MCK Reformas recebe R$ 19,8 milhões em contratos escolares no Rio
Depoimento de Marcos José Mendes Ferreira descreve contratos de reformas escolares, saques em espécie e repasses investigados pelo Ministério Público e pela polícia.
Resumo em 30 segundos
O dono da MCK Reformas e Construções disse à polícia que Fábio Martins Pereira controlava a conta da empresa e recebia parte dos valores de contratos para obras em escolas estaduais. A MCK recebeu R$ 19,8 milhões em 2025, e investigadores apontam saques em espécie, falhas nos processos de contratação e possíveis conexões com a ex-secretária Roberta Oliveira.
O dono da MCK Reformas e Construções, Marcos José Mendes Ferreira, afirmou à Polícia Civil que entrou em licitações para reformar escolas estaduais do Rio sem preparar propostas ou orçamentos. A empresa recebeu contratos para cerca de 15 obras, e os investigadores apuram suspeitas de desvio de recursos públicos e possível favorecimento envolvendo a ex-secretária estadual de Educação Roberta Oliveira.
Segundo o depoimento prestado em 16 de janeiro, Marcos conheceu Fábio Martins Pereira em uma igreja de Duque de Caxias, no fim de 2024. Fábio perguntou se ele queria participar de licitações e, após receber documentos da MCK, a empresa venceu uma concorrência para reformar o Colégio Estadual Baltazar Bernardino, em Niterói. Marcos disse que só visitou a escola depois da contratação e, então, calculou que a obra custaria R$ 720 mil.
De acordo com o relato, Fábio explicou que o contrato havia sido fechado por um valor maior e que a diferença deveria ser transferida a ele após o pagamento. Marcos estimou que a MCK gastou R$ 2 milhões nas obras e repassou R$ 4 milhões a Fábio. Também afirmou que o empresário controlava integralmente a conta bancária da construtora e decidia quando seriam feitos os saques.
Os valores identificados pelos investigadores são superiores aos mencionados por Marcos. Documentos de contratações consultados pela polícia e processos encaminhados pela Secretaria estadual de Educação indicam que a MCK recebeu R$ 19,8 milhões em 2025. Um relatório de inteligência financeira calculou que, dos R$ 11,8 milhões em recursos públicos depositados nas contas da empresa naquele ano, 82,9% foram retirados em dinheiro vivo.
Marcos justificava os saques ao banco como pagamentos a funcionários e, segundo o depoimento, recusou a sugestão de abrir contas-salário. A empresa funciona em um endereço residencial em Del Castilho e não tem funcionários registrados. As contratações eram feitas por Associações de Apoio às Escolas, entidades privadas vinculadas às unidades da rede estadual.
A legislação estadual prevê que essas associações usem os repasses da secretaria em pequenos reparos e obras emergenciais, com contratação simplificada baseada em três orçamentos. No caso da MCK, porém, foram identificados contratos superiores a R$ 2 milhões. A análise dos processos encontrou um padrão em que concorrentes eram desclassificadas por falta de documentos, enquanto a MCK vencia as disputas.
Nas poucas licitações em que a MCK não venceu, ela foi inabilitada por não apresentar certidões do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e de falência — documentos apresentados nas disputas em que ganhou. Os investigadores apontaram o padrão como “forte indício de conluio prévio”. Em dois processos, a mesma contadora assinou os balanços e índices financeiros da MCK e de empresas concorrentes.
A documentação analisada também não explica como as concorrentes eram escolhidas. Após as contratações, a MCK apresentava fotos das obras concluídas, quando entregava esse material. O Ministério Público informou que a polícia não encontrou vistorias da coordenadoria de engenharia da secretaria que comprovassem a conclusão dos serviços.
Entre janeiro e agosto de 2025, a MCK transferiu R$ 1,8 milhão à Virtual Rio Construtora, empresa de Fábio com capital social de R$ 10 mil. A companhia sacou cerca de 86,7% do que recebeu. Em 28 de março, retirou no mesmo dia R$ 500 mil transferidos pela MCK; em agosto, comprou oito casas em Duque de Caxias por R$ 400 mil.
A investigação avançou após o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) alertar a polícia sobre pedidos de dinheiro em espécie feitos pela MCK: R$ 350 mil para saque em 15 de janeiro e R$ 500 mil no dia seguinte. Policiais acompanharam Marcos ao sair de uma agência em Duque de Caxias com o segundo valor, dentro de uma sacola plástica. Ele entrou em uma Toyota Hilux conduzida pelo policial militar André Luiz Silva Fernandes, que portava uma pistola e munição.
O PM afirmou que Fábio, seu amigo de bairro, pediu que acompanhasse Marcos na saída do banco e o levasse a um posto na Rodovia Washington Luís. Disse também que já havia feito esse trajeto outras vezes. No veículo, policiais encontraram comprovantes de depósitos em dinheiro na conta de uma padaria. A caminhonete está registrada em nome de Yan Lopes Fonseca Ormonde André, irmão do capitão do Corpo de Bombeiros Yurie Lopes Fonseca Ormonde André, que vive com a filha de Roberta.
O caso passou à unidade que investiga autoridades com foro devido a essas conexões. O Ministério Público sustenta que os recursos desviados teriam como destino pessoas ligadas à ex-secretária. Todas as notas de empenho dos repasses que pagaram a MCK foram assinadas por Roberta; o ordenador de despesas responsável pela maior parte dos pagamentos, David de Andrade Marinho Filho, foi nomeado por ela.
O levantamento patrimonial citado pela investigação não apontou crescimento relevante dos bens de Roberta. Já o patrimônio de Yurie foi estimado em R$ 32,2 milhões, diante de R$ 571 mil em salários públicos entre 2024 e 2026. Roberta, Marcos e Fábio também receberam auxílio emergencial em 2020 e 2021, segundo o relatório do Ministério Público. As suspeitas seguem sob investigação.
Quem é quem
- Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro
- Instituição responsável pela defesa da ordem jurídica e dos interesses sociais no estado do Rio de Janeiro. Seus integrantes atuam em investigações e processos judiciais, inclusive na apuração de possíveis crimes envolvendo recursos públicos e agentes com foro especial.
- Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro
- Órgão estadual responsável pela investigação de crimes no Rio de Janeiro. No caso relatado, policiais atuaram em conjunto com o Ministério Público na apuração de suspeitas relacionadas a contratos de reformas em escolas estaduais e a saques de recursos.