024 e 2025. Foram cumpridos 19 mandados e a Justiça bloqueou cerca de R$ 19 milhões em bens. A apuração examina contratos que somam R$ 1,69 bilhão, valor que não corresponde a um possível desvio. A Secretaria de Educação afirma que revisa procedimentos e colabora com a investigação.
O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) e a Coordenadoria de Investigação de Agentes com Foro da Polícia Civil deflagraram nesta quinta-feira a Operação Escola de Papel. A ação investiga possíveis desvios em contratos de reformas de escolas estaduais firmados entre 2024 e 2025 e cumpriu 19 mandados de busca e apreensão na capital, na Baixada Fluminense e na Região dos Lagos. A Justiça também determinou o bloqueio de aproximadamente R$ 19 milhões em bens dos investigados.
Segundo a Polícia Civil, o conjunto de contratos sob análise soma R$ 1,69 bilhão. O órgão ressaltou que esse valor corresponde ao universo de obras investigadas, e não ao montante de um possível desvio. A apuração busca identificar o destino dos recursos, eventuais beneficiários e as responsabilidades individuais.
Os investigadores apuram indícios de direcionamento de contratações, superfaturamento e lavagem de dinheiro. O MPRJ informou que investiga possíveis crimes de corrupção ativa e passiva, peculato, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro e organização criminosa. O procedimento é conduzido pela Atribuição Originária Criminal do procurador-geral de Justiça, Antonio José Campos Moreira, e tramita sob sigilo.
De acordo com a investigação, os recursos eram repassados pela Secretaria de Estado de Educação (Seeduc) às Associações de Apoio às Escolas (AAEs), entidades sem fins lucrativos ligadas às unidades escolares. As associações administram verbas públicas destinadas à manutenção e a melhorias nas escolas e, segundo os investigadores, transferiam os valores às empresas contratadas para executar as reformas.
O MPRJ afirma que há indícios de que os contratos eram direcionados e tinham valores acima do custo efetivo dos serviços. Após os pagamentos, parte do dinheiro seria sacada em espécie ou transferida para outra empresa ligada ao grupo, uma dinâmica que, segundo o órgão, dificultava rastrear os recursos e identificar os destinatários finais.
Uma apreensão de R$ 500 mil em dinheiro, em 16 de janeiro de 2026, em Duque de Caxias, levou os investigadores a aprofundar a apuração. O valor foi encontrado em uma sacola plástica dentro de uma caminhonete, após um saque feito por um administrador de empresa contratada para obras em escolas. Um policial militar armado dirigia o veículo e, segundo os investigadores, fazia a segurança do transporte.
Em depoimento, o administrador afirmou que a empresa havia recebido cerca de R$ 6 milhões para aproximadamente 15 obras. Segundo ele, R$ 2 milhões foram usados nos serviços e os outros R$ 4 milhões ficaram com um intermediário que organizava as contratações e controlava a movimentação da conta. A análise financeira também identificou uma empresa que recebeu cerca de R$ 19,8 milhões em recursos públicos somente em 2025 e registrou R$ 8,93 milhões em saques em espécie.
Entre os alvos das buscas estão a ex-secretária estadual de Educação Roberta Barreto de Oliveira, que ocupou o cargo de março de 2023 a fevereiro de 2026; Yurie Lopes Ormonde André, genro dela; David de Andrade Marinho Filho, ex-subsecretário de gestão administrativa da pasta; e Fabio Martins Pereira. As informações disponíveis não detalham as condutas atribuídas individualmente a cada alvo.
Em nota, a Secretaria de Educação afirmou que revisa contratos e procedimentos relativos a obras de manutenção e reparo. Segundo a pasta, auditorias estaduais identificaram documentos e informações enviados aos órgãos competentes, que serviram de base para investigações nas esferas de improbidade administrativa e criminal. A secretaria declarou que continua colaborando com as apurações.
A pasta também informou que estabeleceu limite de até R$ 130 mil para contratações de manutenção e pequenos reparos. Intervenções acima desse valor passaram a ser classificadas como obras de maior porte e executadas pela Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro (Emop-RJ). O MPRJ afirmou que a operação busca reunir provas e identificar possíveis beneficiários dos desvios.
Quem é quem
- Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro
- Instituição responsável pela defesa da ordem jurídica e dos interesses sociais no estado do Rio de Janeiro. Atua em investigações e processos nas áreas criminal e cível, entre outras atribuições, e participa da apuração da Operação Escola de Papel.
- Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro
- Órgão do governo estadual responsável pela política e pela administração da rede pública de ensino do Rio de Janeiro. A secretaria informou que revisa contratos de manutenção e reparo e que colabora com as investigações sobre as obras escolares.
- Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro
- Empresa pública estadual voltada à execução de obras e serviços de engenharia para o governo do Rio de Janeiro. Segundo a Secretaria de Educação, intervenções escolares acima do limite estabelecido para pequenos reparos passaram a ser classificadas como obras de maior porte e encaminhadas à Emop-RJ.