Polícias de SP investigam morte de jovem após 45 disparos em Moema
A apuração considera se Gustavo Munis de Santana tentou provocar uma reação fatal; o jovem foi atingido por quatro policiais e segurava um celular.
Resumo em 30 segundos
A Polícia Civil e a Corregedoria da PM de São Paulo investigam a morte de Gustavo Munis de Santana, de 20 anos, em Moema. Uma hipótese é que ele tenha tentado provocar uma intervenção policial fatal. A investigação também deve esclarecer a quantidade de disparos, a dinâmica da ação e quem chamou os policiais.
A Polícia Civil e a Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo investigam a morte de Gustavo Munis de Santana, de 20 anos, atingido por 45 disparos feitos por quatro policiais na madrugada de sábado (10), em Moema, na zona sul da capital. Uma das hipóteses apuradas é se o jovem teria provocado uma reação policial com a intenção de morrer, possibilidade conhecida como “suicide by cop” — expressão em inglês para suicídio provocado pela polícia.
Investigadores também tentam determinar quem fez a ligação que levou a equipe até a alameda dos Guaramomis. De acordo com o boletim de ocorrência, uma pessoa informou que havia um indivíduo transtornado, ameaçando atirar contra si. A polícia apura se o próprio Gustavo telefonou.
A versão oficial relata que os agentes encontraram o jovem perto de uma passarela. Ele correu, levou a mão à cintura e, em certo momento, apontou um objeto escuro para os policiais. Os quatro atiraram. Depois, verificou-se que o objeto era um celular. A perícia constatou ao menos 27 ferimentos no corpo de Gustavo.
Pessoas que tiveram acesso às imagens das câmeras corporais dos policiais afirmam que ele corria com a mão na cintura e ameaçava atirar antes de ser atingido. A interpretação de que a conduta poderia ter sido uma tentativa de provocar uma intervenção fatal ainda não foi confirmada pela investigação.
A hipótese ganhou força entre investigadores após relatos de acionamentos policiais anteriores. Desde 2022, Gustavo teria feito ao menos 16 ligações para denunciar pessoas armadas que estariam prestes a cometer crimes. Quando as equipes chegavam aos locais informados, encontravam o próprio jovem na situação descrita. A informação foi atribuída a integrantes do governo paulista que acompanham o caso.
A família disse que não comentaria o assunto por enquanto. Aos policiais, familiares afirmaram que Gustavo vivia com a mãe e as irmãs e fazia tratamento com antidepressivos desde o ano passado. Ele não tinha antecedentes criminais.
Mesmo que a investigação confirme a hipótese de suicídio provocado pela polícia, a quantidade de tiros e a proporcionalidade da ação também precisam ser esclarecidas, segundo integrantes da Polícia Civil. A apuração deve reconstituir a dinâmica dos disparos e avaliar as circunstâncias do atendimento.
A Polícia Militar paulista investiga casos com características semelhantes pelo menos desde 2018. Naquele ano, um levantamento do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) identificou três ocorrências desse tipo entre 22 atendimentos da unidade, o equivalente a 14%, conforme dados divulgados à época pelo então comandante do Batalhão de Operações Especiais da PM, major Valmor Saraiva Racorti.
Racorti explicou que esses episódios podem envolver pessoas que tentam criar uma situação de confronto para serem mortas. Algumas podem ter pensamentos suicidas sem histórico criminal. Entre os sinais estudados estavam ameaças a policiais, gestos entendidos como agressivos e exposição deliberada ao risco de tiros. A PM havia anunciado a intenção de usar os dados para desenvolver treinamentos e protocolos, inclusive para equipes que atendem primeiro às ocorrências.
Para entender
- Suicide by cop
- Expressão em inglês usada para descrever situações em que uma pessoa tenta provocar uma reação policial que resulte em sua morte. A hipótese, por si só, não comprova a intenção da pessoa nem esclarece se a atuação dos agentes foi proporcional; esses pontos dependem da investigação.