Google derruba 400 mil árvores em projeto de centros de dados na Finlândia
A autoridade finlandesa suspendeu temporariamente os trabalhos em Muhos e Otanmäki porque as avaliações de impacto ambiental não estavam concluídas.
Resumo em 30 segundos
O desmatamento em duas áreas da Finlândia para a construção de centros de dados do Google levou à suspensão temporária das obras. Ambientalistas e moradores relatam impactos sobre a água e a fauna, enquanto mais de 93 mil pessoas assinaram uma petição por regras mais rígidas e compensações às comunidades.
O Google derrubou cerca de 250 mil árvores em uma área de 330 hectares de floresta em Muhos, no norte da Finlândia, para construir um centro de dados, sem concluir as avaliações de impacto ambiental exigidas. No início deste mês, a Autoridade Finlandesa de Licenciamento e Supervisão (LVV) determinou a suspensão temporária dos trabalhos em Muhos e em Otanmäki, outra área do projeto, situada a cerca de 100 quilômetros a sudeste.
A companhia também desmatou terreno em Otanmäki, onde a ecologista Mari Annala estima que foram cortadas outras 150 mil árvores. Como a madeira dos dois locais foi retirada em desacordo com as exigências legais, ela não pode ser vendida a fábricas de processamento. As áreas integram um projeto de infraestrutura para inteligência artificial (IA) avaliado em € 13 bilhões, o maior investimento desse tipo anunciado na Finlândia.
Em Muhos, a remoção da vegetação incluiu a camada superficial do solo. Moradores relataram que a água barrenta que escorre do terreno chega a um riacho ligado ao rio Oulujoki. O Google informou que trabalha para proteger a qualidade da água no local e planeja plantar árvores em 130 hectares da área; ambientalistas consideram a medida insuficiente diante da extensão do desmatamento.
A decisão da LVV ocorreu porque as avaliações ambientais necessárias não haviam sido concluídas antes da derrubada das árvores. Na semana passada, Antti Järvinen, diretor do Google na Finlândia, pediu desculpas e afirmou que a empresa agiu “com base no melhor entendimento que tínhamos da legislação na época”. Em comunicado, um porta-voz disse que a companhia atua no país há 15 anos e sempre buscou cumprir ou superar requisitos de zoneamento, meio ambiente, saúde e segurança.
A remoção da floresta e a suspensão das obras provocaram indignação e ampliaram o debate sobre os custos ambientais da expansão dos centros de dados. Mais de 93 mil pessoas assinaram uma petição por regras mais rígidas para o setor e por uma taxa que compense comunidades locais pelos danos ambientais.
Hanna Halmeenpää, presidente do conselho da Associação Finlandesa para a Conservação da Natureza (SLL), disse que ficou incrédula ao saber da violação. “Nunca ouvi falar de nenhuma empresa que tenha feito algo assim na Finlândia”, afirmou. Ela também criticou a rapidez com que a floresta foi derrubada e disse que o episódio levantou dúvidas sobre a capacidade de fiscalização e sobre a quantidade de projetos que o país deve aceitar.
Em Otanmäki, moradores apontam mudanças na vida cotidiana. Anni Ranta, de 53 anos, cuja família vive na região há gerações, afirmou que lobos passaram a entrar na vila depois que os animais perderam o habitat. Ela também teme o barulho das obras, que, segundo descreveu, ressoa no terreno rochoso, e cogita deixar a localidade. Ranta disse ainda temer que a instalação torne a vila um alvo da Rússia; a Finlândia compartilha uma longa fronteira com o país.
Pentti Korhonen, pai de Ranta e guia de trilhas aposentado, afirmou que a água de um riacho ficou marrom desde a derrubada da floresta. Vesa Hyyryläinen, presidente do distrito local da SLL, disse que pica-paus-de-três-dedos que nidificavam na área foram expulsos. Os relatos de moradores e ambientalistas colocam em discussão os efeitos do empreendimento sobre a água, a fauna e o entorno das comunidades.
O projeto ocorre em meio à expansão do setor: há 145 novos centros de dados em diferentes etapas de planejamento na Finlândia. O clima frio pode reduzir custos de energia para essas instalações, e o país também oferece grandes áreas disponíveis e estabilidade geopolítica e geológica. Ao mesmo tempo, a expansão levanta questionamentos sobre o uso de fontes renováveis para atender empresas internacionais e sobre o retorno econômico para as regiões onde os centros são construídos.
Jussi Kangasharju, chefe do departamento de ciência da computação da Universidade de Helsinque, afirmou que essas estruturas podem criar alguns empregos, mas avaliou que geram benefícios limitados para a economia nacional. O governo finlandês tem incentivado investimentos, e o primeiro-ministro Petteri Orpo disse que atrair capital é uma prioridade. O diretor-geral do Ministério do Meio Ambiente, Veli-Matti Uski, afirmou que o governo acompanha o setor e a aplicação das regras e está preparado para propor mudanças legislativas, se necessário.
Ambientalistas defendem que a coordenação dos projetos fique a cargo de um órgão central, em vez de depender principalmente das decisões municipais. Enquanto a legislação passa por atualização, a controvérsia em Muhos e Otanmäki mantém em evidência a necessidade de conciliar a instalação de centros de dados com a avaliação prévia dos impactos ambientais e os interesses das comunidades locais.