Giulia Gam retoma carreira na TV e volta ao Teatro Oficina
Após 12 anos longe da televisão, a atriz atribui a pausa a uma crise de ansiedade e diz que cuidar da saúde foi decisivo para retomar os trabalhos.
Resumo em 30 segundos
Giulia Gam voltou aos palcos em uma montagem do Teatro Oficina e retomou trabalhos na televisão, com uma novela vertical e uma série em gravação. A atriz disse que se afastou após uma crise de ansiedade e que o período longe das telas foi dedicado a cuidar da saúde. Aos 59 anos, afirma viver uma fase de renovação.
A atriz Giulia Gam voltou aos palcos com “Senhora dos Afogados”, de Nelson Rodrigues, em montagem do Teatro Oficina, e retomou trabalhos na televisão após 12 anos afastada. Aos 59 anos, ela disse que o período longe das telas foi dedicado a cuidar da saúde e que, nos últimos 11 meses, passou pelo processo de redução de um conjunto de medicamentos. “Passei pela idade média e agora vivo o renascimento”, afirmou.
A retomada inclui também a novela vertical “O acerto de contas das gêmeas trocadas”, do Globoplay, e a série “Resposta ao tempo”, que está em gravação. Na produção, Gam divide o protagonismo com Débora Bloch, Edvana Carvalho e Drica Moraes. A atriz afirmou que se sente em uma fase de renovação e disse estar bem técnica, emocional e espiritualmente.
Gam contou que a decisão de se tratar teve como principal motivação o filho, Theo Bial. Ela descreveu a recuperação como um processo de reorganização da própria vida e afirmou que chegou a um ponto em que sua qualidade de vida estava muito ruim. “Não tenho medo de pedir ajuda”, disse. Segundo a atriz, porém, em determinado momento buscava apoio em muitas frentes sem conseguir entender o que ajudava ou atrapalhava.
O afastamento da televisão começou depois de uma crise de ansiedade ligada a uma sequência de situações pessoais e profissionais. Ela citou a morte da mãe, o nascimento do filho e a falta, no Rio de Janeiro, da rede de apoio que tinha em São Paulo. Em 2015 e 2016, relatou, a ansiedade se intensificou; em 2017, deixou a novela “Novo Mundo” antes de começar a gravar, apesar de ter passado bem pelos ensaios.
A atriz afirmou que percebeu a crise novamente no dia em que deveria iniciar as gravações e considerou arriscado permanecer no trabalho. Decidiu se afastar para cuidar da saúde. Sua última novela antes da pausa foi “Boogie Oogie”, em 2014, embora tenha deixado “Novo Mundo” em 2017.
A relação entre atuação e saúde também aparece na lembrança de “O Primo Basílio”, minissérie de 1988 em que interpretou Luísa. Gam disse que se identificou intensamente com a personagem e passou a apresentar sinais como apatia, lentidão e ganho de peso. Um psiquiatra que a acompanhava alertou que ela estava vivendo a personagem além do trabalho e sugeriu que criasse um ritual para separar a interpretação da vida pessoal.
Com a concordância do diretor Daniel Filho, ela passou a reservar um tempo para atividades como shiatsu, balé e banho antes e depois das gravações. Também trocava as roupas da personagem por peças coloridas ao fim do trabalho. O ritual, contou, ajudou a compreender que quem morreria na história era Luísa, não ela.
A série “Resposta ao tempo” aborda temas como feminicídio, etarismo, menopausa, ausência paterna e relações abusivas. Gam interpreta uma mulher que vive um casamento abusivo. Para a atriz, a presença de protagonistas maduras é importante porque histórias audiovisuais costumam se concentrar em mulheres mais jovens, enquanto personagens mais velhas ficam restritas com frequência ao papel de mãe.
Ela afirmou que a produção permite mostrar mulheres que seguem ativas e construindo suas histórias depois dos 60 anos. Também defendeu que a televisão trate de questões debatidas na sociedade e disse que denunciar abusos pode ser difícil. Na avaliação da atriz, os mecanismos de proteção às mulheres ainda estão em processo de revisão.
A volta ao teatro com o Oficina foi, segundo Gam, um reencontro com uma parte importante de sua trajetória. Ela tinha 17 anos quando começou a trabalhar em uma companhia e já havia atuado com o grupo na peça “Cacilda”, em 1998. Apesar de dizer que a intensidade do Oficina costuma intimidar, afirmou que se sentiu acolhida pelos integrantes e reconheceu ali um resgate de suas origens no teatro de grupo.
Gam começou a carreira nos palcos aos 16 anos, como Julieta em “Romeu e Julieta”, sob direção de Antunes Filho. Ao longo das décadas, trabalhou também com Augusto Boal, Gerald Thomas e Zé Celso Martinez Corrêa. Ela descreveu os métodos desses diretores como muito diferentes e disse que as experiências contribuíram para sua formação, embora tenha associado a cobrança artística daquele período a danos e à desistência de outros atores.
A atriz também falou sobre a novela vertical, formato desenvolvido para telas de celular e organizado em enquadramentos predominantemente verticais. Gam disse que aceitou o trabalho após gostar do roteiro e que a linguagem exige cenas rápidas, planos fechados e mudanças ágeis de emoção. Para ela, esse tipo de produção tem um público e uma proposta próprios e não substitui histórias feitas para uma experiência mais longa e reflexiva.
A carreira de Gam reúne teatro, televisão e cinema desde a década de 1980. Ela afirmou que, depois de priorizar o bem-estar, passou a olhar de outra maneira para a atuação e para os limites que precisa respeitar. “A minha religião foi e é o teatro”, disse, ao definir o palco como um espaço de encontro e conversa sobre a experiência humana.