Estados Unidos ampliam investimento em inteligência artificial militar
O governo pediu cerca de R$ 1 trilhão para o setor no ano fiscal de 2027, valor 45% maior que o aprovado para o período anterior.
Resumo em 30 segundos
Governos e empresas aceleram o desenvolvimento de inteligência artificial para uso militar, incluindo drones com autonomia para escolher rotas ou agir em combate. Nos Estados Unidos, o governo pediu cerca de R$ 1 trilhão para o setor em 2027. Projetos na Suécia e em outros países ampliam o debate sobre como manter a supervisão humana.
Governos e empresas aceleram o desenvolvimento de inteligência artificial (IA) para uso militar, enquanto forças armadas já empregam drones capazes de escolher alvos ou rotas com crescente autonomia. Os Estados Unidos pediram ao Congresso cerca de R$ 1 trilhão para o setor no ano fiscal de 2027, em meio à expansão de programas de armas autônomas e sistemas de apoio a operações de combate.
O valor solicitado pelo governo de Donald Trump é 45% superior ao aprovado para o período anterior, que vai de outubro a setembro. Dentro do orçamento, a verba do chamado Grupo de Guerra Autônomo passaria de R$ 1,1 bilhão para R$ 285 bilhões. A proposta ainda depende de aprovação do Congresso.
A disputa envolve tanto o desenvolvimento de equipamentos quanto o controle sobre a tecnologia. O Pentágono cancelou neste ano um acordo de R$ 1 bilhão com a Anthropic e vetou o uso do sistema Claude em seus equipamentos. A empresa entrou com uma ação judicial, ainda em andamento. Anthropic e OpenAI estão entre as companhias que têm alertado para a rapidez da corrida por IA.
Na Suécia, a fabricante Saab trabalha em sistemas de IA para aviação de combate. Peter Nilsson, chefe da divisão de armas avançadas da empresa, defendeu a manutenção de supervisão humana. “Oficiais de ética são o futuro, no fim você precisa colocar um humano no jogo. A tecnologia pode fazer o que quiser”, afirmou durante uma visita à sede da Saab, em Linköping, em junho.
A companhia, que fabrica o caça Gripen adotado pelo Brasil, testou uma versão do avião com IA em parceria com a empresa alemã Helsing. Em junho do ano passado, o sistema controlou ângulos de manobra e soluções de disparo durante uma simulação de ataque de longa distância contra outra aeronave. Foi a primeira vez que um caça executou esse tipo de simulação sob controle de IA, com o piloto de testes Marcus Wandt a bordo.
“Eu vi ele [o agente de IA] fazer manobras que nunca tinha visto”, disse Wandt, hoje chefe da divisão de Aeronáutica da Saab. A empresa apresentou neste ano o projeto de um drone de combate supersônico, identificado como A3-001. A proposta é que vários aparelhos voem subordinados a um Gripen, possivelmente a versão F, de dois lugares, desenvolvida com o Brasil.
Nesse modelo, os pilotos dariam a ordem de ataque, mas os drones teriam liberdade para decidir como agir durante a missão. Wandt afirmou que a programação precisa manter limites para que os operadores preservem o controle. “Se liberar, não tem como controlar o ‘loyal wingman’”, disse, usando a expressão em inglês que designa esse tipo de aeronave não tripulada, concebida para atuar ao lado de um caça tripulado.
Outros países também testam aplicações militares da IA. Os Estados Unidos desenvolvem há anos uma versão não tripulada do F-16, e a Marinha aprovou a compra de um drone semiautônomo da Boeing para uso em porta-aviões. Na França, a Dassault testou dois algoritmos de assistência ao piloto do Rafale, que combinam dados captados pelo equipamento Talios, da Thales.
A Rússia testa voos conjuntos do caça Su-57 com o drone pesado Okhotnik. Em 2024, o caça teria abatido o aparelho sobre território ucraniano ocupado após perder o controle, mas os detalhes do episódio são escassos. China, Índia, Irã, Paquistão, Turquia e países do Golfo Pérsico também mantêm programas com objetivos semelhantes. A Coreia do Norte afirmou ter testado, no começo deste mês, um míssil balístico que usa IA para manobrar em direção ao alvo.
A tecnologia já aparece em conflitos. Na guerra da Ucrânia, os dois lados usam drones que identificam alvos menos predeterminados nas linhas de frente. Modelos russos de longo alcance, como o Gerânio-5, podem escolher rotas quando perdem a conexão com satélites. Drones ucranianos autônomos e semiautônomos também têm sido usados no mar Negro. Em setembro, ocorreu a primeira batalha naval entre robôs, segundo o relato sobre o avanço desses equipamentos.
A autonomia varia: um sistema semiautônomo executa algumas tarefas sem intervenção contínua, enquanto um equipamento autônomo pode tomar decisões dentro dos limites definidos em sua programação. A presença de uma pessoa na cadeia de decisão é uma das formas de restringir o emprego da força, mas a eficácia desses controles depende de como os sistemas são projetados e utilizados.
Os riscos discutidos incluem decisões equivocadas em situações de combate e a possibilidade de sistemas atingirem infraestruturas críticas. Testes e simulações já apontaram comportamentos preocupantes: em uma simulação da Força Aérea dos Estados Unidos, um agente de IA teria decidido atacar o operador de um drone por considerá-lo um obstáculo à missão. Em outro estudo, Claude, ChatGPT e Gemini preferiram usar armas nucleares a negociar o encerramento de crises.
O investimento militar em IA também alcança o Brasil. O Exército tem reservados R$ 520 milhões para lidar com drones em 2027, embora a liberação do dinheiro ainda seja incerta. A expansão desses programas ocorre enquanto governos e empresas discutem como preservar a supervisão humana e limitar decisões automatizadas em operações de combate.