Thélyson Orélien admite plágio em textos anteriores e nega uso de IA
O romance “C’était ça ou mourir” foi retirado da lista de finalistas do Goncourt; não há avaliação independente que confirme ou descarte o uso de inteligência artificial.
Resumo em 30 segundos
O escritor haitiano-canadense Thélyson Orélien reconheceu ter plagiado trabalhos anteriores, mas negou que inteligência artificial tenha escrito seu romance “C’était ça ou mourir”. O júri do Goncourt retirou o livro da lista de finalistas. As denúncias de plágio envolvem artigos e um conto, não o romance, e não foi divulgada uma avaliação independente sobre o uso de IA.
O escritor haitiano-canadense Thélyson Orélien, de 38 anos, reconheceu ter plagiado textos em trabalhos anteriores, mas negou que tenha usado inteligência artificial para escrever seu romance “C’était ça ou mourir”. A controvérsia levou o júri do prêmio Goncourt a retirar o livro da lista de finalistas deste ano. Orélien se pronunciou em comunicado divulgado na terça-feira por sua editora francesa.
O autor pediu desculpas por ter apresentado textos alheios como se fossem seus. “Mas a admiração não me dá o direito de me apropriar de textos que não são meus e reivindicá-los como se fossem meus”, afirmou. Ele também disse: “Cometi erros inaceitáveis, apesar da minha juventude e inexperiência. Lamento profundamente e peço desculpas sem reservas”.
As denúncias de plágio dizem respeito a publicações anteriores ao romance, lançado neste ano. A emissora pública canadense Radio-Canada apontou que quatro artigos de opinião assinados por Orélien em 2012 e 2013 continham trechos copiados. Também identificou semelhanças entre passagens do conto “Où va le monde”, premiado em 2012, e do livro francês “Le Matin des Magiciens”, publicado em 1960.
A acusação de uso de inteligência artificial surgiu no mês anterior, depois que um perfil pouco conhecido nas redes sociais afirmou ter submetido o romance à ferramenta Pangram, que detecta textos possivelmente produzidos por IA. O perfil disse que o resultado indicava uso da tecnologia. Mais tarde, foi identificado que Samuel Fitoussi, colunista do jornal francês Le Figaro, administrava parcialmente a conta.
Orélien negou que uma máquina tenha escrito o romance e classificou a acusação como “calúnia e heresia”. Ele reconheceu ter usado ferramentas de pesquisa, sobretudo para consultar expressões idiomáticas estrangeiras, mas disse que nenhuma frase foi criada por inteligência artificial. Não foi divulgada uma avaliação independente que confirme ou descarte o uso da tecnologia, nem foram detalhadas as evidências consideradas pelo júri do Goncourt.
O escritor afirmou que começou a trabalhar no livro em 2017 e terminou uma primeira versão, de 300 páginas, em 2019. A narrativa acompanha a jornada difícil de um haitiano rumo ao Canadá e combina experiências do autor com relatos de outros migrantes. “Vem das minhas próprias feridas e das feridas de outros migrantes”, disse Orélien sobre a origem da história.
Nascido no Haiti, ele se mudou para o Canadá após o terremoto de 2010, que destruiu sua casa. Orélien disse que o silêncio durante a repercussão permitiu que outros narrassem o caso em seu lugar. “O silêncio tem um preço: ao permanecer calado, eu estava deixando que outros contassem minha história por mim”, afirmou.
O autor declarou que recebeu ameaças e foi alvo de assédio racista, além de descrever a reação como um “linchamento midiático”. Também criticou especialistas que, segundo ele, atacaram o romance. Embora tenha reconhecido a legitimidade das críticas ao plágio, afirmou que a reação pública foi além do debate sobre a obra e pediu que o livro fosse julgado “pelo que é”.
O caso alimentou discussões entre escritores e editores franceses sobre inteligência artificial na literatura e sobre como estabelecer a autoria de uma obra. O Goncourt é considerado a mais prestigiosa distinção literária francesa; a retirada da lista de finalistas, porém, não equivale a uma conclusão de que o romance tenha sido escrito por IA.
Para entender
- Prêmio Goncourt
- Distinção literária francesa criada em 1903 e concedida anualmente a uma obra de ficção em língua francesa. É considerada um dos prêmios mais importantes da literatura francesa.