Paulo Serra concentra votos no ABC e Lucas Pavanato se espalha
Serra recebeu 78,3% dos votos em Santo André; Pavanato teve eleitores nos 645 municípios paulistas e alcançou a maior votação já registrada no estado.
Resumo em 30 segundos
Paulo Serra e Lucas Pavanato foram eleitos deputados federais por São Paulo com bases eleitorais distintas. Serra concentrou 78,3% dos votos em Santo André e foi o único eleito do Grande ABC para a Câmara. Pavanato recebeu votos em todos os municípios paulistas, apoiado por forte presença nas redes sociais e pautas de confronto.
Paulo Serra (PSDB) e Lucas Pavanato (PL), eleitos deputados federais por São Paulo em 2026, tiveram votações que ilustram duas formas distintas de construir uma base eleitoral: uma concentrada numa região e outra espalhada pelo estado. Serra recebeu 132.866 votos, enquanto Pavanato obteve 3.038.438 — a maior votação já registrada para o cargo em São Paulo.
Serra foi prefeito de Santo André por dois mandatos, entre 2017 e 2024, e terminou a gestão com cerca de 80% de aprovação. Sua campanha para a Câmara se concentrou no Grande ABC, com a proposta de articular em Brasília projetos para os sete municípios da região. Ele foi o único representante do Grande ABC eleito para a Câmara.
A votação de Serra refletiu esse foco local: 78,3% dos votos que recebeu vieram de Santo André. Pavanato, por sua vez, teve eleitores nos 645 municípios paulistas. Para reunir 80% de seus votos, seria necessário somar os resultados de 98 cidades.
Pavanato havia sido eleito vereador de São Paulo em 2024, com 161 mil votos. Na eleição para deputado federal, ampliou sua presença por meio das redes sociais e de pautas como críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF), o impeachment do ministro Alexandre de Moraes e temas ligados às guerras culturais.
Os dois resultados representam maneiras diferentes de criar vínculo entre representante e eleitor. No modelo associado à base territorial, a relação depende da presença numa região, da prestação de contas e da explicação do trabalho parlamentar. Já a chamada democracia de audiência se apoia mais na comunicação direta entre uma liderança e pessoas dispersas, reunidas em torno de temas ou causas.
Em entrevista publicada em setembro, Pavanato afirmou: “O que desperta o interesse do público é confronto, são os discursos mais enfáticos.” Ele também disse que não consegue fazer uma entrega de mandato viralizar tanto quanto um debate com um adversário de esquerda.
A diferença entre os modelos não torna menos legítima a representação de eleitores mobilizados por causas comuns. Deputados federais têm atribuições que ultrapassam os limites de uma cidade ou região. A questão é como os incentivos eleitorais e a busca por atenção podem influenciar as prioridades do Congresso.
Temas como saúde, transporte, emprego, segurança e educação exigem negociação e resultados que podem ser avaliados ao longo do tempo. Já o confronto pode gerar mobilização recorrente nas redes. Se essa lógica ganhar espaço, a disputa política pode favorecer mensagens que mantêm um adversário em evidência, em vez de propostas voltadas à solução de problemas concretos.
Para entender
- Grande ABC
- Região metropolitana de São Paulo formada por sete municípios: Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra.
- Democracia de audiência
- Conceito associado a uma forma de representação política em que a relação entre liderança e eleitores se estabelece principalmente pela comunicação direta e pela atenção pública, em vez de depender sobretudo de vínculos partidários ou territoriais.