Daniel Vorcaro paga hotel de luxo para Chiquinho Feitosa
A hospedagem de três noites no Rosewood, em São Paulo, ocorreu antes de julgamentos do STF sobre cursos de medicina de interesse do banqueiro.
Resumo em 30 segundos
Daniel Vorcaro pagou três noites de hospedagem de Francisco “Chiquinho” Feitosa no hotel Rosewood, em São Paulo, em maio de 2024. A viagem foi para um evento beneficente, segundo Feitosa, e ocorreu antes de julgamentos do STF sobre cursos de medicina. O ex-senador negou ter tratado do tema com o ministro Gilmar Mendes.
Daniel Vorcaro pagou três noites de hospedagem para o ex-senador Francisco “Chiquinho” Feitosa no hotel Rosewood, em São Paulo, em maio de 2024, às vésperas de julgamentos no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a abertura de cursos de medicina. A viagem ocorreu para um evento beneficente, segundo Feitosa, e um advogado de Vorcaro enviou ao banqueiro uma foto em que aparece ao lado do ex-senador durante a ocasião.
As mensagens mostram que, em 22 de maio, o advogado Ciro Soares avisou Vorcaro que Feitosa precisava antecipar a reserva. O ex-senador iria chegar naquela noite, e não no dia seguinte, como previsto inicialmente. Vorcaro respondeu “ok” e, menos de uma hora depois, encaminhou a Feitosa o comprovante atualizado da hospedagem.
A reserva era para um quarto com duas camas king size. Cada diária custava R$ 31.552, conforme a cotação informada em 8 de outubro. Ao deixar o hotel, Feitosa agradeceu a Vorcaro por mensagem e disse que a estadia havia sido ótima.
Feitosa confirmou que recebeu o benefício e afirmou que foi a São Paulo para participar de um evento beneficente patrocinado por várias empresas, com o objetivo de arrecadar donativos para o Hospital do Amor. Ele negou ter conversado com o ministro Gilmar Mendes sobre temas de interesse de Vorcaro.
A viagem ocorreu pouco antes de o STF julgar processos relacionados à abertura de novos cursos de medicina. O tema interessava ao dono do Banco Master porque ele havia investido em faculdades que buscavam autorização para oferecer esses cursos, enquanto havia uma disputa judicial sobre as exigências para a abertura.
Em conversas com Vorcaro, Feitosa compartilhou informações sobre a discussão e mencionou uma tentativa de reunião com o então ministro da Educação, Camilo Santana. Em 16 de maio, o ex-senador publicou em uma rede social uma foto ao lado do ministro da Educação.
Em 30 de maio, Soares escreveu a Vorcaro que o julgamento sobre medicina havia terminado e que “vencemos”. O banqueiro perguntou se o resultado não havia sido definido na semana anterior. O advogado explicou que se referia à análise de um dos processos, relacionado às faculdades de medicina e sob relatoria de Gilmar. Dois processos sobre o tema tiveram julgamentos próximos, posteriormente unificados.
Gilmar afirmou que votou contra a abertura de cursos sem seleção pública e acompanhou o entendimento do governo federal. A decisão do STF manteve a exigência de chamamento público pelo Ministério da Educação (MEC), mas estabeleceu uma regra de transição para processos administrativos que já estavam em estágio avançado. Isso permitiu que o ministério continuasse a analisar os pedidos, sem garantir a autorização dos cursos ou das vagas.
Na resposta do ministro, a análise de cada processo caberia ao MEC, que deveria verificar se o curso e o município atendiam aos critérios de necessidade social previstos na Lei do Mais Médicos. Gilmar declarou também que não conversou sobre o julgamento com Vorcaro, Feitosa ou as demais pessoas citadas nas mensagens. “As mensagens reproduzidas foram trocadas entre terceiros”, afirmou.
Depois da decisão, universidades recorreram à Justiça de primeira instância para tentar viabilizar a instalação de cursos. A União, por sua vez, apresentou ações no STF para contestar aberturas obtidas dessa forma. Gilmar afirmou que essas iniciativas buscavam contornar o resultado do julgamento e ressaltou que a regra de transição autorizava apenas a continuidade da análise administrativa, não a abertura automática de vagas.
Feitosa havia negociado com Vorcaro um contrato de R$ 500 mil mensais e, segundo conversas entre os dois, tratava de processos no STF que seriam julgados por Gilmar. Ele chegou a marcar uma reunião da equipe do banqueiro no gabinete do ministro. Feitosa não é advogado; é empresário do setor de transportes, preside o diretório do Republicanos no Ceará e é irmão de Guiomar Feitosa, advogada que foi casada com Gilmar até o ano passado.
O ex-senador negou ter tratado com o ministro de assuntos ligados a Vorcaro. Gilmar também declarou que não pode responder pelas conversas entre terceiros. Em mensagens citadas no caso, Soares aparece como responsável por aproximar o banqueiro de Feitosa e por convidar Vorcaro para um jantar na casa do ministro.
Para entender
- Chamamento público
- É um procedimento pelo qual o poder público divulga uma oportunidade e seleciona interessados segundo critérios previamente definidos. No caso da abertura de cursos de medicina, o STF manteve a exigência de seleção pública pelo Ministério da Educação, com uma regra de transição para processos administrativos que já estavam em estágio avançado.
- Lei do Mais Médicos
- A Lei nº 12.871, de 2013, instituiu o Programa Mais Médicos e estabeleceu regras relacionadas à formação médica no país. Entre os critérios considerados para a abertura de cursos estão necessidades sociais e características dos municípios.